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domingo, 27 de julho de 2014

CENTRO DE CULTURA NEGRA


O Centro de Cultura Negra foi criado, em Macapá, em 5 de setembro de 1998, com a finalidade de resgatar e preservar o modo de vida, usos e costumes da raça no Amapá. Está localizado em uma quadra do bairro do Laguinho, distinguido como tradicional reduto de afrodescendentes,  de onde se dissemina muito a influ^ncia da raça para outras partes da cidade e do Estado.

A instituição surgiu no rastro da União dos Negros do Amapá (uma), entidade que há alguns anos vinha se esforçando para manter viva a cultura dos descendentes dos escravos africanos que para o Amapá vieram para lides na lavoura, caça, pesca, e principalmente para trabalhar na Fortaleza de São José de Macapá.


O Centro dispõe de salas museus e salas muiti-uso para oferecer, além de realizações como espetáculos musicais e dança, teatro e diversas outras, curso sobre mitologia africana, figurinos afro-braileiros, história do negro no Amapá, cab eleireiro sobre penteado afro-artesanato, linguas e dialetos africanos, história da arte negra, bijuterias africanas e música negra.




quarta-feira, 23 de julho de 2014

BANDA DE MÚSICA OSCAR SANTOS


1954 - Primeiros momentos da banda,em apresentação no auditório do antigo GM, hoje Escola Antonio Pontes

Esta é para recorda um pouco o mestre. A Banda de Música Oscar Santos foi criada em Macapá em 25 de janeiro de 1954, pelo mestre Oscar Santos, na então Escola Profissional Getúlio Vargas, hoje Escola Integrada de Macapá.  Após a morte de mestre Oscar, a banda de música ganha a nomenclatura de Banda de Música Oscar Santos.
 

sábado, 19 de julho de 2014

A Festa de São Tiago em Mazagão Velho


A Festa de São Tiago em Mazagão Velho inicia no dia 16 de julho e termina no dia 27. Entretanto, o movimento maior se verifica nos dias 24 e 25, onde a programação refere-se a teatralização da lenda, montada pelos próprios membros da comunidade. Relembra as lutas religiosas travadas entre mouros e cristãos durante o período das Cruzadas, no norte da África, na então Mazagão Africana (hoje El Djadidá, no Marrocos). A primeira comemoração da festa se deu, em Mazagão Velho, em 23 de janeiro de 1777, por ocasião dos sete anos de instalação da vila.

No dia 24, a partir das 15 horas, os emissários dos Mouros entregam presentes envenenados às autoridades cristãs. Há uma ladainha às 20 horas e uma hora mais tarde começa o “Baile de Máscaras”, efetuado pelos Mouros em regozijo à vitória que pensavam ter alcançado por causa dos presentes envenenados que enviaram aos chefes cristãos.

O dia 25 inicia com uma alvorada festiva às 04 horas da madrugada. Às 06:30 horas o Arauto sai pelas ruas da Vila convocando as figuras para o Círio. Às 08 horas ocorre o Círio de São Tiago e às 09 horas inicia uma missa solene. Ao meio-dia, o Bobo Velho sai às ruas para espionar os cristãos e é apedrejado por eles. Às 14 horas, acontece a saída do Arauto anunciando o início da representação da batalha entre Mouros e Cristãos. Depois, em ordem, encenam a tomada do estandarte, a descoberta e morte do Atalaia, a venda das crianças cristãos, a batalha entre as forças inimigas e o "Vomonê". Às 20 horas, ocorre o Recírio e, às 21 horas, outra missa seguida pela ladainha de São Tiago.

Nos dias 26 e 27, as crianças representam o mesmo espetáculo, montadas em cavalinhos de miriti (palmeira da região).



A história da festa

A atual vila de Mazagão Velho, situada a 36 km da sede do município (Mazagão Novo), às margens do rio Mutuacá, foi fundada em 1770 com o objetivo de abrigar 163 famílias de colonos portugueses vindos da costa africana em decorrência dos conflitos políticos-religiosos entre portugueses e muçulmanos que ainda por lá perduravam. Essas famílias e seus escravos chegaram no local por volta de 1771. A partir de 1777, em reverência a São Tiago, reviveram as batalhas que cristãos e muçulmanos travaram no Continente Negro.

