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sábado, 6 de setembro de 2014

AMOR, CIVISMO E SAUDADES DOS TAMBORES DE SETEMBRO DE OUTRORA - PARTE 1

Texto: Edgar Rodrigues



                Ano de 1950. André Nonato lembrara à mãe, logo no final do mês de agosto, que ela teria que passar na Divisão de Assuntos Culturais do Departamento Territorial de Educação, para pegar os tecidos do uniforme escolas, tanto da calça quanto da camisa, além do desenho para a confecção das luvas e das polainas (peças alegóricas, usadas nos desfiles cívicos, para proteção da parte inferior da perna e superior do pé, ligada ao calçado). A sua irmã, Nazaré de Pádua, também havia avisado à família sobre as faixas verde-amerelas, improvisadas de broche, e os adereços para serem colocados na sua bicicleta, pois ela faria parte do pelotão de bikes alegóricas para o desfile da sua escola, e isso valeria prêmio de classificação.

                Este era o cenário das festividades cívicas de setembro, no período não tão longevo da Ditadura Militar, e que precisava ser caracterizada, na Avenida FAB, já no dia 7 de setembro, toda a conquista da Pátria, o esforço cívico da classe militar na “defesa da honra conta os comunistas”, e na construção do Território Federal, a partir de 13 de setembro. E tudo isso teria que ser novamente lembrado através das imagens, pois, como dizia Confúcio (470 AC): “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Aliás, esta caracterização de se lembrar a história e perpetuar os mitos foi bastante lembrada pelo positivismo de Comte, onde “Os Mortos Governam os Vivos”, como forma de lembrar aqueles que deram seu sangue pela Pátria, e utilizada nos desfiles militares dos tempos hitleristas e de Mussolini... e hoje fazem parte de desfiles de países totalitários e complexos, como China e Coréia do Norte.

                De 1950 até a década de 1970, de 1º a 24 de setembro, a cidade de Macapá praticamente ficava com atividades de aulas paralisadas, e mediante a matéria prima oferecida pelo governo militar, todas as famílias da cidade começavam – seguindo roteiro de cada estabelecimento escolas – a organizar os filhos para o grande desfile. Assim, a chamada Semana da Pátria, na realidade, eram quase três semanas, que abrangiam três fatos importantes do civismo local, como os desfiles de 7 e 13 de Setembro, os Jogos Ginásio-Colegiais e a Expo-Feira Agropecuária do Território do Amapá, que sempre se estendia até o dia 24.

                A partir do dia 1º de setembro, o Grupo Escoteiro e as guarnições civis e militares, como as do Exército Brasileiro em Clevelândia do Norte, começavam o barulho, na cidade, dos ensaios para o dia 7. A garotada, livre até o dia 19, das aulas, se dividia entre ajudar os pais na organização e confecção dos uniformes, e a apreciarem a evolução, mesmo em forma de ensaios, de guarnições como a “briosa” Guarda Territorial, que com sua banda de música, era predominante a afinação e o ritmo ouvido em todos os momentos.


                7 de Setembro

                O primeiro desfile de 7 de Setembro, com toda pompa, aconteceu em 1954, se repetindo em 1955 ate 1960, em cima da Fortaleza de São José de Macapá. Há um registro fotográfico, feito pelo tenente Ruy Gama do Nascimento, à época comandante da Guarda Territorial e diretor da Divisão de Segurança Pública, que mostra o forte todo ocupado pela população, que assistia ao desfile dos representantes e articuladores da segurança local. Pelotões todos em ordem, com guardas territoriais fardados e com seus uniformes passados pela goma de tapioca, e ferro em brasa, desfilavam com todo garbo no cenário histórico da Fortaleza de São José.

                A partir de 1961, os desfiles passaram a ser realizados em torno da Praça da Saudade, primeiro nome da Praça da Bandeira, como lembrança ao brusco acidente aéreo que vitimou o promotor de Justiça Hildemar Maia, o deputado federal Coaracy Nunes, e o piloto Amilton Silva, quando vinham, em um avião monomotor tipo Paulistinha, da região do Macacoari. Mas a partir de 1965 a praça passou a ser denominada, por ato do governador Luiz Mendes da Silva, o primeiro a partir do Golpe de 1964, de Praça da Bandeira.

