domingo, 5 de julho de 2015

O AMAPÁ NO DOMINIO ESPANHOL (1580 A 1640)




O sucessor de D. João II ao trono português foi seu primo,  o duque de Beja, D. Manuel I, o Venturoso (1495-1521), senhor da Índia, Etiópia, Arábia e Pérsia, que teve a glória de ver concretizado o sonho de alcançar a Índia por mar, façanha realizada por Vasco da Gama, que atingiu Calicut  em 1498. Dois anos depois, Pedro Álvares Cabral chegava à costa do Brasil, daí dirigindo-se para a a Índia, onde os portugueses estabeleceram um império comercial cuja maior figura foi Afonso se Albuquerque.

Aproximando-se da Espanha pela necessidade comum da defesa de seus interesses ultramarinos, D. Manuel nutria a esperança de unir toda a península sob o cerco de Avis, para o que casou-se com Isabel, filha dos reis de Espanha. Como condição para o enlace, foi-lhe exigido “purificar” Portugal dos judeus. Convertidos ao cristianismo, esses “cristãos novos” ou marranos foram, porém, massacrados em Lisboa em 1506, refugiando-se em seguida na Holanda.

O filho de d. Manuel, D. João III (1521-1557) – que para o Brasil foi “o Colonizador” – instalou em Portugal a Inquisição (o primeiro auto-de-fé realizou-se em 1540. Sucedeu-o o seu neto D. Sebastião (1557-1578), levado pelos jesuítas ao fanatismo religioso e obcecado pela idéia de uma cruzada contra a África moura. A grande expedição que preparou foi inteiramente desbaratada na batalha de Alkácer-Quibir (1578), na qual o jovem monarca – contava apenas 24 anos – desapareceu.

Sucedeu ao trono seu tio-avô, o cardeal d. Henrique, cujo reinado seria breve (1578-1580). Sua idade e celibato abriram problema sucessório, pois com ele se encerrava a linha direta de Avis. Não faltaram pretendentes, entre os quais Filipe II, da Espanha (neto por linha materna, de d.Manuel I). Ao falecer d. Henrique, o rei espanhol ordenou a invasão de Portugal pelo duque de Alba. A resistência dos partidários de d. Antonio, prior do Crato (filho bastardo de um irmão de d. João III) foi dominada, e Filipe II tornou-se rei de Portugal como Filipe I (1580-1598).


INFLUÊNCIA DO DOMINIO ESPANHOL NOS DESTINOS DO AMAPÁ

13 de junho de 1621. O rei Filipe 3º, da União Ibérica, cria o Estado do Maranhão, compreendendo as terras dos atuais Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Amapá e Amazonas... enfim, quase que a totalidade da Região Norte (1)

18 de junho de 1621. O rei ibérico, recompensando os serviços de Bento Maciel Parente na defesa lusa do Cabo do Norte, promove-o a Capitão-Mor do Pará. Entre outras bravuras, ele fortificou o Forte do Presépio (depois Forte do Castelo) e ordenou investidas contra os invasores das terras do Pará (a quem o Amapá estava anexado).

23 de maio de 1623. Em atendimento à denúncia feita por Bento Maciel Parente à União Ibérica em janeiro de 1623, chega Luis Aranha de Vasconcellos com ordens expressas de fazer o reconhecimento do ‘rio das Amazonas’ nas imediações do Cabo do Norte, e expulsar os inimigos. Ao partir para Mariocai, Aranha é cercado pelos inimigos. Parente reúne Pedro Teixeira, Ayres Chichorro e Salvador de Mello,  com 70 soldados e cerca de 1.000 indios flecheiros, e vão ao auxilio de Aranha. Dividindo o grupo, segue Pedro Teixeira pela margem esquerda (terras do Amapá) e Bento Maciel Parente pela direita. Na terra tucuju encontraram abandonadas as feitorias.  Em Mariocai (dez anos depois, vila de Gurupá) conquistam e incendeiam as defesas. Aí levanta o Forte de Santo Antonio de Gurupá 2). Pedro Teixeira ataca o forte de Mandiutuba em duas colunas, pelo rio e por terra, obrigando os invasores a se refugiarem com os ingleses na área do futuro Amapá.

30 de agosto de 1623.  Para expulsar os invasores do Cabo do Norte, a Junta de Guerra do Conselho das Índias – reunida em Lisboa neste dia – aconselha a tarefa a Bento Maciel Parente.

Outubro de 1623.  Tropas comandadas pelo holandês Pieter Ariansson tomam e queimam um forte de Santo Antonio de Gurupá, construído em 1623 por Bento Maciel Parente, em Mariocai.

15 de março de 1624.  Um decreto real da União Ibérica proclama a libertação de todos os índios escravizados por colonos portugueses. A partir daí tem início o tráfico de negros africanos para o Brasil e todas as demais colônias hispano-portuguesas.

24 de maio de 1625.  Após vitória ocorrida no dia 23, Pedro Teixeira desembarca na Ilha de Tucujus, onde os ingleses, comandados pelo irlandês James Purcell, tinham três fortins. Os dois primeiros (Tiletille e Uarimiuacá) foram tomados quase sem resistência de seus ocupantes, fugindo os defensores. Adiantando-se, então,teve o capitão Favela de se confrontar com os ingleses e holandeses que vieram ao seu encontro. Os dois chefes inimigos, Purcell e Oudaen, morrem no confronto com Pedro Teixeira, que arrasou o terceiro fortim.

8 de agosto de 1626. O rei Filipe 3º autoriza, por Carta Régia desta data, Bento Maciel Parente a explorar o rio Amazonas. O governador Geral do Maranhão e o geral do Brasil receberam instruções para lhe facilitar essa exploração.

30 de abril de 1628. Purcell, após escapar da forca na Espanha em 1625,volta ao forte de Taurege (Torrego) com 112 colonos, tentando plantar tabaco (03). Permanece aí até 24 de outubro de 1629.

