quinta-feira, 30 de julho de 2015

Lendas da Amazônia: VITÓRIA RÉGIA



Contam que, certa vez, uma linda cunha levada pelo amor, querendo transforma-se em estrela pelo contato selênico, procurou as grandes elevações, montes, colinas e serras,na esperança de ver seu sonho realizado, naquele momento de magia e felicidade. Naquela noite de luar,quando as estrelas do céu pareciam entoar cânticos à beleza da terra, a linda jovem querendo tocar na lua, que se banhava no lago, lançou-se às águas misteriosas, desaparecendo em seguida.

Jaci, a lua,num instante de reflexão apiedou-se dela, que era tão bonita e encantadora e, como régio premio à sua beleza resolveu imortaliza-la na terra por ser impossível leva-la consigo para o reino astral, e transformou-a em vitória-régia – “estrela das águas” – tão formosa como as estrelas do céu, com o perfume inconfundível, que jamais foi dado a outra flor. Depois, dilatando tãojusto prêmio, estirou-se quanto pôde, a palma das folhas, para maior receptáculo dos afagos da sua luz, amorosamente reconhecida.

Ainda hoje vive a vitória-régia o esplendor que recebeu naquela noite de lugar quando Jaci, soberana da noite, imortalizou-a com o beijo de luz que ainda perdura, e que teve o destino de transforma-la em “estrela das águas”.[1]




[1] MELO, Anísio, Estórias e Lendas da Amazônia.

terça-feira, 28 de julho de 2015

LARGO DOS INOCENTES



Texto: Edgar Rodrigues

Situado atrás da Igreja de São José, em Macapá, entre a rua São José e a Tiradentes, a primeira informação do Largo dos Inocentes data de 1761. O local passou a ter essa denominação por causa da Passagem dos Inocentes, que ligava a Rua do Lago (atual General Gurjão) e a atual Coriolano Jucá. No largo eram realizadas as festas em  louvor a Nossa Senhora Menina, ao Menino Jesus e os Pequenos Mártires Inocentes.[1]

A possível existência de um cemitério infantil atrás do templo antigo (Igreja de São José), onde, segundo o padre Júlio Maria Lombaerde,[2] chegaram a ter, até o final do século XIX, cerca de 450 túmulos de “anjinhos inocentes”, seria a justificativa mais plausível da denominação “Largo dos Inocentes”. Antes da releitura da citada obra do padre Júlio, havia a tese de que a nomenclatura “Largo dos Inocentes” seria em homenagem ao episódio que aconteceu, no tempo de Jesus – citado no Novo Testamento --, chacina, autorizada por Herodes, de crianças até 2 anos, ocorrida em Jerusalém, porque ele queria extinguir qualquer vestígio de Jesus Cristo que, segundo informantes do rei, teria nascido para substitui-lo no futuro.[3]

Até o final do século XIX havia a tradição, entre a população católica e o clero local de qualquer cidade, de enterrar no interior das igrejas, o corpo de membros de famílias que ajudavam na manutenção do vigário local e dos reparos no templo, e esses membros eram sempre pessoas de posses, como políticos, lideres locais e pecuaristas. Basta entrar no templo da Igreja de São José – o monumento mais antigo da cidade de Macapá – e observar, no interior, vários túmulos de familiares de pessoas famosas, como os Machados, os Rolas e os Gurjões (alusão às famílias de Leopoldo Machado, Procópio Rola e General Gurjão).

Não há indícios de enterros de crianças atrás da Igreja; pois havia também a tradição dos restos mortais das crianças serem colocados em local próprio, e por isso mesmo, foi criado um local, a partir do século XVIII, para que os “anjinhos” fossem enterrados, e em todos os finais de mês, geralmente nas últimas segundas-feiras, eram organizados rituais para “sufrágio das almas destes seres cujas vidas foram subtraídas antes deles chegarem à puberdade – por mistérios que não foram repassados para nós, e que, com certeza, Jesus Cristo explicaria no futuro...”[4]

O ritual mais completo no Largo, envolvendo tanto a lembrança das almas adultas como das infantis, era realizado sempre no dia 2 de novembro, onde a Igreja Católica festeja Finados. Assim, a Boulevard de Macapá, nome da primeira rua (atual Mendonça Furtado), que distava da frente da Igreja até o local onde existe o atual Cemitério de Nossa Senhora da Conceição[5]

Com a criação do Território Federal do Amapá, o primeiro governador, Janary Nunes, juntamente com sua equipe de governo, sentiram a necessidade de expandir Macapá para além da Igreja de São José. Assim, foi criado um novo cemitério, que é o atual Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, entre a Eliezer Levy e a Mendonça Furtado, e todos os restos mortais das crianças enterradas no Largo foram remanejados para a área do então novo cemitério[6]. Os adultos que não eram enterrados na nave da Igreja, ficavam na área da atual Avenida Mendonça Furtado entre a Tiradentes e a Odilardo Silva.

A partir de 1946 seus restos mortais foram remanejados para o referido cemitério. Assim, a nomenclatura Largo dos Inocentes passou para a história de Macapá como um acontecimento do passado, haja vista que sua nomenclatura de Largo foi mudada, com o tempo, para Formigueiro.

Não conseguimos uma justifica plausível para a expressão “Formigueiro”, que substituiu a nomenclatura antiga de Largo dos Inocentes, muito embora alguns descendentes de moradores da década de 50, que estão no mesmo local, afirmem que a expressão se deu porque o antigo Largo passou a ser povoado por várias casas, com movimentos de pessoas de um lado para outro, se transformando numa grande favela dando, assim, o formato de um grande formigueiro, compreendendo toda a área delimitada pelas avenidas General Gurjão e Presidente Vargas e ruas São José e Tiradentes. O tombamento do local teve seu processo iniciado pelo Conselho Estadual de Cultura, e há desejos de tombamento pelo Iphan.