                De 1961 a 1990, antes da Era Sambódromo, eram improvisadas arquibancadas em madeira, na praça, em frente à Av. FAB, de um lado a outro, para que o público pudesse assistir, sentado, aos desfiles. Estas arquibancadas eram armadas desde a Rua Jovino Dinoá até a General Rondon, e as autoridades eram dispostas em destaque em meio a uma edificação permanente, antes em madeira, e depois em concreto armado, onde assistiam, inicialmente, ao governador que fazia a visita às tropas, à época representantes do 4º Distrito Naval que vinham de Belém, o Tiro de Guerra 130, a Guarda Territorial, a turma da Aeronáutica que trabalhava no Aeroporto de Macapá, o Grupamento do Corpo de Bombeiros, e os grupos escoteiros, entre eles, o Veiga Cabral e Marcílio Dias. Ao som da Banda da GT, os grupos militares, pára-militares e civis passavam, através dos desfiles e das demonstrações que cada um fazia de suas atividades cotidianas, o que era feito para promover a cidadania, como modo eficaz de servir a Pátria.

                A partir de 1969, com a instalação do Exército Brasileiro a partir da 1ª Companhia do 34ª Batalhão de Infantaria, juntamente com o grupo de Clevelândia do Norte, o desfile passou a ter a presença do Exercito aquartelado em Macapá e Oiapoque. Este era o cenário do desfile de 7 de Setembro, na Avenida FAB, no período territorial.



                13 de Setembro – Civismo Estudantil

                Sempre com um tema a ser abordado em cada estabelecimento escolar, o desfile de 13 de Setembro tinha duas funções importantes a considerar: a lembrança da criação do Territorio Federal do Amapá, e a encenação, através de alegorias e adereços, do que está sendo feito no Território, pelos governos militares. Por isso mesmo que todos os temas eram previamente escolhidos no então Palácio do Setentrião para cada estabelecimento de ensino, e transmitidos à direção, cabendo a cada colégio o desenvolvimento dos temas.

                Entre 1961 e 1970, eram quase 36 estabelecimentos de ensino, divididos entre Primário, Ginasial e Cientifico, os protagonistas da grande festa cívica daqueles tempos. E os desfiles de cada estabelecimento eram julgados por uma comissão de jurados, sempre constituídos de educadores, militares e gente de grande notoriedade no Território do Amapá. O antigo IETA (Instituto de Educação do Território do Amapá), CA (Colegio Amapaense), CCA (Colegio Comercial do Amapá, atual Escola Gabriel Café) e o GM (Ginásio de Macapá, atual Escola Antonio Pontes) dividiam, a cada ano, as primeiras colocações. Sempre monitorados, de longe, pelos agentes da Ditadura Militar, os alunos dos colégios davam tudo de si para que seu estabelecimento fosse vitorioso. Os prêmios não consistiam em pagamentos financeiros, mas em troféus, e cada colégio vencedor, o ano todo era lembrado, pela mídia local (Radio Difusora de Macapá, Radio Educadora São Jose e jornal Amapa, do Governo do Amapá), como incentivo para que no próximo ano fosse melhor o desempenho.


                Os desfiles de 13 de Setembro consistiam em alunos uniformizados tanto com uniformes padrões, como também outros fardamentos sempre com inspirações nas cores verde e amarela, e de acordo com a cor padrão de cada estabelecimento. No caso do Colegio Amapaense, a cor era vermelha; do Ginásio de Macapá, azul claro; do IETA, azul marinho, e do CCA, verde. Carros alegóricos, demonstrações de educação física, motos e bicicletas todos estilizados, faziam parte do cenário dos desfiles.... e com direito a apresentação, através de locutores famosos, que era feita em cadeia com as emissoras locais. O resultado dos desfiles não era divulgado no final, mas sim no outro dia. Geralmente eram realizados pela parte da manhã até meio dia. Com a era Sambódromo, os desfiles de 13 de setembro passaram a ser feitos pela tarde.

TAMBORES DE SETEMBRO: AMOR, CIVISMO E SAUDADES - PARTE II


            
    Jogos Ginásio Colegiais

                O terceiro fatos do período da Semana da Pátria foram os Jogos Ginásio Colegiais. Numa cidade como Macapá, longe dos grandes centros urbanos como Belém, e sem ligação rodoviária, houve necessidade de realizar atrativos próprios nesse período, de maneira que toda a população fosse um pouco “vacinada” diante dos processos e buscas, quase que diários, da “turma da repressão”, na caça de “comunistas e corruptos”. O interior da Fortaleza de São José de Macapá sempre abrigava, à espera de transporte aéreo, pessoas consideradas “inimigas da Revolução” para serem “entrevistadas” pelo DOPS do Pará... e muitas não voltavam. Em meio a isso, o Governo Territorial proporcionava esses espetáculos populares, e entre eles, estavam os Desfiles Civicos e os Jogos Ginásio Colegiais.

                Tendo como cenários o Ginásio Coberto da Divisão de Educação (hoje Ginásio de Esportes Paulo Conrado) e o Estádio Municipal Glicério Marques, de 13 a 19 de setembro ocorriam os Jogos Ginásio Colegiais, com direito a torcidas. Eles eram realizados sempre no período da tarde. O Colégio Amapaense, o IETA e o Ginásio de Macapá sempre dividiam as primeiras classificações a cada ano. A partir do dia 19 encerrava-se a parte cívica, e tinha inicio a Expo Feira Agropecuária.