24 de outubro de 1629. Depois de um ataque em junho por Pedro da Costa Favela, Pedro Teixeira consegue a rendição de James Purcell em Taurege, deixando a Ayres Chichorro o encargo de arrasar o forte. Teixeira volta a Gurupá. (4). Pouco depois Roger North o atacou com dois navios. Repelido, North se fixa entre os rios Matapi e Anauerapucu, construindo o forte que os portugueses chamaram de Filipe.

26 de outubro de 1629.  Chega a Mariocai Pedro Teixeira com as tropas, que há dois dias antes havia rendido os ocupantes do Forte de Taurege e os prisioneiros ingleses que ali se refugiaram. O capitão Roger North, que trazia reforços para seus comandados, em dois navios maiores, um patacho e três lanchas, tenta um desembarque, sem sucesso. Os ingleses, então, constroem o forte de Cumaú, que só será reconquistado pelos porrtugueses em 9 de julho de 1632.

Agosto de 1630.  Chega um segundo grupo de franceses, composto de mais de 50 homens, em Conanama, perto dório Sinamari, para povoar a Guiana Francesa (05).

28 de janeiro de 1631. O governador do Pará, Jácome Raimundo de Noronha, parte de Belém com 13 canoas, se reunindo em Cametá a 23 outras, e vai atacar os ingleses que ocupavam o forte de Filipe, na margem esquerda do rio Amazonas, em frente à Ilha de Tucujus.

1º de março de 1631.  Noronha consegue, com uma guarnição, tomar o forte de Filipe dos invasores ingleses e holandeses associados. Os ingleses que o guarneciam, são presos ao tentar fugir.

10 de março de 1631. Feliciano Coelho de Carvalho aporta em Belém (PA), com a missão de continuar lutando contra os invasores do grande vale amazônico (06).

9 de julho de 1632. Feliciano Coelho toma o forte de Cumaú, construído pelos ingleses. Seu comandante, Roger North, voltando do Cabo do Norte, é abordado no dia 14 por Ayres Chichorro (07).

17 de junho de 1633. O Cardeal de Richelieu, ministro do rei francês Luis XIII, autoriza a constituição de uma comissão para constituição de uma companhia de comércio no Cabo do Norte.

11 de fevereiro de 1636. Chegam os padres da Companhia de Jesus (Jesuítas) ao Cabo do Norte, provenientes de São Luis (Maranhão) e chefiados pelo padre Luis Figueira.

17 de março de 1637. O cabo português Ayres Chichorro é promovido, pelo governo ibérico, a Capitão-Mor, por atos de bravura e coragem, por ocasião da retomada do Forte do Cumaú, em 9 de julho de 1632.

22 de maio de 1637.  Com informações dos viajantes de Quito (Equador), os jesuítas desenham um mapa esquemático dório Amazonas, que será enviado em setembro de 1658 a Roma por Antonio Vieira.

14 de junho de 1637. O rei Filipe IV doa a Bento Maciel Parente a Capitania do Cabo do Norte.

27 de junho de 1637.  Parente é nomeado governador do Maranhão e Grão-Pará, a quem as terras do Amapá estavam anexadas.

27 de fevereiro de 1638.  Sete meses após receber do rei espanhol a posse da Capitania do Cabo do Norte, Parente instala em Almeirim (atualmente pertencente ao Pará) a sede da Capitania do Cabo do Norte. A esse tempo, ele já era governador do Maranhão e Grão-Pará.

2 de abril de 1639.  O padre Cristóvão de Acuña vê, na margem guianenses do Amazonas, um forte e uma missão portuguesa e, no mesmo ano, no Cabo do Norte, três aldeias de índios já submissos aos comerciantes e missionários portugueses. As aldeias são as de Tapujusus (em Alenquer, no Pará), Corupatuba (Monte Alegre, no Pará) e Iauacuará (em Almeirim, nas imediações do Forte do Desterro.

9 de março de 1640. O rei da União Ibérica expede uma Carta-Régia autorizando a construção de uma fortificação na foz do rio Curiaú, sob o comando do superintendente das Obras da Capitania do Pará, Antonio Gonçalves.

29 de março de 1640. O capitão João Velho do Vale é nomeado capitão-mor de Gurupá, nos domínios da Capitania do Cabo do Norte, por seu tio Maciel Parente, com a finalidade de proteger o lugar de alguma invasão holandesa (08).

26 de maio de 1640. É criada a Companhia Francesa das Índias Ocidentais do Cabo do Norte, pelo rei Luís 13, sob inspiração de Richelieu. Seus limites se estenderam das margens do Amazonas ao Orinoco.

1º de dezembro de 1640. É instalado o reino português após 60 anos de domínio espanhol, com a aclamação de d.João 4º, da Casa de Bragança. Mas Maciel Parente só soube da noticia em junho de 1641.

         

1.      VIANNA, Hélio,  Estudos de História Colonial, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1948, (Coleção Brasiliana, série 5ª, vol. 261). Página 171.
2.      RIO BRANCO, Questões de Limites, Guiana Francesa, 1ª Memória, Volume 3, Rio de Janeiro, Ministério das Relações Exteriores, 1945, Página 62).
3.      REIS, Arthur Cezar Ferreira, A Amazônia e a Cobiça Internacional, 5ª edição, Manaus, Civilização Brasileira / Suframa, 1982.
4.      RIO BRANCO, Ibdem. Página 63).
5.      RIO BRANCO, Ibdem, Página 78).
6.      BARATA, Manuel, A Formação Histórica do Pará, 1976,Belém, Pará, Universidade Federal do Pará, Coleção Amazônia, Série José Veríssimo.
7.      VIANNA, Arthur, Fortificações da Amazônia, in “anais da Biblioteca e Arquivo Público do Pará, toma IV, Pará, 1905, Página 22.
8.      RIO BRANCO, Efemérides Brasileiras, Brasília, DF, Senado Federal, Coleção Brasil 500 Anos, 1999. Página 181







sábado, 4 de julho de 2015

A REPÚBLICA DE CUNANI - PARTE I



CUNANI, UMA REPUBLICA DENTRO DO AMAPÁ
PARTE I – O SONHO DE JULES GROSS

Texto: Edgar Rodrigues

O termo Cunani vem do tupi, e é um dos nomes do tucunaré, peixe da região amazônica. A atual vila de Cunani é distrito do município de Calçoene. Deve possuir cerca de 500 habitantes entre os que moram na sede e os da região ribeira. A base econômica é a pesca e a pequena agricultura. A extração de madeira é outra frente econômica, mas o trabalho é todo manual, por não existir serraria motorizada. Os meios empregados são os serrotes, manejados por dois homens, um em cima e outro em baixo da tora de madeira, suspensa quase dois metros. Este procedimento já era empregado no século XVIII, período da escravidão negra no Brasil.