O evento fundamenta-se na lenda que conta o aparecimento de São Tiago como o anônimo soldado que lutou heroicamente contra os mouros. A lenda enfoca vários personagens e passagens interessantes: Desde a conquista das terras africanas, os lusitanos, fervorosos católicos, tentaram obrigar os muçulmanos a se tornarem cristãos e aceitarem a fé em Cristo e o batismo de sua religião. Esse fato provocou a reação dos seguidores de Maomé que declararam guerra aos cristãos, estes liderados na época pelos capitães Atalaia, Jorge e Tiago.

“Puxo a espada da bainha, em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo. Juro pela cruz da minha espada, que so a colocarei na bainha quando pôr fim a essa batalha com a minha vitória”. Com estas palavras, o figurante faz, na tarde do dia 25, na frente da Igreja de São Tiago, o juramento de São Tiago, um dos momentos mais importantes e emocionantes da encenação.

Durante dias ocorreram batalhas acirradas com grande vantagem para os lusitanos que se aquartelaram heroicamente, resistindo aos constantes ataques dos mouros. Estes, chefiados pelo Rei Caldeira, vendo que não venceriam seus antagonistas, imaginaram e armaram uma cilada. Esta cilada consistia em pedir o fim da guerra e entregar aos capitães cristãos maravilhosos presentes em forma de iguarias.

Os cristãos receberam os presentes com grande surpresa e imediatamente desconfiaram que pudessem estar envenenados. Assim jogaram uma parte da comida na granja dos mouros, onde ficavam os animais, e guardaram a outra objetivando preparar uma contra-ofensiva. Sem nada saber da desconfiança dos cristãos os mouros precipitadamente confiaram na vitória da cilada que armaram e, à noite, deram um baile de máscaras, estendendo o convite aos cristãos que quisessem passar para o seu lado, sem que pudessem ser reconhecidos pelos seus superiores.

Os cristãos compareceram mascarados à festa levando a parte da comida que haviam recebido como presente dos mouros e a distribuíram aos seus inimigos que dançavam, bebiam e comiam.

Quando amanheceu o dia, algumas autoridades mouras que costumeiramente visitavam a granja depararam com os animais mortos e chegaram a ver os restos da comida oferecida por eles aos cristãos. Imediatamente correram para despertar os soldados, ainda ressacados da festa, e constataram um espetáculo pavoroso: muitos soldados jaziam mortos por haverem comido o presente dos cristãos e entre eles estava o Rei Caldeira, seu Chefe supremo.

O filho do Rei Caldeira, denominado Menino Caldeirinha, assumiu o trono. Na manhã do outro dia os cristãos aproveitaram o desespero e a desorganização de seus inimigos para atacá-los.

Porém, antes do ataque eles se confessaram e prepararam-se espiritualmente fazendo um juramento. Daí, movidos pela fé, iniciaram uma luta sem precedentes, só amenizada por volta do meio-dia, quando os mouros, aproveitando o descanso dos cristãos, mandaram um vigia - o Bobo Velho - para tentar persuadir seus conterrâneos que haviam se convertido ao Cristianismo a retornarem para seu lado. Além disso, o Bobo Velho poderia espionar o estado em que se encontrava a força dos seus inimigos. Os cristãos perceberam que o Bobo Velho era mais uma trama dos mouros, mas mesmo assim deixaram-no se aproximar do acampamento. Quando ele chegou perto, apedrejaram-no jogando qualquer objeto que encontravam a seu alcance, que desesperado corria assustado.