A largura do logradouro correspondia, no passado, ao trecho ocupado pelo templo e as duas travessas, que passavam a seus lados (Travessa de Santo Antonio e Travessa do Espírito Santo). No ponto de fundo paralelo à igreja ficava a última via pública da vila, que ostentava o nome do fundador de Belém, capitão Francisco Caldeira Castelo Branco (atual Rua Odilardo Silva).   Uma passagem, denominada depois de coronel José Serafim Gomes Coelho, interligava o Largo dos Inocentes com a rua General Gurjão e com a travessa Floriano Peixoto.

Ao lado esquerdo da igreja de São José o espaço abrigaria a casa do vigário Miguel Ângelo de Moraes. A casa dava para a Praça de São Sebastião (depois Praça Capitão Assis de Vasconcellos, e hoje Praça Veiga Cabral). No lado oposto foi construído o prédio do Senado da Camara[7]. As casas que circundavam o Largo dos Inocentes eram feitas de barro que eram enxertados em madeiral cruzado. Não havia espaço entre uma casa e outra. De cada lado figuravam dez casas. Ao longo da existência de Macapá, inúmeras famílias ocuparam as moradias. Em anos mais recentes, que antecederam a criação  do Território Federal do Amapá, em 1943, famílias tradicionais ali se estabeleceram, entre elas: os Linos, os Tavares, os Serra e Silva, os Ramos, os Lemos, os Marianos etc.

Os Linos e os Ramos, que também povoaram a frente da cidade, foram convidados, pelo governador Janary Nunes, através de seu líder, Julião Ramos, a se mudar para um local mais ao Norte de Macapá, denominado Laguinho[8], e cada família ganhou um terreno que media 30 por 60 metros, circundado por várias ressacas, e foram criados vários poços de água potável tipo Amazonas, denominados Poços do Mato, onde o último, resistindo à ocupação desenfreada de migrantes, resiste até hoje, atrás da Caesa.

Em 1948, com a chegada dos missionários italianos do Pime[9], a configuração do Largo dos Inocentes mudou. O trecho da passagem José Serafim, entre o Largo e a avenida Presidente Vargas (ex Travessa Floriano Peixoto) foi fechado. As casas edificadas entre a passagem e a casa antiga do vigário foram desapropriadas. O domínio dos padres ganhou cerca e virou “Quintal dos Padres”, local ainda muito freqüentado pelas crianças da paróquia de São José.

Em 1955 foi inaugurado o edifício do então Pensionato de São José, construído através de cooperação entre o então governador Janary Nunes e a Igreja Católica através de sua Prelazia, com a ajuda dos comerciantes locais. Em 1956 começou a funcionar a Escola Paroquial São José, recebendo alunos do curso primário (correspondente às 5 séries iniciais do Ensino Fundamental), tornando a instituição, juntamente com a Escola Santa Bartoloméa Capitânio, as mais famosas da cidade, onde a maioria dos filhos de empresários  e lideres políticos, assim como autoridades do Judiciario, eram matriculados nelas. A Escola funcionou até 1974.

O “golpe de misericórdia” da “morte” do “Largo” se deu a partir de 2011, quando a Diocese de Macapá, sem ouvir as instituições de proteção ao Patrimônio Histórico como o Iphan e a própria população, verdadeira proprietária do prédio, autorizou a transformação do conjunto arquitetônico do então Pensionato, num prédio grande, adequado para o funcionamento de um Shopping. Como sempre, e tomando-se como exemplo o próprio templo antigo da Igreja de São José, que não pôde ser tombado por causa das transformações irregulares que os religiosos católicos, tanto da MSF[10] como do Pime[11], esta mesma prática foi executada no referido conjunto arquitetônico que já possuía mais de 50 anos de existência, e foi criminosamente modificado para se constituir em uma galeria comercial.

Assim, a expressão “Largo dos Inocentes” apenas figura nas crônicas do padre Júlio Maria de Lombaerde, escritas no jornal Correio de Macapá, e em algumas linhas escritas pelo também saudoso padre Ângelo Bubani, e que fazem parte de sua obra “Pistas para a História da Evangelização no Amapá”, mimeografada em 1979, e é uma das bases da minha pesquisa. Há uma tendência atual, de técnicos do Iphan, de resgatar um pouco desta história de Macapá antiga, para que estes episódios façam parte do conteúdo acadêmico dos futuros profissionais de História e de todos os curiosos que quiserem saber algo a respeito deste fato histórico.




Fontes de Consulta:

Depoimentos:

Padre Ângelo Bubani, em 12 de janeiro de 1979, por ocasião do lançamento de sua obra “Pistas para a História da Evangelização no Amapá”.

Padre Rogério Alicino, em 19 de fevereiro de 1975, por ocasião do lançamento de sua obra, pela Bibliex, denominada Clevelândia do Norte.

Reportagens:

Macapá antiga. Júlio Maria Lombaerde, jornal Correio de Macapá, edição de

O Largo dos Inocentes, pequenas informações históricas. Nilson Montoril de Araújo, Jornal Diário do Amapá, de 4 de fevereiro de 2002.

            Obras:

BUBANI, Angelo, Pistas para a História da Evangelização no Amapá, 1979,
      mimeografado, Macapá, AP.

LOMBAERDE, Júlio Maria; Momentos Históricos de Macapá, in Correio de
      Macapá, jornal, edição de 12 de setembro de 1916, Macapá, AP.

...... Vers Les Amazones – Instituto da Sagrada Família, Grave, Holanda, 1918,
      Trad. Ivan Fronazier Cavalieri.