A vila possui uma escola, um posto de saúde e um posto de telecomunicações. O pequeno comércio é abastecido com mercadoria trazida de Calçoene ou comprada a bordo de barcos regatões que de tempo em tempo vão entrando nos rios, aparecendo aqui e ali povoados isolados. O campo de pouso falta ser recuperado.

Pode-se alcançar a vila por dois caminhos: pelo oceano, saindo de Calçoene, a viagem dura 10 horas em barco motorizado. A pé ou a cavalo, pela praia, também é possível, saindo de um lugarejo chamado Cocal.

Por que este povoado tão pequeno e isolado despertou a cobiça de aventureiros como Jules Gross e Adolph Brezet, chegando eles a transformar essa região, por duas vezes, em república independente? Mas a República de Cunani não constituiu um fato isolado. A própria cobiça francesa por toda a região do Contestado se verificou ali culminando com vários conflitos armados ocorridos entre franceses e brasileiros.

A sanha de Jules Goss e seus aventureiros provocou, assim, o aparecimento da República em 1885, que foi logo abafada pelo próprio governo francês, por causa da situação ridícula que causou à França. Mesmo assim, houve uma segunda tentativa, provocada por outro francês de nome Adolph Brezet, em l902, mas foi sufocada, desta vez, pelo governo brasileiro. Mesmo com sua duração efêmera, os selos e moedas do Cunani atualmente representam valores incalculáveis para filatelistas e numismatas.

Em 1885, um grupo de aventureiros franceses proclamou a caricata República de Cunani, que se estendia do Oiapoque até o Araguary, exatamente na região contestada pela França. Esses homens elegeram presidente vitalício do no Estado, o cientista francês Jules Gross, romancista e membro da Sociedade de Geografia Comercial de Paris. Mas aquilo que poderia se consolidar numa República Independente malogrou perante as deficiências geográficas e jurídicas. Mesmo assim eles emitiram selos e cunharam moedas.

A aventura teve duração efêmera embora Gross houvesse constituído o governo, criando a Ordem da Cavalaria Estrela de Cunani, para condecorar os simpáticos à causa, o que rendeu bons proventos financeiros pela larga e bem paga concessão que dela fez o esperto “chefe de Estado”. Enfim, eles providenciaram tudo para que o mundo reconhecesse o novo país incrustado no meio equatorial. O governo francês, ante o escândalo que representava tal façanha, em 2 de setembro de 1887 resolveu acabar com ela.

A República do Cunani era tão caricata, tão de brincadeira, que a maioria dos ministros nomeados por Jules Gross não arredou os pés de Paris, atém por causa do pavor irradiado por algumas paragens sul-americanas, como a nossa. Portanto, não foi difícil desestabilizá-la.

Na opinião de Arthur Cezar Ferreira Reis (A Amazônia e a Cobiça Internacional – Manaus, 1946), se o Ministério da República do Cunani funcionava em Paris e não em Cunani, nada havia que autorizasse o funcionamento de um governo local subordinado ao tal gabinete ou em obediência a Jules Gross; e por saber que o corpo administrativo era integrado por indivíduos estranhos à vida de Cunani, o governo francês achou por bem rechaçar tal República que só gracejos e piadinhas de mau gostou causou à Coroa Francesa... um povoado de apenas 300 pessoas (na época).

O jornalista Hélio Pennafort, que deu notáveis contribuições, com suas reportagens sobre a vida interiorana, a respeito de Cunani escreve:
           
“Jules Gross e sua turma desejavam transformar em Estado Independente a cobiçadíssima área encastada entre o Oiapoque e o Araguary. Este ano (o artigo de Penafort é de 1985), segundo alguns historiadores, a República Independente de Caunany completaria cem anos de proclamação se a França não tivesse agido energicamente, certa de que a situação só iria causar embaraços aos planos que estava paulatinamente executando com vistas à ocupação integral do território amapaense, que na época não havia nenhuma definição concreta a quem pertencia. E em muitas partes da região, chamada então Zona do Contestado, havia muitas riquezas que vinham sendo exploradas por quem quisesse, com os franceses detendo a maioria, devido à proximidade com a sua Guiana, onde uma boa estrutura naval facilitava a vinda de milhares de trabalhadores, principalmente para a coleta do ouro e a extração de madeira e sementes oleaginosas. O interesse da França era tão grande que chegou até a patrocinar a construção de uma estrada de ferro unindo a região aurífera de Lourenço à cachoeira da Sidomena, na cidade de Calçoene”. (Histórias do Amapá – Nunca vi rio tão danisco de bom” – Artigo publicado no Jornal do Dia, de 11 de maio de 1997 – Macapá-AP)

Hélio assegura em seu relato, que “os vagonetes chegavam sobrecarregados de ouro que eram embarcados em navios, usando como trapiche as próprias barracas da margem. Em Oiapoque, outra região bastante explorada pelos franceses, a carga principal era o pau-rosa que descia do Cricou (afluente do lado brasileiro), em pequenas embarcações até a enseada do Maripá, onde havia o transbordo para barcos maiores, que levavam a carga para Cayenne. A essência do pau-rosa é matéria prima muito requisitada pelos fabricantes de perfumes franceses. Assim, não podia haver espaço para Gross e seguidores. As autoridades da França, portanto, devem ter pensado: Como se não bastassem as esporádicas reações dos lusitanos e brasileiros,ainda aparece esse grupo de psedo-conquistadores querendo competir com o nosso comércio fácil e de altíssima rentabilidade”. Mas deu trabalho o processo de desestabilização da República Independente do Caunany. Foram dois anos de muito trabalho e enorme pressão. Isto porque para Jules Gross, Cunani não era simples aventura. Ele levou tão a sério a sua idéia que mandou emitir emblemas, cunhar moedas, emitor selos e fez uma propaganda enorme para que o país ficasse conhecido em todo o planeta”.
Referências à pesquisa:

REIS, Arthur Cezar Ferreira, Território do Amapá, perfil histórico, 1948, Rio, RJ.
PENNAFORT, Hélio, Cunani, uma República caricata, Jornal do Dia, Edição de 12 de setembro de 1988.
CARVALHO, João Rennor Ferreira de, Momentos de Historia Colonial da Amazônia, 1999, Ética Editora, Rio, RJ.

SARNEY, José, Amapá Terra onde o Brasil Começa, 1999, Senado Federal, Brasília-DF.

A REPÚBLICA DE CUNANI - PARTE II


CUNANI, UMA REPÚBLICA DENTRO DO AMAPÁ
PARTE II – ADOLPHE BREZET, UMA SEGUNDA TENTATIVA

Texto: Edgar Rodrigues

O lado histórico do Cunani, de fato, é rico em proezas e peripécias que infelizmente o relaxamento dos nossos contadores de história nos sonegam. Só quem tem a dita de consultar bibliotecas francesas é que pode conhecer com mais detalhes o que aconteceu por lá, no século passado. Aliás, todo esse trabalho foi baseado na documentação de Cayena sobre o fato.

No entanto, mesmo na pobreza historiográfica, dá para saber que na época em que o Amapá era chamada de Zona do Contestado – não estava ainda decidido se pertencia ao Brasil ou à França – a dificuldade era pouca para alguém chegar por aqui e dizer-se dono de pedaços de terra. Mas um grupo de franceses liderados pelo geógrafo Jules Gross foi mais além. Como vimos antes, eles simplesmente proclamaram uma repúblicas com terras que abrangiam praticamente toda a área do Contestado. Emitiram selos

A história da Primeira República de Cunani vai mais além. Não muito tempo depois da charge republicana, a vila voltou a servir de cenários para acontecimentos que decididamente muraram os rumos da região. Vindo do interior do Pará, um negro de meia-idade, baixo e de boa musculatura, chamado Trajano Benitez, ali chegou para aventurar a sorte, atraído pelas notícias que propagavam a fartura de ouro no Calçoene. Trajano deve ter preferido morar no Cunani porque a maioria da população era negra. Ele começou, então, a se meter em assuntos que envolviam a vida comunutária, mostrando logo sua vocação política. Deixemos, agora, o relato com Hélio Penafort:

O governo francês estava precisando de um indivíduo popular e simpático às pretenções francsas, e Trajano era tudo isso. Não demorou muito estava ele liderando quase toda a extensão das ribanceiras do Cunani, contestando abertamente a autoridade do Triunvirato brasileiro que governava a vila do Espírito Santo do Amapá e lugares próximos. Recebeu de Caiena o título de Representant dês Intérets Français à Counani e aí é que se encheu de dedos. Encurtando a história, quando a turma do Triunvirato deu por si, Trajano já havia mandado rasgar a bandeira brasileira e hastear o pavilhão francês em lugar mais nobre do Cunani. E defendia mais os crioulos da Guiana que trabalhavam nas minas do que seus patrícios que perambulavam pelos interiores.

Vendo que a situação periclitava a cada dia, o Triunvirato mandou um destacamento para Cunani, que prendeu Trajano e o levou para a vila de Amapá. E foi justamente a prisão de Trajano que provocou a invasão do Amapá pelos soldados do capitão Lunier, em 15 de maio de 1895. E foi justamente a invasão do Amapá que apressou a reunião da Corte Internacional que julgou a questão da Zona do Contestado e deu ao Brasil as terras que hoje formam o Estado do Amapá.

Em princípios de 1893 a vida em Cunani volta à normalidade, e o episódio da Primeira República parece que foi esquecido. Maioria da população, formada por brasileiros, vivia da coleta de especiarias, da pesca nos lagos, e do fabrico de grude de peixe para um comércio manhoso. De repente, a descoberta do ouro pelos garimpeiros de Curuçá, Germano e Firmino Ribeiro, em Lourenço, começou a modificar o quadro: a população, em poucos meses, de 600 habitantes chegou a 5 mil, só em Cunani. Isto provocou inúmeros incidentes na região, como o conflito de 15 de maio de 1895, que culminou com a vitória dos brasileiros e a ligeireza na resolução da questão do Contestado, através do arbitramento de Berna, em 1º de dezembro de 1900.

Preocupado com a colonização da região, o governo do Pará, com o aval do governo brasileiro, nomeou um Conselho de Intendência, que passou a vigorar a partir do dia 30 de abril de 1902. Para isso, foram escolhidos o capitão Amaro Brasilino de Farias (presidente do Conselho) e os membros Joaquim Félix Belfort, Daniel Ferreira dos Santos e Manoel Agostinho Batista, que assumiram seus cargos respectivos no dia 15 de maio.

Em maio de 1902 um aventureiro francês de nome Adolphe Brezet, tentando restaurar a República de Gross, começou a encaminhar ofícios à região de Cunani, comunicando uma nova proclamação, e as nomeações de Félix Antonio de Souza, Antonio Napoleão da Costa e João Lopes Pereira para seu ministério.

O plano de Brezet foi imediatamente denunciado por Daniel Ferreira dos Santos ao intendente Brasilino, que baseado em farta documentação, escreveu imediatamente ao coronel João Franklin Távora que a essas alturas se encontrava em Belém. Este levou o incidente imediatamente ao conhecimento do Governo do Pará que, em seguida, instruiu o primeiro prefeito de Belém, Henrique Lopes de Barros, para ir pessoalmente, acompanhado de uma força policial de 33 praças, comandadas por um oficial, para proceder sindicâncias necessárias.