No fim da tarde, antes de iniciar a batalha, os cristãos mandaram o Atalaia espionar os mouros. O Atalaia arrebatou a bandeira do acampamento mouro, mas foi descoberto pelos inimigos que o feriram. Mesmo ferido de morte o Atalaia conseguiu chegar próximo de seu acampamento e lá atirou a bandeira a seus companheiros dando gritos de alerta. Em represália, os mouros decapitaram-no, espetaram sua cabeça em uma vara e colocaram-na junto ao muro do acampamento cristão para que estes ficassem com medo. Ainda com planos para vencer os cristãos, o rei Caldeirinha mandou que seus soldados fizessem uma passeata ao redor do acampamento a fim de raptar as crianças cristãs, que curiosas, foram facilmente apanhadas.

Depois do êxito do plano elas foram vendidas e o dinheiro arrecadado serviu para comprar armas e munição. Quando os cristãos souberam do roubo de suas crianças iniciaram uma violenta batalha carregada de grande heroísmo e fé. O rei Caldeirinha ainda propôs a troca do corpo do Atalaia (que haviam levado para seu acampamento) pela bandeira moura em poder dos cristãos. Estes aceitaram a troca mas na hora receberam o corpo e não entregaram a bandeira. A batalha recomeçou com essa atitude e, ao entardecer, os cristãos pediram a Deus que prolongasse o dia a fim de que pudessem vencer tão desesperada luta.

Assim, parecia que o dia estava se prolongando e os cristãos foram vencendo as batalhas que se sucediam até que o jovem rei Caldeirinha foi aprisionado, enquanto seus soldados fugiam. Mortos muitos infiéis mouros, os cristãos rejubilaram-se pela vitória agradecendo a Deus e, em passeata, levaram o rei mouro vencido.

À noite, depois de tudo, organizaram um baile chamado “Vomonê” ou “Vominê”,, que vem simbolizar a vitória alcançada por eles.




Baile de Máscaras
(Fernando Canto)

As máscaras, na Festa de São Tiago, são usadas no Baile de Máscaras, que ocorre no dia 24 de julho, e é um dos aspectos ritualísticos mais importantes, por simbolizar  emoções e cenas de regozinho a vitória que os mouros julgavam ter obtidos sobre os cristãos. O baile ocorre após terem oferecido comida envenenada aos cristãos, visando dar oportunidade aos que quisessem passar para seu lado.

É um baile de homens onde todos estão fantasiados, mas às mulheres e crianças é proibida a participação.  Eles dançam no sentido inverso ao do relógio até ao amanhecer. Ao meio dia, um personagem mascarado chamado “Bobo Velho” passa três vezes no terrritório cristão e é apedrejado pela assistência, pois se trata de um espião mouro tentando obter informações.  Na cena do “rapto das criancinhas cristãs”, os “Máscaras”, dezenas de atores populares, surgem fantasiados, assustando e arrebatando olhares de medos das crianças que os assistem.

A máscara parece ser uma transferência de energias que tem o sentido de mutação e que transcende o drama. Já o “baile” é uma festa dentro da festa. É uma cena de um drama em que paradoxalmente ocorre a oportunidade de se desregrar (pela ingestão do álcool). Mas é quando se subverte a  realidade constituída, pois a organização social do drama tem seus apelos e sanções: se há noticia de uma outra festa na vila, os “Mascaras” vão até lá e acabam com ela. Fazem respeitar as normas da tradição e tecem críticas à realidade através de um grande boneco mascarado chamado “Judas”, que todo ano muda de nome, conforme o momento histórico e a decisão dos que o confeccionaram.

O “Baile de Máscara” é uma forma de representação do potencial subversivo das festas, não só pela crítica, mas pelo dançar constante na direção inversa ao do ponteiro do relógio, tratando-se de um embuste contínuo com o tempo, quando os brincantes giram e vão se espiralando, afastando o tempo linear e vivendo a direção da memória num tempo mítico, onde os acontecimentos heróicos se repetem pelos rituais.

Culturalmente as máscaras de Mazagão Velho podem ser vistas como um aspecto místico da festa porque traduzem o tempo, a memória e o ritual que organiza a memória, a história e a sobrevivência da sociedade. Assim a cultura da festa se efetiva porque suas crenças, gestos e valores são oriundos de um processo de criação de homens e mulheres, e que são partilhados por todos, por meio de juízos de valor e símbolos.