                Expofeira Agropecuária

                Com a finalidade de expor para o publico e visitantes a produção agropecuária do Amapá, o Governo Territorial resolveu investir numa chamada “Feira de Animais e Produtos Agricolas”. A primeira feira ocorreu em 1947, inicialmente em frente à Escola Barão do Rio Branco, na mesma praça do Barão. Com a construção do Estádio Municipal Glicério Marques, a feira passou a ser realizada até a década de 60, quando, finalmente, passou a ter como sede definitiva o Parque de Exposições da Fazendinha. Com o passar dos tempos, a Expofeira foi se aperfeiçoando, até se transformar numa grande vitrine da economia amapaense.



                Resgate

                Da década de 1980 a 1990, houve uma espécie de paralisação da festividade do dia 13 de Setembro, continuando apenas os desfiles do dia 7, e a realização da Expofeira. A partir do governo de João Capiberibe, 1995 a 2002, houve o resgate dos desfiles do dia 13 de Setembro, ficando para o passado, os Jogos Secundaristas, que mais tarde se transformaria em Olimpiadas Estudantis. A partir daí, com menos pompa e mais realidade local, os desfiles eram realizados por grupos escolares denominados NAEs (Núcleos de Apoio aos Estudantes), e o primeiro tema, já na era do Amapá Estado, foi sobre o Programa de Desenvolvimento Sustentavel do Amapá (PDSA), abrangendo assuntos como sustentabilidade, manejo, e outros ligados sempre à realidade local.

                Passou-se parte da empolgação do período militar, que tinha sempre esta dicotomia de mostrar aos cidadãos que tudo estava em ordem no Território, e sob controle, mas por outro lado, vários outros cidadãos que exigiam mais direitos, eram trancafiados em locais de torturas, como forma de fazê-los entender que haveria necessidade imensa da compreensão de que o “Tudo pela Pátria, e tudo pela Revolução” eram metas que tinham um preço muito alto.


                Hoje, passados os tempos dos porões das ditaduras, os desfiles cívicos e a Expofeira do Amapá tentam lembrar os atos bons, e enterras, aos poucos, os exageros cometidos por comandantes inescrupulosos, e colocando, nos nossos tempos atuais, de que o amor à Pátria e ao Amapá se faz através de trabalhos, estudos, lazer e pesquisa... mas sempre com a motivação proporcionada pela sensação de Liberdade....  Esse é, a nosso ver, o grande significado atual nos nossos tambores de Setembro.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BAIRROS DE MACAPÁ: BEIROL


Um dos bairros de Macapá, compreendendo uma área de 1,0 km2. Em 2010 (IBGE) a população do bairro era de 7.930 habitantes, sendo 4.190 homens para 4.574 mulheres, morando em 2.102 domicílios particulares.

A denominação deste bairro origina-se de um antigo paredão existente ali, no final do século passado. O paredão servia de referência para que os artilheiros da Fortaleza de São José praticassem o tiro-ao-alvo, usando os centenários canhões da fortificação. A crônica da época conta que o padre Gregório Alvares da Costa, terceiro vigário de Macapá, destacava-se como exímio artilheiro nestes exercicios.. A ele competia dar lições de tiro e de arte militar aos soldados da fortaleza. Os exercicios de tiro-a-alvo eram praticados nos dias santificados e nas datas civicas.

Logo após a instalação do governo territorial, foi construido, no local, que ainda não se chamava Beirol, o primeiro presidio de Macapá, mas também ficou conhecido com o nome do bairro. Assim desfaz-se o comentário tradicional de que o barirro tivesse se originado de um presídio situado ao lado do quartel da Policia Militar.

No bairro encontram-se a maioria das estações transmissoras das emissoras de rádio e televisão do Amapá; as antenas da Embratel, o balneário do Araxá, a sede campestre do Sesc, a estação de tratamento de água da CAESA, o ginásio Castelo Branco e a Igreja de São Pedro, entre outros locais de destaque.




            

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O POÇO DO MATO

1908 - Poço do Mato, em Macapá. Foto: A. Fidanza

O Poço do Mato localiza-se no meio da Avenida Padre Manoel da Nóbrega, no centro da cidade de Macapá, entre as ruas General Rondon e São José, atrás do terreno da CAESA (Companhia de Águas e Esgoto do Amapá).  

Foi declarado Monumento de interesse cultural do município de Macapá, através do Projeto de Lei nº 037/93, da Câmara de Vereadores de Macapá.
Construído em 1864 para fornecer água aos moradores do antigo bairro do Laguinho, o Poço do Mato tornou-se uma verdadeira fonte de imaginação e fatos folclóricos para os macapaenses.