Ao desembarcar no município de Amapá, em julho de 1902, o prefeito tratou logo de prender os ministros de Brezet que estavam reunidos na residência de Antonio Napoleão, um deles. Ali foram encontrados vários exemplares em português e francês, de propaganda e legislação da nova República de Brezet. Colocando um policiamento ostensivo em todo o município, e com a ajuda da própria população, Henrique Barros se dirigiu em seguida à vila de Cunani, e conseguiu a prisão de mais dois envolvidos: José da Luz e Raimundo Rodrigues Brasil.

Todos foram encaminhados à Comarca de Aricari, na sede municipal (Amapá), e colocados à disposição da Justiça. Os inquéritos duraram 15 dias. Após sua conclusão, os revoltosos receberam umas lições de civismo, e em seguida foram colocados em liberdade. Quanto a Brezet, ele resolveu ficar mesmo em Paris, caladinho, em recolhimento. Nunca mais se ouviu falar dele.

A historia de Cunani como república foi muito efêmera... e a maioria dos amapaenses não tem conhecimento deste episódio, que se tornou mais famoso na França, do que propriamente no Brasil.

Referências à pesquisa:


REIS, Arthur Cezar Ferreira, Território do Amapá, perfil histórico, 1948, Rio, RJ.
PENNAFORT, Hélio, Cunani, uma República caricata, Jornal do Dia, Edição de 12 de setembro de 1988.
CARVALHO, João Rennor Ferreira de, Momentos de Historia Colonial da Amazônia, 1999, Ética Editora, Rio, RJ.
SARNEY, José, Amapá Terra onde o Brasil Começa, 1999, Senado Federal, Brasília-DF.



             



sexta-feira, 3 de julho de 2015

CRENDICES E SUPERSTIÇÕES



ÁGUA -  Existem alguma crendices relacionadas com a água. Vejamos algumas  das mais conhecidas: Para que alguém seja nosso amigo, devemos dar-lhe de beber água coada em uma de nossas camisas; Dar de beber água de chocalho a um bebê faz com que ele fale mais cedo.


          ALGODOEIRO – Há uma crendice de que a moça que brinca com as flores do algodoeiro, sé é bonita de noite. Motivo: essas flores só desabrocham no período noturno.

ALHO – Diz a crendice popular que o alho tem poder para afastar duendes e espíritos maus que se incorporam às pessoas. Muito usado contra os botos, lobisomens etc. Serve também para qualificar alguém de sabido. Ex: “Eliana é esperta como o alho”.

Na mitologia amazônica, o Acauã  é considerado portador de azar. O Canto do Acauã é uma expressão que traduz azar. Quando nada dá certo para alguém, diz-se: “Parece que ele ouviu o canto da acauã”. O canto se assemelha a uma risada que, segundo a superstição, dá desequilíbrio nervoso em quem o ouve, principalmente se for mulher. O acauã é um pequeno gavião da família dos falcanídeos (Herpetotheres cachinians).

terça-feira, 30 de junho de 2015

Notas históricas de CLEVELÂNDIA DO NORTE



Clevelândia do Norte é um distrito pertencente ao municipio de Oiapoque. Em 24 de março de 1919 é criada uma Colônia Militar pelo governo federal. Em 1920 o governo federal nomeia o engenheiro Gentil Norberto, chefe da comissão encarregada de fundação e colonização de Clevelândia. Em 10 de abril de 1920 o ministro envia ao Governo do Pará um oficio pedindo urgencia no programa de concessão de terras para que seja fundado um centro agrícola em Clevelândia.

Em 14 de maio de 1920 o jornal O Imparcial, do Acre, publica artigo sobre declarações do deputado Souza Castro, a respeito da colonização de Oiapoque. Em 14 de junho de 1920, em seu primeiro relatório, o chefe da Comissão de Povoamento de Oiapoque, em Clevelândia, Gentil Norberto, já notava que, apesar de composta de 60 pessoas, e de haver trabalhado em zona de mata virgem e nos piores dias do ano, não houve óbito algum em Oiapoque, tendo sempre os casos de febre cedidos a simples aplicação de quinino em toda as doses. De onde se concluia que as injustiças que comentavam da região eram apenas comentários sem consistencia.

Em 16 de junho de 1920, o senador Lauro Sodré apresenta proposta ao Orçamento da Agricultura para injeção de verbas no valor de 600 bilhões de réis em favor da colonização do Oiapoque.

            Em 4 de julho de 1920, o jornal carioca Correio da Manhã publica nota do encarregado da Colonia de Oiapoque, Gentitil Norberto, ao ministro da Agricultura, informando-o do inicio dos trabalhos da comissão encarregada dos estudos de fiscalização da região. Em 25 de outubro de 1920, o jornal O Imparcial, do Rio, noticía que o ministro da Agricultura recebu oficio do enegnheiro, pedindo permissão para mudar os nomes de origem francesa dos acidentes geográficos daquela região.

            Em 5 de novembro de 1920, o jornal A Noite, do Rio, faz um longo comentário assinado pelo escritor Augusto Lima, questionando por que só agor aa imprensa desperta para a problemática da colonização da região do Oiapoque, e adverte os governos para a solução imediata do problema em questão. Em 8 de novembro de 1920, o jornal Folha do Norte, comentando a situação de Oiapoque, descreve a maneira por que os franceses quiseram se apoderar da região no passado (1895).

            Em 11 de novembro de 1920, o jornal Correio  da Manhã, do Rio, publica uma matéria relatando que a comissão de técnicos do povoamento de Oiapoque enviou novas informações ao Ministério da Agricultura. Em 17 de novembro de 1920, o jornal A Noite, desta data, faz uma advertência ao governo brasileiro, sobre a necessidade urgente de se colonizar a região do Oiapoque.