[1] Alusão à passagem bíblica do Evangelho em que várias crianças abaixo de 12 anos foram assassinadas sob ordens do rei Herodes, no período em que se espalhou a noticia de que tinha nascido o futuro “rei dos Judeus”, Jesus Cristo.
[2] LOMBAERDE, Júlio Maria, Vers Les Amazones – Instituto da Sagrada Família,  Grave, Holanda, 1912. Trad. Ivan Cavalieri, Juiz de Fora, MG, 1987.
[3] Ver Mateus 2. 16-18.
[4] LOMBAERDE, JÙLIO Maria; Momentos Históricos de Macapá, in Correio de Macapá, jornal, edição de 12 de setembro de 1916, Macapá, AP.
[5] A Boulevard de Macapá é a atual Avenida Mendonça Furtado, e passou a ser denominada de Mendonça Furtado, a partir de 1946, por decreto do governador Janary Nunes, em homenagem ao fundador da então Vila de São José de Macapá.
[6] O ano de criação do Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, com a nomenclatura inicial de Cemitério de São José, foi 1946.
[7] No atual prédio da Biblioteca Pública Elcy Lacerda.
[8] O êxodo das famílias Lino e Ramos é cantado através de versos ladrões do Marabaixo, entre eles, “Pra onde tu vais rapaz”.
[9] Pime: Pontifício Instituto das Missões.
[10] MSF: Missiionários da Sagrada Familia.
[11] Pontificio Instituto das Missões

segunda-feira, 27 de julho de 2015

JESUITAS, presença no Amapá

A intensificação do trabalho missionário jesuítico se dá a partir da chegada do padre João de Souto Maior em 1652. Coube ao padre João a fundação do colégio de Santo Antonio em Belém. A partir desse ano as terras do Cabo do Norte passaram a ter neles, evangelizadores sistemáticos e constantes. Outra tarefa de Souto Maior foi em 1654, quando passou a estabelecer laços de amizade com os Aruaque, ajudando-os a vencer os Aniba, seus inimigos. A vitória sobre os Aniba teve a ajuda de 70 soldados e 400 índios ao comando do major João de Bittencourt Muniz.  Algum tempo depois, os Aruaque consentiram a fundação de uma missão chamada Jari, que passou, em seguida, às mãos dos franciscanos.

Mais tarde essa missão tornou-se vila, com a denominação de Fragoso, com uma igreja paroquial. Desavenças e descontentamentos entre comerciantes e exploradores fizeram com que esses jesuítas fossem expulsos do Cabo do Norte por duas vezes: a primeira ocorreu em 1660 e a segunda em 1757.

Em 1666 os padres de Santo Inácio começaram a exploração da Guiana Francesa, mas houve um movimento sistemático de trabalhos evangélicos ao norte e sul da Capitania, produzindo um trabalho magnífico que constou de levantamentos cartográficos, exploração de rios e fundação de escolas. É nesse período – que vai de 1672 a 1800 – que tiveram início as primeiras  coletas de dados feitas por pesquisadores de várias nacionalidades, sobre festas, danças, teatro sobre a vida dos santos, folias e o arraial, que surgiu com a finalidade prática de proporcionar comida e pousada aos visitantes e romeiros. Também entre os jesuítas houve quem fosse martirizado pela exploração dos comerciantes e aventureiros entre os índios, que se dividiam provocados pela lábia desses.

 Em 1687 os jesuítas Antonio Pereira (natural do Maranhão) e Bernardo Gomes (Pernambuco) se estabeleceram na região do Cabo do Norte, fixando residência em uma ilha do lago Camonixary. O governador Antonio Coelho de Carvalho e o padre Aloísio Conrado Pfeill, que os tinham acompanhado, ajudaram-nos na construção de uma casa, deixando-os depois de algumas semana, entregues aos trabalhos de evangelização. No dia 13 de setembro, um grupo de índios insuflados pelos comerciantes massacra os dois padres brasileiros. Seus corpos, encontrados pelo padre Aloísio são transportados para Belém e sepultados solenemente na igreja de Santo Alexandre.



Uma Carta-Régia de Portugal, datada de 12 de abril, proclama uma nova repartição das terras entre as congregações religiosas. Aos jesuítas coube a margem direita do Amazonas; aos capuchos de Santo Antonio as terras do Cabo do Norte e a margem esquerda do Amazonas, desde o Atlântico até o Paru (Almeirim), e aos frades da Piedade o rio Xingu e o distrito de Gurupá. As missões do rio Jari estavam sendo bastante positivas. A esse tempo, o padre Antonio Cunha encontra os Waiãpi (Guiapises) que haviam emigrado do sul do Pará, além dos Mocura, que estavam sendo assistidos desde 1700 pelos franceses que passavam a lhe dar presentes, em troca de algumas terras para o estabelecimento de feitorias. Em 1709 o padre Antonio Cunha consegue dissuadir esses índios da amizade dos franceses. Deslocando-se para o baixo Jari, eles passam a constituir uma missão, tornada oficial em 1710, através da Carta Régia datada de 2 de julho, que autoriza a Companhia de Jesus a explorar e catequizar os índios de ambas as margens do rio.

Coube ao jesuíta Miguel Ângelo de Morais, acompanhar algumas famílias açorianas ao mando do governador Mendonça Furtado, com a incumbência de darem início à povoação de Macapá em 1751. O próprio padre Miguel Ângelo os ajudou, juntamente com o coronel João Batista de Oliveira e uma guarnição sob seu comando, à construção de casas para as famílias e barracos para servirem de alojamento aos soldados que seriam enviados para cá. Mesmo acusados de terem protegido contrabandistas famosos como Pedro Braga e Francisco Portilho, perseguidos e temidos em toda a região, eles conseguiram, em 6 de junho de 1755, a abolição, por completo, da escravidão indígena do Pará e Maranhão.


Mas o que ficou caracterizado por abolição, foi apenas uma troca: os índios escravizados foram libertados, mas a partir desse ano teve início a fase mais negra (literalmente falando) da história: a exportação de escravos africanos.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

INTENDÊNCIA - Informações Históricas no Amapá



Texto: Edgar Rodrigues

A Intendência foi uma forma de governo de cidades no Brasil, instituída em 1895. Perdurou até 1930, com a Revolução Tenentista.

Com a proclamação da República do Brasil em 15 de novembro de 1889, o sistema de Administração foi reformulado. Nas terras que hoje são amapaenses, a mudança somente foi colocada em prática a partir de 10 de dezembro de  1890, quando o governador Justo Chermont, do Estado do Pará, decretou  a dissolução das câmaras municipais de Macapá e Mazagão, e na mesma data criou nos dois municípios o Conselho de Intendência Municipal.