A utilização da máscara na Festa de São Tiago é de disfarce de aparência e de jogos estratégicos. E para entender melhor esse processo nada como pôr no rosto uma caraça, pois assim cada um assumirá também o papel que subverte e mete medo, e que também diverte, mas, sobretudo, que une e corporifica os valores culturais daquela sociedade. (Publicado no jornal Folha de Mazagão, de 25 de julho de 2011).



Roubo de crianças para compra de armas

No dia 25, dia final das encenações, acontece a representação da batalha final entre Mouros e Cristãos. É a data considerada mais importante para organização, o ponto alto da festa. Na encenação, os cristãos usam  indumentárias brancas, enquanto os Mouros vestem uniformes vermelhos.

De acordo com o enredo histórico, muitos soldados e oficiais mouros morreram envenenados depois da ação dos cristãos no Baile das Máscaras, entre eles o rei Caldeira. O exército muçulmano estava enfraquecido. O falecido rei caldeira fora substituído pelo filho, o Caldeirinha, sagrado líder dos mouros, apesar de ainda ser criança.

A história conta ainda que depois de crescer e começar de fato a comandar os mouros, ordenou que seus soldados roubassem crianças cristãs que curiosas, foram facilmente capturadas. Depois do êxito do plano as crianças foram vendidas e, com o dinheiro os mouros compraram armas e munição., para aumentar seu poder bélico. As crianças que assistem ao espetáculo são apanhadas simbolicamente pelos mascarados, mas tudo como uma brincadeira para não assustá-las, já que os pais ou responsáveis podem “resgatá-las” das mãos dos atores fantasiados com um pedaço de papel, simbolizando a compra que consta na lenda. Assim, sem querer, os pais passam a ser os compradores de seus próprios filhos.



Passagem do Bobo Velho e morte do Atalaia

O roubo das crianças iniciou uma sangrenta batalha, que foi amenizada ao meio dia. Foi quando os mouros enviaram um espião par ao acampamento dos cristãos: o “Bobo Velho”. No entanto, os cristãos perceberam a presença do intruso e o expulsaram atirando-lhes paus, pedras e outros objetos que encontravam pelo chão.

Na encenação mazaganense, um cavalheiro vestido com roupa grossa e capacete cavalga três vezes pelas ruas da cidade e o público pôde atirar bagaço de laranja para reproduzir a apedrejamento dos cristãos. Mas nem sempre essa regra é seguida ao é da letra e há registros de ferimentos causados por pedradas no figurante que faz o papel de Bobo Velho.

Ainda, segundo a epopéia, os seguidores de Cristo também enviaram um espião para as trincheiras mouras: o Atalaia. Ele conseguiu arrebatar a bandeira inimiga, mas foi descoberto e atirado pelos soldados inimigos. Mesmo ferido gravemente, o atalaia conseguiu se aproximar do aquartelamento cristão, para onde atirou o estandarte do povo inimigo. Em represália, os mouros o decapitaram e colocaram a cabeça na ponta de uma lança para intimidar os cristãos. O fim do Atalaia também  é encenado na frente da Igreja, com a morte cênica de um figurante.



Aparição de São Tiago e a vitória cristã

O próximo episódio da tradição é a proposta do rei Caldeirinha de trocar o corpo do Atalaia pela bandeira moura. Os cristãos aceitaram a proposta. Porém, receberam o corpo  de seu soldado, mas não entregaram a bandeira inimiga, como acertado. Os combates recomeçaram com essa atitude, desta vez com mais intensidade. O guerreiro Tiago jurou a Deus que venceria a guerra para que a palavra do Senhor fosse obedecida:

“Juro pela cruz da minha espada, que se não vencer essa batalha, serei morto e degolado”, são as palavras do figurante para dar vida ao juramento.

Ao anoitecer, o exército de Cristo pediu a Deus para tornar o dia mais longo e, sgundo a lenda, foi atendido. Foi quando São Tiago apareceu e ajudou os cristãos a vencerem sucessivas batalhas, com ajuda daquele que era, até então, um guerreiro desconhecido. As tropas mouras foram perecendo e, por fim, o rei Caldeirinha foi capturado e seus soldados fugiram do front. Era a consolidação da vitória cristã, comemorada com a dança do Vominê pelos soldados aliados.