            Em 29 de dezembro de 1920 o jornal Correio da Manhã publica um sueto demonstrando o parecer do senador Justo Chermont sobre o orçamento do Ministério da Agricultura, onde contém considerações sobre a zona de Oiapoque, revelando que a importação do ouro brasileiro rendeu, no ultimo decênio, aos confres publicos da Guiana Francesa, a quantia de 10 milhõs de francos.         Em 12 de janeiro de 1921, o engenheiro Gentil Norberto recebe um telegrama do senador Justo Chermont, colocando-se favorável à instalação de uma estação rádio-telegráfica no Oiapoque.

            Em 23 de junho de 1921, Rocque Pennafort chega a Clevelândia pela primeira vez e encontra a primeira turma da recém-criada Comissão Colonizadora de Oiapoque, chefiada pelo engenheiro Gentil Norberto. Em 01 de outubro de 1921 o Departamento Militar de Fronteiras da Comissão Fundadora de Clevelandia envia um oficio assinado pelo comandante Clodoaldo da Fpmseca, ao quartel-general de Belém, agradecendo o envio de recursos para salvar os soldados enfermos do departamento.

            Em 5 de maio de 1922 é instalado o Nucleo Agricola Colonial de Clevelândia, destinado a receber flagelados da seca do Nordeste. Deste núcleo originou-se a vila de Clevelândia, no rio Oiapoque. Em 12 de maio de 1922, o médico Heráclides C. de Souza Araujo, chefe do Serviço de Profilaxia do pará, dá seu parecer sobre a salubridade da vila de Clevelândia do Norte.

            Em 24 de maio de 1922, chegam ao Oiapoque os primeiros colonos japoneses, que foram distribuidos em lotes situados ao longo da margem direita do rio Oiapoque, e se de da colônia de Clevelândia.             Em 7 de novembro de 1922 o chefe da Comissão Fundadora do Centro Agricola de Clevelândia do Norte, Gentil Norberto, foi distinguido pelo governador da Guiana Francesa, H. Lejeus, que enalteceu a obra em Clevelândia.

            Em 11 de novembro de 1922 o jornal A Imprensa, do Rio, tece importantes comentários a Gentil Norberto e sua obra colonizadora em Clevelândia. Ver documento. Em 6 de junho de  de 1923, o coronel Raimundo Barbosa, comandante da 8ª Região Militar, visita a zona do Oiapoque e passa na colonia agricola de Clevelândia, onde inspecion todas as dependencias colhendo boa impressão da região.

            Em 3 de agosto de 1923, o jornal O Estado do Pará publica texto sobre a visita do coronel Raimundo Barbosa. Em 26 de dezembro de 1924, um navio com 250 presos politicos zarpa para a colônia de Clevelândia. Só chegam cento e vinte vivos.

            Em 6 de janeiro de 1925 chega a Clevelândia a segunda turma de deportados provenientes de Cuiabá (MT) e Manaus. São 120 presos politicos. (Alicino, Rogério, Clevelândia...) Em 30 de março de 1925 o senador Miguel Calmõn publica, no jornal Correio da Manhã, no Rio, matéria comentando o tratamento a que eram submetidos os presos politicos de Clevelândia do Norte.          

            Em 6 de setembro de 1926, o jornal O Estado do Pará, desta data, publica reportagem sobre a situação em Clevelândia, e a administração de Gentil Norberto frente à colônia agrícola. 17 de outubro de 1926  – O jornal “Folha do Acre”, dessa data, transcreve entrevista de Moysés Baptista, publicada no “Estado do Pará”, sobre Clevelândia. Ver documento.

            02 de fevereiro de 1927  – O general Cândido Mariano Rondon, em sua primeira visita a Clevelândia do Norte, aloja-se com seu Quartel-General na Casa da Administração e daí fica a inspecionar a região. Visita também o povoado de Martinica que, por achar sabor francês no nome, muda-o para Espírito Santo do Amapá. 24 de março de 1927  – O senador Miguel Calmon pronuncia um discurso no senado federal a respeito da Colônia de Clevelândia, de sua precária administração, e pede providências para uma política assistencial mais atuante do governo federal na região. (Diário do Congresso Nacional, Rio, sábado 24 de março de 1928).

27 de dezembro  de 1927 – O senador Miguel Calmon discursa no plenário do Congresso a respeito dos degredados do Acre, vindos à Colônia Penal Agrícola de Clevelândia como presos políticos. Ver documento. 23 de março de 1928 – O jornal Correio da Manhã volta a comentar as deportações dos presos políticos para Clevelândia. Ver documento.

30 de março de 1928 – O jornal Correio da Manhã comenta sobre o tratamento dado aos presos políticos de Clevelândia. Veja trechos do artigo do senador Miguel Calmon: “(...) Mas para arrematar todas as vergonhas, vai o governo deste Paíz lançar nas praças da Amazônia a mercadoria humana para que um José Rabelo a leve até a ponte do Tapanã em grupo de duzentos e tantos, e os vende isoladamente, ou em magotes, pelo preço de 50 mil réis cada um, porque tal preço desceu com a inesperada chegada desses desventurados, o preço de um homem forte naquelas zonas desoladas e hediondas (...)”

            01 de janeiro de 1931 – Instala-se em Oiapoque o III Batalhão de Fronteiras, sendo seu primeiro comandante o capitão Amaury Hippert Verdini. 4 de julho de 1932 – Tem início a construção da rodovia BR-156, começando pela capital Macapá, em direção a Clevelãndia (Oiapoque).




sábado, 27 de junho de 2015

98 ANOS DA ASSEMBLEIA DE DEUS NO AMAPÁ



Os primeiros missionários a chegar em Macapá, com idéias protestantes, foram os pentecostalistas (Assembléia de Deus), em 1916. O movimento pentecostal começou no mundo em 1906, na Califórnia, com o pastor W. L. Seymour, que baseou-o sobre o dom das línguas, tendo como fundo histórico o acontecimento ocorrido entre os apóstolos (Pentecostes), eles passaram a falar línguas estranhas. O movimento espalhou-se por todas as principais cidades norte-americanas, gerando muitos adeptos.

