Em
10 de maio de 1901, o capitão Aprigio Perez Nunes, delegado de policia de
Macapá, sofre um conflito armado pelo tenente Pompeu Aureliano de Moura,
comandante de um destacamento do Exercito instalado na Fortaleza de São José de
Macapá, em represália à decisão de Perez Nunes, de tirar do Exército a
incumbência do policiamento da cidade. A retirada desta responsabilidade do
Exercito, foi em razão de estarem acontecendo várias arbitrariedades cometidas
pelos aquartelados na Fortaleza, como abuso de autoridades etc.
Com o consentimento do intendente
Teodoro Mendes, Perez Nunes vai a Belém conserser com o chefe de policia
daquele municipio, a fim de recrutar pessoas para fins de instalar uma policia
civil no Amapá. Durante sua estada em Belém, Pompeu Moura, depois de várias
reuniões, consegue convencer a população de Macapá de que Perez Nunes havia ido
a Belém recrutar varios pára-militares com a intenção de tomarem a cidade, para
transformá-la numa região independente, a exemplo de Cunani. Ao regressar com
oito novos policiais civis, Perez Nunes é abordado por soldados da Fortaleza
que fizeram fogo ao delegado de policia e seus novos recrutas. Nunes conseguiu
fugir ao cerco e volta novamente a Belém, para relatar o caso ao seu chefe, o
delegado de Policia de Belém.
Em 22 de maio de 1901, uma corveta da
marinha brasileira aporta em Macapá, conduzindo um oficial do Exército, uma
guarnição militar e o capitão Aprigio Nunes, para renderem o tenente Pompeu
Moura, responsável pelo conflito.
Existe uma outra versão para o
conflito, de autoria de Ernesto Cruz (História do Poder Judiciário, pág. 100).:
26.03.1901. Acontece em Macapá um conflito entre as tropas do
capitão da Guarda Nacional de Macapá, delegado de Policia Aprígio Perez Nunes e
do tenente de Infantaria do Exército, sediado em Macapá, Pompeu Aureliano de
Moura, que teve apoio do juiz de Direito Manoel Buarque da Rocha Pedregulho. Há
troca de tiros e lutas entre os contendores. Na realidade, os partidários do
delegado Aprígio eram simpatizantes do governo anterior do Pará, Lauro Sodré,
que foi derrotado..
Nesta mesma data, assume um novo juiz
da Comarca de Macapá, Francisco Peregrino dos Santos Tocantins, considerado
“Laurista” – partidário do governador Lauro Sodré. Há boatos de que haviam
deposto o presidente da República Campos Sales e o vice-presidente Rosa e Silva
havia assumido, e que o novo governador do Pará, Augusto Montenegro, havia
aderido ao movimento, mas que sua adesão não havia sido aceita.
No dia anterior, 25 de março, havia
chegado à capital o juiz Manoel Buarque, como juiz de Direito substituto,
considerado “lemista” – partidário do governador Antonio Lemos – acompanhado do
capitão Aprígio Peres Nunes, prefeito de Segurança de Macapá. Os lauristas, que
constituíam a maioria e que viviam sob regime de opressão, rebelaram-se e
atacaram o juiz substituto e o prefeito de policia, ajudados pelo chefe da
policia local, coronel Coriolano Jucá, e o alferes do Exército, tenente Pompeu
Aureliano de Moura, comandante da Fortaleza de São José. Todos lauristas.
Os amotinados cometeram excessos, prendendo o juiz e sua família em um
chiqueiro, na companhia de suínos. A política partidária exacerbada jogava juiz
contra juiz. O episódio chegou à troca de tiros entre os litigantes e o juiz de
Direito Manuel Buarque, que sempre foi imparcial, só pelo fato de ter sido
nomeado pelo governador Augusto Montenegro, sofreu os vexames que
posteriormente foram levados ao tribunal.
Outra versão
25.1- REVOLUÇÃO
MACAPAENSE
Em
31 de Janeiro de 1901, houve eleição para escolher o governador do Pará, que
tomaria posse dia 1 de fevereiro, substituindo o Dr. José Paes de Carvalho. O
Dr. Augusto Montenegro, candidato do Partido Republicano Paraense contava com o
importante apoio do Intendente de Belém Antônio Lemos e disputou as eleições
indiretas, concorrendo com Justo Chermont, que era o candidato do Dr. Paes de
Carvalho e contava com o apoio de Lauro Sodré, e o Dr. Germiniano Lira Castro.
Em
Macapá, o Intendente era o Tenente Coronel da Guarda Nacional, Theodoro Manuel
Mendes, eleito pelas urnas, que decidiu não apoiar o governo de Augusto
Montenegro. O Juiz de Direito era Francisco Peregrino dos Santos Tocantins.
Exercia o comando das forças federais aquarteladas na Fortaleza de São José o
Alferes Pompeu Aureliano de Moura.