Todos estes fatos são minuciosamente reproduzidos no ultimo dia de festa, marcando fim da representação da Batalha e da parte religiosa da Festa de São Tiago.


“Vominê”, a Dança da Vitória

Adendo forte do folclore da festa, o Vominê é a dança que reproduz a comemoração da supremacia dos cristãos após a consolidação da vitória sobre os mouros. Durante os 12 dias da festividade é dançado em residências de famílias tradicionais de Mazagão Velho por volta de cinco horas da manhã, nas alvoradas festivas sempre acompanhadas por salvas de tiro. À tarde é a vez das crianças participarem  da dança.

Como forma de agradecimento, a família anfitriã oferece um lanche, quase sempre biscoito com suco ou café para as crianças e abstêmios e também, em alguns casos, bebida alcoólica para os dançantes adultos. Uma dessas bebidas é a gengibirra, um tipo de batida feita com gengibre – também servida na dança do Marabaixo, em Macapá. Aliás, as semelhanças com a dança tradicional da capital são muitas.

No Vominê, a exemplo do Marabaixo, o som da caixa comanda o ritmo da melodia que serve de plano de fundo para letras.  Na verdade, rimas feitas de improviso, uma espécie de repente amazônico, com um refrão que poderia ser descrito como um som sustenido da vogal  “e”. No caso da canção mazaganense, quase há referencia ao dono da casa onde está sendo feito o ritual:

“Cadê o dono da casa,
Com ele eu quero falar.
Estou com a garganta seca
Um café e uma cachaça eu quero tomar”

Esta, acima, é um dos repentes, que em Macapá chamamos de “Verso ladrão”.

As ladainhas, as salvas de tiro, as alvoradas festivas e o Vominê ns residências da vila são os traços mais importantes da Festa de São Tiago, e durante oito dias são símbolos que antecedem o ponto máximo da festa: a encenação teatral da batalha entre mouros e cristãos dividida entre os dias 24 e 25 de julho. (Publicado no jornal Folha de Mazagão, de 25 de julho de 2011).


Missa campal, procissão e presenças ilustres

Na manhã de 25 de julho, o que se vê são milhares de pessoas na procissão e na Rua Senador Flexa, que passa na frente da igreja. São os visitantes, a renovar a fé ou para ver a encenação. A procissão acontece por volta das 8h, depois da missa campal. Assim as imagens de São Jorge e São Tiago percorrem  as principais ruas de Mazagão Velho, com os cavalheiros vestidos a caráter e montados em seus cavalos. Nesse momento os fiéis aproveitam para agradecer e/ou fazer suas promessas a São Tiago.

A festa é tão concorrida que chega a faltar hospedagem, nada que a hospitalidade mazaganense não resolva.


Uma festa só para as crianças

Depois do dia 25 de julho, quando encerra a Festa de São Tiago feita pelos adultos, é hora das crianças aprenderem a tradição que um dia será responsabilidade delas perpetuarem. Durante os dias 27 e 28 de julho, respectivamente elas também encenam a entrega dos resentes e a batalha entre mouros e cristãos, “ montadas” em cavalinhos enfeitados com papel de seda e feitos de miriti, madeira comum na região. Também há a alvorada festiva e a dança do Vominê, enfim, tudo o que os adultos fazem.

A Festa de São Tiago Mirim também tem direito aos  uniformes brancos e vermelhos do smouros e cristãos. E a tradição é levada a sério pelas crianças, mesmo quando há a preocupação dos pais com que elas aprendam desde cedo a respeitar a figura de São Tiago.