Em 1910, desembarcaram em Belém do Pará os primeiros missionários da nova religião: Daniel Berg e Gumar Vingreu, provenientes de Nova Yorque (EUA). Eles vieram da Igreja Batista e, como encontraram vários motivos bíblicos que não se enquadravam com a vida missionária que levavam, resolveram aderir ao novo movimento religioso.

No Amapá, coube a um boliviano de nome Clímaco Bueno Aza, convertido à nova religião em 1913, no interior do Pará, a trazer as idéias da Assembléia de Deus a Macapá. Ele chegou em 26 de junho, com malas cheias de bíblias, folhetos e evangelhos. Somente alguns dias depois a cidade tomou conhecimento da presença do evangelista.

O movimento em Macapá formou-se mediante muitas perseguições. Desde Clímaco chegou a Macapá, foi vítima de vários ataques, chegando mesmo até a uma decisão radical do vigário da cidade, então padre Júlio Maria de Lombaerde, a queimar os livros em praça pública, com a ajuda da polícia e convocação da população. Mas Clímaco não desanimou e persistiu.  Houve uma segunda viagem, desta vez com reforços e um salvo-conduto do chefe-de-polícia de Belém que, mediante o preceito constitucional da liberdade religiosa, conseguiu com melhor empenho desenvolver seu movimento aqui.

Em 1917 chega outro evangelista da Assembléia de Deus, de nome José de Matos, dando continuação ao trabalho de Aza. Assim, em 27 de junho de 1917 José de Matos funda a Assembléia de Deus em Macapá. Num sábado, 30 de junho, aconteceu “o primeiro batismo com o Espírito Santo”. Em 21 de agosto de 1958 foi consagrado novo templo, desta vez situado no centro da cidade, na Rua Tiradentes com Presidente Vargas

quarta-feira, 24 de junho de 2015

CABANAGEM NO AMAPÁ - Notas históricas



Sobre a participação de Macapá, Mazagão e Santana no combate aos cabanos, vejamos o relato do geógrafo Antonio Carlos: [1]

No período de expansão dos conflitos provocados pela Cabanagem na região, o espaço amapaense se configurava principalmente como palcos de resistência a esse movimento social, considerado como um dos mais notáveis de nossa história, já que foi a única insurreição em que as camadas populares conseguiram ocupar o poder durante um espaço razoável de tempo.

            Macapá, Mazagão e Santana, por terem sido núcleos de povoamento feitos através de colonos deslocados das possessões territoriais portuguesas na Africa, apresentavam oligarquias locais com forte lealdade ao Estado conservador remanescente da Coroa portuguesa que havia se instalado no país após 1822, com o processo de Independencia.

            Essas oligarquias, que constituíam uma minoria privilegiada, passaram a mobilizar seus recursos e capital para o fortalecimento da resistência aos cabanos, impondo a esse movimento duras baixas, já que  o mesmo procurava destruir as bases da dominação política e econômica desta elite regional. Dessa maneira, Macapá e Mazagão passaram par a a história como burgos que combateram os cabanos despossuídos em defesa da legalidade das classes hegemônicas do Império.

            Nesse período, os franceses tentaram tirar proveito da situação de conflito e instabilidade na região instalando uma fortificação em um dos lagos do município de Amapá, e a partir daí passaram a dar apoio ao movimento cabano. As ações francesas no Amapá provocaram reações da Capital (Rio de  Janeiro), sendo que, como forma de retaliação, a população começou a evitar a compra de produtos originários da França. Diante de tais pressões, o governo Frances retirou suas tropas do Amapá em 1841, tendo os dois países concordado em transformá-lo numa região contestada, passando a ser administrado por um representante do governo brasileiro e outro do governo frances. A desorganização política e econômica da área do Contestado o tornou palco de movimentos separatistas. Um deles foi a fracassada tentativa de independência, quando foi transformado em Republica do Cunani (1885-1887) através de um movimento licerado por um aventureiro frances conhecido como Jules Gross. Este ultimo fato intensificou as pretensões francesas na área.

            O desrespeito ao acordo de neutralização por parte dos franceses, principalmente com a descoberta de ouro em Calçoene, motivou sérios conflitos no final do século XIX, estremecendo as relações diplomáticas entre Brasil e França. [2]



[1] O nome completo do geógrafo é Antonio Carlos Rodrigues dos Santos
[2] SANTOS,  Antonio Carlos Rodrigues dos; Geografia do Amapá, 3ª Ed, 2005, Gráfica RVs, Macapá, p. 14.


 Notas históricas sobre a reação á Cabanagem em Macapá, Mazagão e Santana


            1823

15 de agosto de 1823  – Os vereadores de Macapá e Mazagão fazem o juramento, em obediência ao novo regime do governo imperial do Brasil, após a Independência. 

            01 de abril de 1824 –  A Junta  Provisória envia circular ao governo da vila de Macapá, fornecendo instruções que deverão ser observadas no combate aos cabanos nessa região. 

15 de maio de 1824  – A Junta Provisória do Governo de Santarém envia instruções ao governador interino de Praça de Macapá, João Baptista da Silva, para serem observadas durante o combate aos cabanos em Macapá.

            7 de janeiro de 1835 – Felix Antonio Clemente Malcher assume no Pará um governo revolucionário, e Bernardo Lobo de Sousa, presidente da Província, é assassinado. Começa o período cabano. Macapá e Mazagão rejeitam o novo governo. Alguns cabanos começam a se fixar no Amapá.

27 fevereiro de 1835 – O juiz de Direito e promotor público de Macapá decide apoiar a decisão da Câmara do Senado em resistir à Cabanagem que ocupou as cidades de Belém e Vigia.

19 de abril de 1835 – Reunidos, os vereadores de Macapá decidiram não aceitar a moeda de cobre criada pelos cabanos que governavam o Pará. Em vista disso, a guarnição da Fortaleza de Macapá não recebia seus saldos há sete meses. Preocupado, o capitão Joaquim Romão de Almeida levou o problema ao juiz de Direito Francisco Valente Barreto e ao promotor Estácio José Picanço. Ver 24 de abril de 1835.