As mais expressivas lideranças políticas de
Macapá eram a favor de Lauro Sodré: o Tenente-Coronel Theodoro Manuel Mendes,
Intendente; Joaquim Francisco de Mendonça Júnior, redator chefe do Jornal
Pinsônia; o Juiz de Direito Francisco Tocantins; o Alferes Pompeu Aureliano; o
Coronel Coriolano Fineas Jucá; o Coronel José Serafim Gomes Coelho; José
Antônio Siqueira, que também era Tenente-Coronel exercia a função de
Diretor-gerente do Jornal Pinsônia e era o Promotor Público da Comarca de
Macapá. Nas eleições de 1901, o Intendente preferiu votar no Dr. Germiniano
Lira Castro, relegando as orientações de Lauro Sodré para que apoiasse Justo
Chermont.
Visando
restringir o poder do Intendente Theodoro Mendes, Augusto Montenegro designou o
Juiz Substituto da Comarca, Manuel Buarque da Rocha Pedregulho, para ativar a
Prefeitura de Segurança, cujo titular seria o capitão Aprígio Peres Nunes.
Trouxe sete (7) homens para organizar a guarda local, visto que ninguém queria
ser soldado da milícia estadual. Com ele veio o capitão Aprígio Peres Nunes. O
Coronel Theodoro Manuel Mendes, divergindo de Lauro Sodré, havia mandando que
seus correligionários votassem no Dr. Germiniano Lira Castro, outro candidato
ao governo do Pará. A presença do Dr. Rocha Pedregulho tinha por escopo
neutralizar qualquer decisão em contrário da parte do Juiz de Direito Francisco
Tocantins, acostumado a valer-se da guarnição da Fortaleza para manter a ordem
na cidade de Macapá.
O
Dr. Rocha Pedregulho e o capitão Aprígio Nunes chegaram a Macapá, dia 25 de
março, no barco “Flor da Bondade”, pertencente ao novo Prefeito de Segurança. A
embarcação adentrou no Igarapé da Fortaleza e, após o desembarque do Juiz
Substituto, retornou para o Furo da Cidade, região da ilhas onde ficava a
propriedade do capitão. Na manhã do dia 26 de março, Aprígio Nunes retornava a
Macapá trazendo 18(dezoito) capangas, armas e munições. Imediatamente começaram
a circular boatos diversos. Um deles chegou ao conhecimento do Juiz de Direito
Francisco Peregrino, dando conta de que haviam deposto o Presidente da
República Manuel Ferraz de Campos Sales e o Vice-Presidente Francisco de Assis
Rosa e Silva. Na verdade, os monarquistas sediados no Rio de Janeiro, tinham
preparado um golpe para depor os dois mandatários, dia 19 de fevereiro, mas a
conspiração foi descoberta a tempo de ser evitada e presos seus idealizadores.
Faziam parte dos articulistas do golpe, militares da Brigada Policial, oficiais
do Exército, da Marinha e populares. Alguém vindo de Belém, que ouvira a
notícia, mas não sabia o desfecho, quis dar uma de entendido. Ora, nesta época
não existia o rádio no Brasil e a comunicação com a capital da República se fazia através
de cabo submarino. Outro boato dizia que o capitão Aprígio Nunes tinha sido
orientado para destituir do cargo de Intendente o Tenente-Coronel Theodoro
Mendes e até matá-lo, se fosse preciso. Os dois boatos sacudiram a cidade. Em
relação ao primeiro boato, o Dr. Peregrino solicitou que Alferes Pompeu Aureliano
mantivesse a tropa da Fortaleza em alerta. No segundo caso, registrou-se uma
situação marcada pelo respeito que os macapaenses devotavam a Theodoro Mendes.
Com era possível que alguém tivesse o descaramento de tentar matar um cidadão
íntegro, formado como Guarda Livro na cidade do Porto, em Portugal, além de ser
um dos mais festejados oficiais da Guarda Nacional? O negro Pedro Cecílio da
Silva, vulgarmente conhecido como Pedro Lazarino, indignado com os fatos
decidiu usar de um estratagema. Infiltrou-se entre os correligionários de
Augusto Montenegro e de Antônio Lemos,
dizendo que havia rompido com o
Tenente-Coronel Theodoro Mendes porque ele fazia oposição ao governador do Pará
e tinha orientado os macapaenses a votarem em Germiniano Lira Castro.
Assim, conseguiu participar de uma reunião organizada por Aprígio Nunes na casa
do Juiz Manoel Buarque Pedregulho, onde ficou a hora do inicio da luta e o
assassinato de Theodoro Mendes. Tão logo terminou a reunião, “Lazarino”
dirigiu-se à casa do Intendente, avisando-o da trama armada por seus desafetos.