           




sábado, 26 de abril de 2014

FESTAS DO AMAPÁ: O ÇAIRÉ OU SAHIRÉE


A palavra Sairé (ou Çairé), por ser francesa, tem que ser pronunciada com o E fechado, e não aberto, como fazem os dançantes da região de Santarém, no Pará. É uma espécie de cesto de cipó, levado como andor nas festas religiosas. Foi considerada como uma das melhores manifestações folclóricas realizadas pelos antigos habitantes de Macapá e Mazagão, no século passado e início deste século. Era festejado anualmente com o Marabaixo, o Batuque e a Festa de São Thiago, muito embora hoje não mais receba a mesma importância sócio-cultural.
A dança se caracteriza pelos seguintes passos rituais: à frente de uma procissão existe a figura em madeira de um semicírculo, conduzido por duas mulheres que seguram as longas fitas multicores, pendentes dos seus arcos, sendo toda a peça revestida de algodão cru.
Antecipando a procissão, segue um homem, ora rufando uma caixa ou tambor, ora lhe dando toques compassados, soprando uma pequena gaita. Na retaguarda do Sahirê, os acompanhantes da procissão, seguem uma coreografia caracterizada pelos movimentos das mulheres que conduzem e andam em passos de dança.

O Sahirê sai para a casa de festas, ali permanecendo exposto. Os instrumentos usados são a caixa, a gaita ou flauta feita de taboquinha (bambu). A caixa é coberta com pele de animal.

Seu ritual consiste em uma grande quantidade de pessoas enfileiradas, com as mãos nos ombros dos que ficam adiante, formando três ou quatro ou mais alas. Se a dança for mista, a pessoa pega nas bordas do Sahirê, o qual é enfeitado com algodão, flores, espelhos e outros ornamentos. No arremate, em cima, é presa uma fita comprida, que se estende por cima das cabeças das pessoas da procissão e passa de pessoa em pessoa que segue na retaguarda num ritmo onde se pega e puxa de vez em quando para trás, devolvendo-a para outra pessoa da retaguarda, até os tamboleiros de fora pararem com o toque do tambor.

Os personagens do Sahirê são: -Juízes (vêm atrás); -Mordomos (rodeiam os juizes, metidos entre varas que fazem um quadrado em torno dos mesmos); Índias (em número de quatro, com características de anciãs, sendo uma delas coxa e aleijada).

O vestuário consiste em roupagem branca, tanto para os homens como para mulheres (índios, caboclos ou mamelucos, caribocas). O negro não tomava parte nesta festa, porque era tipicamente constituída por índios e brancos. Atualmente os grupos folclóricos são formados em sua maioria por negros e mulatos. Daí concluir que Sahirê é uma dança tipicamente amazônica, sem qualquer influência africana.

No Estado do Amapá o Sahirê é representado por semicírculo de cipó de seis palmos de diâmetro partidos em quatro, com uma cruz no meio. As figuras que empunham o Sahirê são em número de três índias, sendo que a do meio denominada mestra, pega outras índias na ponta de uma longa fita atada no alto do Sahirê. Por baixo da cruz, as índias vão saltando de um lado para outro após o passo da mestra. Os juízes e juízas, bem como a figura de um corista, cantam ao redor do andor uma cantiga na língua Tupi.

À frente do Sahirê segue um estandarte de São Tomé que é festejado simultaneamente (a influência veio dos missionários jesuítas).

A dança do Sahirê teve grande influência religiosa não somente em Macapá e Mazagão Velho, mas nas localidades do baixo Amazonas. Quanto à origem da palavra Sahirê várias versões foram levantadas e analisadas por diversos estudiosos sem uma conclusão definida.

O naturalista e pesquisador brasileiro João Barbosa Rodrigues, em viagem realizada em 1856 pela região do Tapajós, presenciou uma espécie de procissão, criada pelos padres jesuítas, que denominavam de Sairê ou de Tariuá, palavras de origem indígena.

Alguns acreditam ser o Sairê uma derivação de Sahirê. O estudioso Câmara Cascudo é partidário desta tese. Já o escritor paraense José Veríssimo, define a palavra Sahirê como uma coroa e a festa-estandarte muito comum na Amazônia, que ainda no final do século passado era considerado vulgar.




terça-feira, 22 de abril de 2014

POÇO DO MATO



O Poço do Mato localiza-se no meio da Avenida Padre Manoel da Nóbrega, no centro da cidade de Macapá, entre as ruas General Rondon e São José, atrás do terreno da CAESA (Companhia de Águas e Esgoto do Amapá).  