22 de abril de 1835 – Uma comissão de cinco membros, escolhidos em sessão realizada nesse dia, apresenta à Câmara de Macapá o plano de defesa da vila contra os cabanos.  O presidente da Província do Pará delega autoridade ao juiz de Direito Manoel Gonçalves Azevedo para presidir a comissão, que era composta por dois capitães (Joaquim Romão de Almeida e Francisco Valente Barreto), pelo promotor público Estácio José Picanço e mais outros dois, para organizarem o plano. A comissão consegue a nomeação do tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos com comandante militar de Macapá.

18 de maio de 1835 -  Chega à vila de Macapá o tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos para comandar a Praça de Macapá. Ele passa a ter, a seu comando, um reforço de seis capitães, seis tenentes, seis alferes, um sargento-ajudante, um sargento-quartel-mestre, 103 sargentos, 205 cabos e 315 soldados.

27 de agosto de 1835 – Reúnem-se na Câmara de Macapá as autoridades civis, militares, eclesiásticas e a população em geral, para encontrarem estratégias de resistência aos cabanos que haviam conquistado Belém e Vigia.

05 de setembro de 1835 – O comandante militar de Macapá, Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, envia circular às autoridades e fazendeiros macapaenses, dando instruções sobre o combate aos cabanos que já pensavam em tomar Macapá. 

20 de dezembro de 1835 -  Os cabanos que se refugiaram em Ilha de Santana são expulsos.

            01 de janeiro de 1836 – O capitão Fernando Rodrigues, comandante da 1ª Cia. da Guarda Nacional, escreve a Jorge Rodrigues, dando notícias sobre a resistência imperial por ocasião da Independência do Brasil em Macapá..

02 de janeiro de 1836 – O comandante  militar de Macapá, Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, escreve ao governo provincial do Pará, relatando a oferta de várias embarcações de comerciantes de Macapá, para o combate aos cabanos. 

12 de fevereiro de 1836 – Por ofício de nº 24, o comandante da Praça de Macapá, major Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, relata ao presidente da Província do Pará, Jorge Rodrigues, que os norte-americanos estavam dispostos a trocar armamento com gêneros alimentícios.

28 de fevereiro de 1836 – Sai de Macapá uma expedição chefiada por Raimundo Joaquim Pantoja para atacar os cabanos de Breves. Ver 07 de março de 1836.

7 de março de 1836  – Raimundo Joaquim Pantoja, partindo com o alferes Francisco Pereira de Brito e soldados da praça de Macapá, chega em Gurupá (no Pará), onde se encontram os cabanos. Ver 8 de março de 1836.

8 de março de 1836 – Combate na foz do rio Caju-Una, entre cabanos e tropas legalistas, participando soldados macapaenses.

13 de março de 1836 – O major Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos recebe novamente o macapaense e capitão da Guarda Nacional Raimundo Joaquim Pantoja, que solicita mantimentos e armamentos para o combate aos cabanos nas ilhas vizinhas. Monterozzo Acode, prestando-lhe auxílio e providenciando armamentos.

15 de março de 1836 – O comandante da Praça de Macapá, major Francisco Monterozzo, comunica ao presidente da Província do Pará, Jorge Rodrigues, a presença do capataz Manoel Pedro dos Anjos, tenente-coronel comandante dos cabanos, entre as forças que estavam alojadas no litoral da ilha de Marajó. Refere-se ainda à vitória conseguida pelo capitão Pantoja e seu ajudante Francisco Pereira de Brito, contra os rebeldes localizados em Curuçá e Caju-Una.

17 de março de 1836 -  Chegam à vila de Macapá as autoridades de Santarém que acaba de cair em mãos dos revolucionários cabanos, entre elas o juiz de Direito da Comarca de Tapajós, Joaquim Francisco de Souza. (Vidal Picanço, Estácio, Informações sobre História do Amapá, Pág. 85).

23 de março de 1836 – O major Francisco Monterozzo comunica, em ofício, ao presidente da Província do Pará, marechal Jorge Rodrigues, que os cabanos haviam se apossado das cidades de Gurupá e Santarém, chegando aqui na então vila de Macapá, as principais autoridades desses dois municípios paraenses.

15 de abril de 1836 – Sai de Macapá uma expedição comandada pelo alferes Brito, destinada a desalojar os cabanos do arquipélago do Bailique. Ver 17 de abril e 29 de maio de 1836.

17 de abril de 1836 -  Pelo ofício nº 34, o major Francisco Monterozzo informa ao general Jorge Rodrigues que no dia 15 o capitão Raimundo Joaquim Pantoja autorizou o alferes Brito, com três oficiais e 50 guardas de Portel, a saírem de Macapá para a ilha de Gurupá, em duas embarcações, para defenderem a vila de Portel, que se achava ameaçada pelos cabanos do Tapajós.

28 de abril de 1836 – O alferes Brito derrota os cabanos da região de Bailique.

24 de maio de 1836 – O comandante militar de Macapá, major Francisco de Siqueira Monterozzo, escreve ao comandante da Província do Pará, informando do envio de documentos considerados suspeitos, aos cabanos da região.

05 de dezembro de 1836  – Monterozzo escreve ao governador do Pará referindo-se a um episódio ocorrido em 20 de novembro do mesmo ano, em Ilha Vieirinha, perto de Macapá, onde sessenta soldados mataram 30 cabanos ali alojados, incendiando suas casas e apropriando-se de seus pertences. 


            9 de julho de 1839 – O comandante da Praça de Macapá, tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, é deposto do comando, sob suspeita de que ele favorecia aos cabanos. Ver 29 de julho de 1839.

29 de julho – O Visconde de Souza Franco, governador do Pará, escreve ao ministro da  Guerra, conde Lajes, noticiando o conflito ocorrido em 8 de julho, em Macapá, que resultou na deposição do tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo, sob acusação de favorecer aos cabanos. 

            01 de março de 1840 – O governo da Província do Pará cria a Colônia Militar Pedro II, situada à margem  direita do Araguary.  A partir desta data finda o periodo cabano em Macapá.