Theodoro relutou em acreditar na informação, pois Aprígio Nunes era seu
“compadre de águas bentas”. Por conta própria, Pedro da Silva Cecílio, pôs-se
em contato com o Alferes Pompeu Aureliano, comandante da força federal
acantonada na Fortaleza. Ao contrário de Theodoro Mendes, o Alferes Pompeu
acreditou em Lazarino e mobilizou seus comandados. Na base da comunicação
boca-a-boca, a população também foi cientificada do que estava acontecendo e
partiu para defender Theodoro Mendes. O conflito eclodiu à noite. Populares e
soldados do Exército posicionaram-se em frente e nos arredores do imóvel onde
morava o Juiz Substituto, um casarão bem próximo da Intendência, na atual
Avenida Mário Cruz. Aos gritos, os populares exigiam que Aprígio Nunes e o Juiz
Manuel Buarque saíssem para lutar. De repente, um negro, do meio da multidão,
atira para o interior do casarão, deflagrando o tiroteio. Quem tinha arma em
casa usou-a na noite de 26 de março. Os soldados estavam à paisana, o mesmo
acontecendo com o Alferes Pompeu. Um elemento do destacamento do Exército
comandou um grupo de populares para evitar a fuga do capitão Aprígio e de seus
capangas. Os populares tocaram fogo no barco “Flor de Bondade” reduzindo-o a
cinzas. Desorientado, Aprígio Nunes, aproveitando a escuridão, conseguiu chegar
à praia em frente à cidade, fugindo em uma montaria que ali se encontrava.
Alguns dos seus capangas o acompanharam.
O
juiz de Direito Substituto Manuel Buarque conseguiu sair da área de conflito no
momento em que o capitão Aprígio Nunes
retirava-se em fuga. Para
não ser visto pelos populares que corriam para todos os lados, o juiz
refugiou-se na casa de uma senhora conhecida por Eugênia, perto da residência
do Coronel Coriolano Fineas Jucá, homem muito respeitado, que se mantivera
neutro no conflito. As filhas do Dr. Manuel Buarque, temerosas de que o pai
corresse sério risco de vida, rogaram à ajuda do Coronel Coriolano Jucá, sendo
por ele atendidas. Pessoas de confiança levaram o Dr. Manuel Buarque, esposa e
filhas para a casa do comendador José Antônio Siqueira, até que os ânimos dos
populares arrefecessem. Pela madrugada do dia 27 de março foram conduzidos para
a casa da professora Cora Rolla de Carvalho e aí deixados a mercê dos soldados do
Exército que os prenderam.
Humilhados
e seriamente ofendidos, o Juiz e seus familiares foram metidos em um chiqueiro
e posteriormente, devido à interferência de lideranças locais, mandados para a
Fortaleza do Vieirinha, em Gurupá, porque corriam perigo se fossem encarcerados
na Fortaleza de São José. Para maior segurança dos presos, o Coronel Coriolano
Jucá cedeu um de seus barcos a vela para transportá-los. A residência do Dr.
Buarque Pedregulho foi saqueada. Os invasores levaram tudo que se podia carregar
até mesmo os livros de direito e animais de criação.
Na
manhã do dia 27 de março, a cidade apurou o saldo da violência da noite
anterior. Além de bens destruídos e de furtos diversos, houve cinco mortes:
dois soldados do Exército e três populares que integravam a turma revoltada.
Comentava-se que o capitão Aprígio Nunes só conseguiu alcançar a praia porque
se vestiu de mulher, usando roupa preta.
O
Dr. Manuel Buarque foi bem tratado na fortaleza do Vieirinha e daí levado para
Belém, com escala em Breves, para rápido descanso. Ao chegar a Belém, elaborou
um contundente relatório, incriminando, principalmente o Alferes Pompeu
Aureliano de Moura de Moura.
O
governador Augusto Montenegro determinou que o comandante do Distrito Militar
do Estado do Pará tomasse as províncias para restabelecer a ordem em Macapá. Assim , em
dias do mês de abril, o tenente Francisco Ferreira e o Alferes Paulino Bastos
chegaram a Macapá comandando setenta (70) praças da polícia. No mesmo momento a
cidade recebeu a visita do tenente Francisco d’Ávila e Silva, a frente de vinte
(20) praças do Exército para substituir o Alferes Pompeu e a guarnição da
Fortaleza de São José.
Causou
admiração aos militares saber que, entre os revoltosos, havia uma mulher negra,
empunhando um rifle winchester, e que acompanhava Pedro Lazarino. Seu nome era
Josefina de Souza, sobrinha do elemento que se destacou como herói do
movimento, Pedro da Silva Cecílio.
O
Coronel Theodoro Manoel Mendes não sofreu represálias porque ficou provado que
ele não se envolveu no conflito. (BARBOSA, Coaracy Sobreira. História da
Justiça do Amapá, 1999, Pág 136)