Foi declarado Monumento de interesse cultural do município de Macapá, através do Projeto de Lei nº 037/93, da Câmara de Vereadores de Macapá.
Construído em 1864 para fornecer água aos moradores do antigo bairro do Laguinho, o Poço do Mato tornou-se uma verdadeira fonte de imaginação e fatos folclóricos para os macapaenses.

O primeiro Sistema de Abastecimento de Água da cidade de Macapá, coletava água do velho Poço do Mato, que apesar de antigo, tinha água pura e límpida.
Esta foto rara, extraída do "Álbum do Estado do Pará",pertence à resenha dos 8 anos do governo Augusto Montenegro, no Pará. Além do relato histórico, o importante documento possui muitas fotos da época, que foram feitas pelo excelente fotógrafo Fidanza, em 1908.

domingo, 20 de abril de 2014

MARABAIXO, PRINCIPAL EVENTO FOLCLORICO DO AMAPÁ





O marabaixo é principal evento folclórico do Estado do Amapá, e é considerado uma tradição secular, sendo transmitida de geração em geração através dos anos. É dançado na capital, Macapá, anualmente, nos meses de maio, junho e julho, nos bairros do Laguinho, na Favela e na comunidade do Curiaú. O ritual do Marabaixo começa com o Ramo da Aleluia, onde se inicia a dança dos devotos com o tradicional batuque, e se prolonga até o Domingo do Espírito Santo, também chamado de Marabaixo do Senhor do Quinto Domingo.

Após o Sábado da Aleluia, os negros do Curiaú e do Laguinho, cortam um mastro de macumbeira ou de anauazeira. Na quinta-feira, depois do Marabaixo do Quinto Domingo, homens, mulheres e crianças vão apanhar a murta, dançando e cantando.



Um pequeno mastro é conduzido pela cidade, agitando uma bandeira vermelha à frente, tipo um balizamento, fazendo evoluções, onde segue também a bandeira do Divino Espírito Santo,principal alvo de homenagem dos fiéis devotos.Tempos outrora, os foliões do Marabaixo entravam dançando na Igreja de São José de Macapá, e alguns rapazes subiam até a torre para tocar o sino, festivamente. O traje dos homens constava de uma camisa branca com bordados, calça branca, chapéu de palha enfeitado com fitas e sandálias de couro, enquanto o traje das mulheres era composto de camisa de renda, saia estampada e rendada, anáguas, arranjos naturais na cabeça (flores) e calçadas com sandálias de couro.

A missa e as novenas eram fundamentais no ritual. As bandeiras da Santíssima Trindade do Divino Espírito Santo e do Espírito Santo Real eram hasteadas em frente à Igreja matriz de Macapá e todos dançavam guiados pelo célebre mantenedor (cantador) Ladislau, morador de Curuçá, ou por mestre Julião Ramos. As mulheres cantavam como solistas ou “coristas”, sendo que algumas o exaltavam várias vezes (em rimas e versos denominados de versos “ladrões”). Homens, rapazes e crianças se empenhavam em luta corporal, na tradicional capoeira.



Nos bairros do Laguinho e Favela, na comunidade do Curiaú e até nas residências de pessoas importantes da cidade, dançavam-se o marabaixo. Naquela época, de preferência, à noite, a casa de dona Gertrudes, no bairro da Favela, dançava-se o Marabaixo com todo o fino ritual que lhe é peculiar. Atualmente, o Marabaixo continua ocorrendo no Laguinho, com maior freqüência, onde se pode verificar mais de perto as raízes e toda a ritualística do evento. Os principais aperitivos servidos (em cuias) durante o ritual, principalmente no batuque, são a gengibirra, a catuaba e a macura. Depois, veio o tradicional cozidão feito com muito caldo, carne desfiada, diversas verduras, frutas e legumes. A participação é livre, sendo que qualquer pessoa pode participar espontaneamente ou a pedido dos festeiros.