O tenente-coronel da Guarda Nacional Coriolano Jucá foi o primeiro intendente de Macapá. Eleito em novembro de 1891, planejou a construção de um prédio para sediar o Conselho de Intendência Municipal[1], inaugurado em 15 de novembro de 1895. Atuaram, inda, no Conselho, os intendentes Teodoro Mendes, José Serafim Gomes Coelho, Leopoldo Gonçalves Machado, Alexandre Vaz Tavares, Ernestino Borges, Fileto Borges, Jorge Hurley e Otávio Accyoli Ramos. Com a chegada de Getúlio Vargas ao Poder em 1930, o cargo de Intendente foi extinto, sendo criado o de prefeito, que era nomeado pelo interventor federal dos Estados. Assim, o primeiro prefeito de Macapá foi o tenente Jacinto Boutineli (1930 a 1932), indicado pelo tenente Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, interventor do Estado do Pará.


INTENDENTES DE MACAPÁ

Fevereiro de 1895 a novembro de 1896 . Coriolano Jucá –  Coriolano Jucá foi quem iniciou a construção do prédio da Intendência, localizado na praça Zagury, em frente à cidade. Em 15 de novembro de 1895, o intelectual Joaquim Francisco de Mendonça Junior (Mucio Javrot) e o comerciante José Antonio Siqueira (de Cerqueira) lançam o jornal Pinsonia, inicialmente impresso em Belém. Em 19 de dezembro de 1895, o governador do Pará, Lauro Sodré, divide o único distrito judiciário de Macapá em cinco  circunscrições: Macapá (sede), Baturité (Santana), Ilha de Santana, Bailique e Araguari. Em 30 de janeiro de 1896, o intendente Coriolano Jucá nomeia membro das circunscrições judiciárias, os juízes Jerônimo de Oliveira (Região de Macapá), José Serafim Gomes Coelho (Região de Santana), Joaquim Gomes de Morais (Região do Araguari)

Novembro de 1896 a  janeiro de 1914. Manuel Teodoro Mendes - Em seu período de governo foi fundado o jornal Pinsônia, sob a direção de Joaquim Francisco de Mendonça Junior. Em 26 de março de 1901, se envolve em conflito político com correntes lideradas por Manuel Buarque Pedregulho, resultando em violentos tiroteios com mortos e feridos. Em 10 de maio de 1901 Macapá sofre um novo conflito, denominado de Revolução Macapaense. As partes envolvidas foram o capitão Aprígio Peres Nunes (delegado de polícia) e ex-comandante militar de Macapá, tenente Pompeu Aureliano de Moura, que comandava um destacamento do Exército aquartelado na Fortaleza de Macapá. Em represaria à decisão de Peres Nunes, de tirar do Exército a responsabilidade do policiamento da cidade, Pompeu conseguiu incutir na população de Macapá a idéia de que Peres Nunes viajou a Belém e estaria retornando com jagunços para tomar Macapá.

O conflito só foi resolvido no dia 22, quando aportou em Macapá uma corveta da Marinha, conduzindo um oficial do Exército, uma guarnição militar e Aprígio Nunes, que renderam o tenente Pompeu, único responsável pelo conflito. Em 3 de março de 1904, atendendo à solicitação do intendente de Macapá, Teodoro Mendes, o governador do Pará, pelo decreto nº 1282, concede uma área de terras devolutas para o patrimônio da Intendência de Macapá. Em 3 de abril de 1906, pelo decreto nº 243, Teodoro Mendes fixa os limites municipais e o patrimônio territorial de Macapá. A praça onde foi edificado o Mercado Central de Macapá se chamava Praça Teodoro Mendes.

Janeiro de 1914 a abril de 1920.  Coronel Leopoldo Machado - Um dos grandes fazendeiros da região do Araguari. Foi Coronel da Guarda Nacional de Macapá (decreto de 29 de julho de 1914.). Foi durante seu governo que houve uma crise religiosa (26 de maio de 1916), quando o pastor pentecostal Clímaco Bueno Aza chega a Macapá, e é impedido pelo padre Julio Maria Lombarde, de pregar idéias protestantes. O problema só foi resolvido em 30 de junho de 1916, quando Clímaco retorna à cidade com um mandado do juiz de Belém, João Batista de Miranda, autorizando-o a implantar sua igreja em Macapá, baseado no imperativo constitucional da Liberdade Religiosa. Em 1918 é criado o primeiro cinema de Macapá: o Cine Olímpia, pelo padre Julio, e inaugurado por Leopoldo Machado. O cinema passa a funcionar aos domingos. Leopoldo Machado faleceu em Macapá, em 16 de abril de 1926.

Abril de 1920 a setembro de 1921. Alexandre Vaz Tavares. Intelectual positivista, médico, político e educador macapaense, Alexandre Vaz Tavares, nascido em 8 de agosto de 1858 e faleceu em 3 de abril de 1926, aos 68 anos. Governou Macapá por um ano e meio.

Setembro de 1921 a março de 1922.  Ernestino Borges. Também teve grande notabilidade no governo da Intendência. Respeitado pelo seu poder de persuasão e determinação, dotou a cidade de Macapá de vários prédios públicos. Faleceu em Belém, em 16 de novembro de 1922, de problemas cardíacos.

Março de 1922 a agosto de 1926. Jorge Hurley. Substituindo Ernestino Borges na Intendência, o historiador rio-grandense Henrique Jorge Hurley mudou-se em 1901 para o Pará. Formou-se em Direito em 1910, e em 1914 é nomeado juiz de Direito de Macapá. Em 1922 assume a Intendência de Macapá até 1925. No período que esteve em Macapá colheu anotações para sua obra Traços Cabanos, no capítulo A Cabanagem em Macapá. Faleceu em 28 de abril de 1956.

Agosto de 1926 a dezembro de 1931. Otávio Acioli Ramos. Em sua gestão, Macapá recebeu um pequeno motor com gerador que fornecia energia elétrica para algumas residências e ruas do centro.

INTENDENTES DE AMAPÁ

Em 30 de abril de 1902, Joaquim Felix Belfort é nomeado para o governo da Intendência de Amapá, juntamente com Amaro Brasilino de Farias, Daniel ferreira e Manuel Agostinho Batista.

INTENDENTES DE MAZAGÃO

Em 15 de novembro de 1925, Alfredo Valente toma posse no cargo de intendente de Mazagão, nomeado pelo governador do Pará.

 

PRÉDIO DA INTENDÊNCIA DE MACAPÁ


O antigo prédio é uma construção do final do século XIX. Foi inaugurado em 15 de novembro de 1895, na administração do intendente Coriolano Jucá, para funcionar a Intendência de Macapá. Com influência neoclássica, este estilo arquitetônico tornou-se de grande importância durante o período do Império, com afirmação na Independência.

A partir de 1932, com troca das intendências pelo sistema de prefeituras, foi também sede da primeira prefeitura de Macapá, e posteriormente sede da secretaria de Obras Publicas, Segurança Pública e Defensoria Pública. Já abrigou o Museu Joaquim Caetano da Silva.Atualmente está em reformas para abrigar o Arquivo Público Estadual.

No prédio da Intendência foi realizada a seção de instalação do Governo do Território Federal do Amapá, a 25 de janeiro de 1944. O governador Janary Nunes dividiu os espaços do nosso terceiro mais antigo monumento com os perfeitos Eliezer Levy, Odilardo Silva, Jacy Barata Jucá, José Serra e Silva, Edilson Borges de Oliveira, Claudomiro de Moraes e Heitor de Azevedo Picanço.

Quando Janary passou a ocupar o prédio do Posto Médico e da Farmácia, erguidos onde hoje se encontra a Biblioteca Pública, os prefeitos ocuparam exclusivamente as dependências da Intendência. Em 1967, a Prefeitura instalou-se na Casa Maternal, atual Escola Estadual Emilio Médici. Desde 1969, a administração municipal encontra-se instalada no Palácio Laurindo Banha, na Avenida FAB, em frente à Primeira Igreja Batista de Macapá.

A Intendência abrigou diversos órgãos públicos até ser destinada ao Museu Joaquim Caetano da Silva, em 16 de novembro de 1990. É patrimônio histórico, cultural e arquitetônico regional e volta a ser visitada como sede oficial de uma instituição que promove a valorização da identidade amapaense.




[1] Mesmo prédio que abriga o Museu Histórico do Amapá Joaquim Caetano da Silva, em Macapá.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

IGARAPÉ DAS MULHERES


Igarapé das Mulheres. Anos 1970. Foto: Alcinéa Cavalcante

No antigo Igarapé das Mulheres, situado na orla da cidade de Macapá, e o que representa o atual bairro Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Nesse local, na década de 40, inicio do Território do Amapá, as mulheres lavavam as roupas da família e tomavam confortáveis banhos, ficando de guarda uma mulher com uma espingarda, chamada de Lazarina, para o caso da aproximação de alguém do “sexo feio” (nome que, no século passado, eram tratados os homens nos festejos do Marabaixo) para espiá-las na hora do banho.

A importância do antigo bairro reside em três fatores que devem ser levados em conta: o cultural, o econômico e o religioso. Vamos detalhar esses três fatores:


Aspecto cultura

O aspecto cultural se caracteriza pela freqüência inicial de vários regatões que vinham, da Ilha do Pará, muitos conduzindo famílias,  tanto para mudança definitiva ao local, como também para negociações de gêneros alimentícios. Os regatões chegavam, e enquanto os homens desembarcavam as mercadorias e especiarias (frutas, raízes, e produtos da cidade de Belém), as mulheres passavam a fazer amizade com as mulheres da cidade, que lavavam roupas todas as manhãs na orla, e nesse bate-papo elas passavam as últimas novidades. Essas noticias eram passadas aos maridos quando vinham do trabalho, e estes compartilhavam-nas com outros cavalheiros que, todas as manhãs, tinham seu ponto obrigatório numa espécie de “Clip Bar”, situado em frente ao Mercado Central, próximo à Fortaleza. Assim, a cidade ficava sabendo das novidades.


Aspecto Economico

Economicamente, a importância do Igarapé das Mulheres era em razão das mercadorias que vinham, em regatões da região das Ilhas, e eram desembarcadas na Beira. Parte delas, constituída de frutas (melancias, goiabas, bacabas, açaí, pupunha, graviola, biriba, etc), raízes (mandioca, macaxeira, batata-doce, cará) e produtos oriundos das mercearias de Belém e Breves (açúcar, arroz, condimentos como pimenta do reino e cominho etc), assim como produtos de lojas (vestuário, maquiagem etc).

Todos esses produtos abasteciam o mercado local. Parte deles era negociada na própria embarcação, com vários atravessadores que compravam “a grosso”, e outra parte levada para o Mercado Central de Macapá, onde era negociada “a varejo”. Assim foi o comércio de Macapá se estruturando, tomando como base o Igarapé das Mulheres.


Inicialmente esse repasse de produtos era feito à base do escambo (trocas). Após a criação do Território do Amapá, e com o surgimento do Mercado Central, que deu origem também ao comércio da rua Candido Mendes, os produtos eram negociados para pagamentos até mesmo com 30 dias, já que a fonte financeira era o “contra-cheque” dos servidores do ex-Território.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

FESTA DE SÃO TIAGO - Parte 1



A Festa de São Tiago em Mazagão Velho inicia no dia 16 de julho e termina no dia 27. Entretanto, o movimento maior se verifica nos dias 24 e 25, onde a programação refere-se a teatralização da lenda, montada pelos próprios membros da comunidade.Relembra as lutas religiosas travadas entre mouros e cristãos durante o período das Cruzadas, no norte da África, na então Mazagão Africana (hoje El Djadidá, no Marrocos). A primeira comemoração da festa se deu, em Mazagão Velho, em 23 de janeiro de 1777, por ocasião dos sete anos de instalação da vila.

No dia 24, a partir das 15 horas, os emissários dos Mouros entregam presentes envenenados às autoridades cristãs. Há uma ladainha às 20 horas e uma hora mais tarde começa o “Baile de Máscaras”, efetuado pelos Mouros em regozijo à vitória que pensavam ter alcançado por causa dos presentes envenenados que enviaram aos chefes cristãos. O dia 25 inicia com uma alvorada festiva às 04 horas da madrugada. Às 06:30 horas o Arauto sai pelas ruas da Vila convocando as figuras para o Círio. Às 08 horas ocorre o Círio de São Tiago e às 09 horas inicia uma missa solene. Ao meio-dia, o Bobo Velho sai às ruas para espionar os cristãos e é apedrejado por eles. Às 14 horas, acontece a saída do Arauto anunciando o início da representação da batalha entre Mouros e Cristãos. Depois, em ordem, encenam a tomada do estandarte, a descoberta e morte do Atalaia, a venda das crianças cristãos, a batalha entre as forças inimigas e o "Vomonê". Às 20 horas, ocorre o Recírio e, às 21 horas, outra missa seguida pela ladainha de São Tiago.

Nos dias 26 e 27, as crianças representam o mesmo espetáculo, montadas em cavalinhos de miriti (palmeira da região).


A história da festa

A atual vila de Mazagão Velho, situada a 36 km da sede do município (Mazagão Novo), às margens do rio Mutuacá, foi fundada em 1770 com o objetivo de abrigar 163 famílias de colonos portugueses vindos da costa africana em decorrência dos conflitos políticos-religiosos entre portugueses e muçulmanos que ainda por lá perduravam. Essas famílias e seus escravos chegaram no local por volta de 1771. A partir de 1777, em reverência a São Tiago, reviveram, através de encenações, as batalhas que cristãos e muçulmanos travaram no Continente Negro.

O evento fundamenta-se na lenda que conta o aparecimento de São Tiago como o anônimo soldado que lutou heroicamente contra os mouros. A lenda enfoca vários personagens e passagens interessantes: Desde a conquista das terras africanas, os lusitanos, fervorosos católicos, tentaram obrigar os muçulmanos a se tornarem cristãos e aceitarem a fé em Cristo e o batismo de sua religião. Esse fato provocou a reação dos seguidores de Maomé que declararam guerra aos cristãos, estes liderados na época pelos capitães Atalaia, Jorge e Tiago.

“Puxo a espada da bainha, em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo. Juro pela cruz da minha espada, que so a colocarei na bainha quando pôr fim a essa batalha com a minha vitória”. Com estas palavras, o figurante faz, na tarde do dia 25, na frente da Igreja de São Tiago, o juramento de São Tiago, um dos momentos mais importantes e emocionantes da encenação.
Durante dias ocorreram batalhas acirradas com grande vantagem para os lusitanos que se aquartelaram heroicamente, resistindo aos constantes ataques dos mouros. Estes, chefiados pelo Rei Caldeira, vendo que não venceriam seus antagonistas, imaginaram e armaram uma cilada. Esta cilada consistia em pedir o fim da guerra e entregar aos capitães cristãos maravilhosos presentes em forma de iguarias.

Os cristãos receberam os presentes com grande surpresa e imediatamente desconfiaram que pudessem estar envenenados. Assim jogaram uma parte da comida na granja dos mouros, onde ficavam os animais, e guardaram a outra objetivando preparar uma contra-ofensiva. Sem nada saber da desconfiança dos cristãos os mouros precipitadamente confiaram na vitória da cilada que armaram e, à noite, deram um baile de máscaras, estendendo o convite aos cristãos que quisessem passar para o seu lado, sem que pudessem ser reconhecidos pelos seus superiores.

Os cristãos compareceram mascarados à festa levando a parte da comida que haviam recebido como presente dos mouros e a distribuíram aos seus inimigos que dançavam, bebiam e comiam.

Quando amanheceu o dia, algumas autoridades mouras que costumeiramente visitavam a granja depararam com os animais mortos e chegaram a ver os restos da comida oferecida por eles aos cristãos. Imediatamente correram para despertar os soldados, ainda ressacados da festa, e constataram um espetáculo pavoroso: muitos soldados jaziam mortos por haverem comido o presente dos cristãos e entre eles estava o Rei Caldeira, seu Chefe supremo.
O filho do Rei Caldeira, denominado Menino Caldeirinha, assumiu o trono. Na manhã do outro dia os cristãos aproveitaram o desespero e a desorganização de seus inimigos para atacá-los.

Porém, antes do ataque eles se confessaram e prepararam-se espiritualmente fazendo um juramento. Daí, movidos pela fé, iniciaram uma luta sem precedentes, só amenizada por volta do meio-dia, quando os mouros, aproveitando o descanso dos cristãos, mandaram um vigia - o Bobo Velho - para tentar persuadir seus conterrâneos que haviam se convertido ao Cristianismo a retornarem para seu lado. Além disso, o Bobo Velho poderia espionar o estado em que se encontrava a força dos seus inimigos. Os cristãos perceberam que o Bobo Velho era mais uma trama dos mouros, mas mesmo assim deixaram-no se aproximar do acampamento. Quando ele chegou perto, apedrejaram-no jogando qualquer objeto que encontravam a seu alcance, que desesperado corria assustado.

No fim da tarde, antes de iniciar a batalha, os cristãos mandaram o Atalaia espionar os mouros. O Atalaia arrebatou a bandeira do acampamento mouro, mas foi descoberto pelos inimigos que o feriram. Mesmo ferido de morte o Atalaia conseguiu chegar próximo de seu acampamento e lá atirou a bandeira a seus companheiros dando gritos de alerta. Em represália, os mouros decapitaram-no, espetaram sua cabeça em uma vara e colocaram-na junto ao muro do acampamento cristão para que estes ficassem com medo. Ainda com planos para vencer os cristãos, o rei Caldeirinha mandou que seus soldados fizessem uma passeata ao redor do acampamento a fim de raptar as crianças cristãs, que curiosas, foram facilmente apanhadas.

Depois do êxito do plano elas foram vendidas e o dinheiro arrecadado serviu para comprar armas e munição. Quando os cristãos souberam do roubo de suas crianças iniciaram uma violenta batalha carregada de grande heroísmo e fé. O rei Caldeirinha ainda propôs a troca do corpo do Atalaia (que haviam levado para seu acampamento) pela bandeira moura em poder dos cristãos. Estes aceitaram a troca mas na hora receberam o corpo e não entregaram a bandeira. A batalha recomeçou com essa atitude e, ao entardecer, os cristãos pediram a Deus que prolongasse o dia a fim de que pudessem vencer tão desesperada luta.

Assim, parecia que o dia estava se prolongando e os cristãos foram vencendo as batalhas que se sucediam até que o jovem rei Caldeirinha foi aprisionado, enquanto seus soldados fugiam. Mortos muitos infiéis mouros, os cristãos rejubilaram-se pela vitória agradecendo a Deus e, em passeata, levaram o rei mouro vencido.
À noite, depois de tudo, organizaram um baile chamado “Vomonê” ou “Vominê”,, que vem simbolizar a vitória alcançada por eles.


Baile de Máscaras
(Fernando Canto)

As máscaras, na Festa de São Tiago, são usadas no Baile de Máscaras, que ocorre no dia 24 de julho, e é um dos aspectos ritualísticos mais importantes, por simbolizar emoções e cenas de regozinho a vitória que os mouros julgavam ter obtidos sobre os cristãos. O baile ocorre após terem oferecido comida envenenada aos cristãos, visando dar oportunidade aos que quisessem passar para seu lado.

É um baile de homens onde todos estão fantasiados, mas às mulheres e crianças é proibida a participação. Eles dançam no sentido inverso ao do relógio até ao amanhecer. Ao meio dia, um personagem mascarado chamado “Bobo Velho” passa três vezes no terrritório cristão e é apedrejado pela assistência, pois se trata de um espião mouro tentando obter informações. Na cena do “rapto das criancinhas cristãs”, os “Máscaras”, dezenas de atores populares, surgem fantasiados, assustando e arrebatando olhares de medos das crianças que os assistem.

A máscara parece ser uma transferência de energias que tem o sentido de mutação e que transcende o drama. Já o “baile” é uma festa dentro da festa. É uma cena de um drama em que paradoxalmente ocorre a oportunidade de se desregrar (pela ingestão do álcool). Mas é quando se subverte a realidade constituída, pois a organização social do drama tem seus apelos e sanções: se há noticia de uma outra festa na vila, os “Mascaras” vão até lá e acabam com ela. Fazem respeitar as normas da tradição e tecem críticas à realidade através de um grande boneco mascarado chamado “Judas”, que todo ano muda de nome, conforme o momento histórico e a decisão dos que o confeccionaram.
O “Baile de Máscara” é uma forma de representação do potencial subversivo das festas, não só pela crítica, mas pelo dançar constante na direção inversa ao do ponteiro do relógio, tratando-se de um embuste contínuo com o tempo, quando os brincantes giram e vão se espiralando, afastando o tempo linear e vivendo a direção da memória num tempo mítico, onde os acontecimentos heróicos se repetem pelos rituais.

Culturalmente as máscaras de Mazagão Velho podem ser vistas como um aspecto místico da festa porque traduzem o tempo, a memória e o ritual que organiza a memória, a história e a sobrevivência da sociedade. Assim a cultura da festa se efetiva porque suas crenças, gestos e valores são oriundos de um processo de criação de homens e mulheres, e que são partilhados por todos, por meio de juízos de valor e símbolos
.

A utilização da máscara na Festa de São Tiago é de disfarce de aparência e de jogos estratégicos. E para entender melhor esse processo nada como pôr no rosto uma caraça, pois assim cada um assumirá também o papel que subverte e mete medo, e que também diverte, mas, sobretudo, que une e corporifica os valores culturais daquela sociedade. 

Pesquisa: Edgar Rodrigues, Fernando Canto, Gabriel Penha, Alvaro Penha e Antonio Jorge Viana. Fotos: Marcos Ramon, e Gabriel Penha

FESTA DE SÃO TIAGO - PARTE 2



Festa de São Tiago - Parte 2
ROUBO DE CRIANÇAS PARA COMPRA DE ARMAS

No dia 25, dia final das encenações, acontece a representação da batalha final entre Mouros e Cristãos. É a data considerada mais importante para organização, o ponto alto da festa. Na encenação, os cristãos usam indumentárias brancas, enquanto os Mouros vestem uniformes vermelhos. De acordo com o enredo histórico, muitos soldados e oficiais mouros morreram envenenados depois da ação dos cristãos no Baile das Máscaras, entre eles o rei Caldeira. O exército muçulmano estava enfraquecido. O falecido rei caldeira fora substituído pelo filho, o Caldeirinha, sagrado líder dos mouros, apesar de ainda ser criança.

A história conta ainda que depois de crescer e começar de fato a comandar os mouros, ordenou que seus soldados roubassem crianças cristãs que curiosas, foram facilmente capturadas. Depois do êxito do plano as crianças foram vendidas e, com o dinheiro os mouros compraram armas e munição., para aumentar seu poder bélico. As crianças que assistem ao espetáculo são apanhadas simbolicamente pelos mascarados, mas tudo como uma brincadeira para não assustá-las, já que os pais ou responsáveis podem “resgatá-las” das mãos dos atores fantasiados com um pedaço de papel, simbolizando a compra que consta na lenda. Assim, sem querer, os pais passam a ser os compradores de seus próprios filhos.



PASSAGEM DO BOBO VELHO E MORTE DO ATALAIA

O roubo das crianças iniciou uma sangrenta batalha, que foi amenizada ao meio dia. Foi quando os mouros enviaram um espião par ao acampamento dos cristãos: o “Bobo Velho”. No entanto, os cristãos perceberam a presença do intruso e o expulsaram atirando-lhes paus, pedras e outros objetos que encontravam pelo chão.

Na encenação mazaganense, um cavalheiro vestido com roupa grossa e capacete cavalga três vezes pelas ruas da cidade e o público pôde atirar bagaço de laranja para reproduzir a apedrejamento dos cristãos. Mas nem sempre essa regra é seguida ao é da letra e há registros de ferimentos causados por pedradas no figurante que faz o papel de Bobo Velho.
Ainda, segundo a epopéia, os seguidores de Cristo também enviaram um espião para as trincheiras mouras: o Atalaia. Ele conseguiu arrebatar a bandeira inimiga, mas foi descoberto e atirado pelos soldados inimigos. Mesmo ferido gravemente, o atalaia conseguiu se aproximar do aquartelamento cristão, para onde atirou o estandarte do povo inimigo. Em represália, os mouros o decapitaram e colocaram a cabeça na ponta de uma lança para intimidar os cristãos. O fim do Atalaia também é encenado na frente da Igreja, com a morte cênica de um figurante.



APARIÇÃO DE SÃO TIAGO E A VITÓRIA CRISTÃ

O próximo episódio da tradição é a proposta do rei Caldeirinha de trocar o corpo do Atalaia pela bandeira moura. Os cristãos aceitaram a proposta. Porém, receberam o corpo de seu soldado, mas não entregaram a bandeira inimiga, como acertado. Os combates recomeçaram com essa atitude, desta vez com mais intensidade. O guerreiro Tiago jurou a Deus que venceria a guerra para que a palavra do Senhor fosse obedecida:

“Juro pela cruz da minha espada, que se não vencer essa batalha, serei morto e degolado”, são as palavras do figurante para dar vida ao juramento.
Ao anoitecer, o exército de Cristo pediu a Deus para tornar o dia mais longo e, sgundo a lenda, foi atendido. Foi quando São Tiago apareceu e ajudou os cristãos a vencerem sucessivas batalhas, com ajuda daquele que era, até então, um guerreiro desconhecido. As tropas mouras foram perecendo e, por fim, o rei Caldeirinha foi capturado e seus soldados fugiram do front. Era a consolidação da vitória cristã, comemorada com a dança do Vominê pelos soldados aliados.

Todos estes fatos são minuciosamente reproduzidos no ultimo dia de festa, marcando fim da representação da Batalha e da parte religiosa da Festa de São Tiago.



“VOMINÊ", A DANÇA DA VITÓRIA

Adendo forte do folclore da festa, o Vominê é a dança que reproduz a comemoração da supremacia dos cristãos após a consolidação da vitória sobre os mouros. Durante os 12 dias da festividade é dançado em residências de famílias tradicionais de Mazagão Velho por volta de cinco horas da manhã, nas alvoradas festivas sempre acompanhadas por salvas de tiro. À tarde é a vez das crianças participarem da dança.

Como forma de agradecimento, a família anfitriã oferece um lanche, quase sempre biscoito com suco ou café para as crianças e abstêmios e também, em alguns casos, bebida alcoólica para os dançantes adultos. Uma dessas bebidas é a gengibirra, um tipo de batida feita com gengibre – também servida na dança do Marabaixo, em Macapá. Aliás, as semelhanças com a dança tradicional da capital são muitas.

No Vominê, a exemplo do Marabaixo, o som da caixa comanda o ritmo da melodia que serve de plano de fundo para letras. Na verdade, rimas feitas de improviso, uma espécie de repente amazônico, com um refrão que poderia ser descrito como um som sustenido da vogal “e”. No caso da canção mazaganense, quase há referencia ao dono da casa onde está sendo feito o ritual:

“Cadê o dono da casa,
Com ele eu quero falar.
Estou com a garganta seca
Um café eu quero tomar”

Esta, acima, é um dos repentes, que em Macapá chamamos de “Verso ladrão”.
As ladainhas, as salvas de tiro, as alvoradas festivas e o Vominê ns residências da vila são os traços mais importantes da Festa de São Tiago, e durante oito dias são símbolos que antecedem o ponto máximo da festa: a encenação teatral da batalha entre mouros e cristãos dividida entre os dias 24 e 25 de julho. (Publicado no jornal Folha de Mazagão, de 25 de julho de 2011).

MISSA CAMPAL E PRESENÇAS ILUSTRES

Na manhã de 25 de julho, o que se vê são milhares de pessoas na procissão e na Rua Senador Flexa, que passa na frente da igreja. São os visitantes, a renovar a fé ou para ver a encenação. A procissão acontece por volta das 8h, depois da missa campal. Assim as imagens de São Jorge e São Tiago percorrem as principais ruas de Mazagão Velho, com os cavalheiros vestidos a caráter e montados em seus cavalos. Nesse momento os fiéis aproveitam para agradecer e/ou fazer suas promessas a São Tiago.

A festa é tão concorrida que chega a faltar hospedagem, nada que a hospitalidade mazaganense não resolva.

UMA FESTA SÓ PARA CRIANÇAS

Depois do dia 25 de julho, quando encerra a Festa de São Tiago feita pelos adultos, é hora das crianças aprenderem a tradição que um dia será responsabilidade delas perpetuarem. Durante os dias 27 e 28 de julho, respectivamente elas também encenam a entrega dos resentes e a batalha entre mouros e cristãos, “ montadas” em cavalinhos enfeitados com papel de seda e feitos de miriti, madeira comum na região. Também há a alvorada festiva e a dança do Vominê, enfim, tudo o que os adultos fazem.

A Festa de São Tiago Mirim também tem direito aos uniformes brancos e vermelhos do smouros e cristãos. E a tradição é levada a sério pelas crianças, mesmo quando há a preocupação dos pais com que elas aprendam desde cedo a respeitar a figura de São Tiago.

Pesquisa: Edgar Rodrigues, Fernando Canto, Gabriel Penha, Alvaro Penha e Antonio Jorge Viana. 
Fotos: Marcos Ramon, e Gabriel Penha