O primeiro Sistema de Abastecimento de Água da cidade de Macapá, coletava água do velho Poço do Mato, que apesar de antigo, tinha água pura e límpida.


Esta foto rara, extraída do "Álbum do Estado do Pará",pertence à resenha dos 8 anos do governo Augusto Montenegro, no Pará. Além do relato histórico, o importante documento possui muitas fotos da época, que foram feitas pelo excelente fotógrafo Fidanza, em 1908.

2014 - Poço do Mato - Macapá

domingo, 24 de agosto de 2014

MUSEU HISTORICO JOAQUIM CAETANO DA SILVA

Painel sobre o Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva - 
Foto do jornalista Elton Tavares (2009)

Tem sua origem ligada ao exinto Museu Territorial, criado pelo então governador Janary Gentil Nunes em 25 de janeiro de 1948, após a extinção do Museu Territorial nesta mesma data.

            Em 1974, o governador José Lisboa Freire vinculou o Museu Industrial, que funcionava na Avenida FAB, entre Jovino Dinoá e Leopoldo Machado, ao Museu Joaquim Caetano da Silva, com atuação nas ciências naturais e humanas. Como houve maior desenvolvimento na área de Ciências Naturais, em 4 de maio de 1988 o governador Jorge Nova da Costa  extinguiu o Museu Histórico e Cientifico do Amapá Joaquim Caetano da Silva e criou o Museu de Plantas Medicinais Waldemiro de Oliveira Gomes.

            Mas em 16 de novembro de 1990 o Museu Histórico e Cientifico do Amapá Joaquim Caetano da Silva foi reativado pelo então governador José Gilton Pinto Garcia, destinando, como sede própria e definitiva,  o prédio da antiga Intendência. O Museu funcionou neste local, de 21 de maio de 1993 a 26 de junho de 1998, quando foi transferido para a Fortaleza de São José de Macapá, pois o prédio da antiga Intendência estava em obras. Tentou-se uma nova nomenclatura: “Fundação Museu Fortaleza de São José de Macapá, mas não vingou, e o Museu  Joaquim Caetano voltou a ter autonomia própria, mesmo funcionando nas dependências da fortificação.


            Restauração do prédio

            Enquanto a instituição funcionava provisoriamente nas dependências da Fortaleza de São José de Macapá, o prédio do Museu foi restaurado. A proposta de restauração foi precedida de pesquisa histórica e iconográfica, bem como auxiliada pelas prospecções realizadas no próprio monumento, que nortearam as decisões de projeto e obras, observando seu estado de conservação e preservação e o tratamento relativo aos elementos que foram perdidos ou modificados ao longo dos anos, evitando falsas evidências históricas e estéticas.

            Foram realizadas prospecções que indicaram a presença de óculos originais à edificação, configurados pela presença de manilha cerâmica em boas condições de recuperação. O piso e sua estrutura de apoio, dispostos sobre aterra, apresentavam-se completamente comprometidos pela ação de cupins e umidade proveniente do contato com o terreno. Após a  limpeza e remoção do aterro, foram encontrados vestígios do piso original do porão em tijoleira. Os salões do prédio receberam tabuado de ipê e na área frontal foi estabelecido o sistema de composição formal e funcional do nível do porão da aeração.

            Foram confeccionadas novas esquadrias em madeira e vidro e gradís, visto que as existentes estavam em péssimo estado de conservação e não eram originais, bem como escadas metálicas para acesso ao porão e área livre posterior. O nível do porão foi rebaixado de forma a obter uma altura mais confortável e apresenta sistema de aeração para evitar a ocorrência de umidade visando atender aos novos usos de laboratório de restauração e reserva técnica.

            Sistemas de iluminação especial para o museu, climatização de ar por aparelhos tipo “Split” e controle interno e monitoramento visual por câmeras de TV foram incorporados ao imóvel para atender aos aspectos de conforto e segurança. O prédio contava apenas com banheiros no nível do porão, os quais foram totalmente reformados, para atendimento do corpo técnico. Para os usuários foi criado um conjunto de banheiros no pavimento térreo, incluindo o de portadores de necessidades especiais. A acessibilidade ao prédio foi ampliada com a introdução de rampas.

            A escolha das cores atentou para o resultado das prospecções pictóricas realizadas no nível da platibanda e frontão de coroamento do prédio, as quais mantinham o reboco original. As diversas camadas de pinturas que foram sobrepostas ao longo dos anos encobriam as cores originais, que eram em tons de ocre. A restauração dos elementos decorativos em louça (esculturas, pinhas, vasos) foi realizada por técnicos restauradores do próprio museu. As peças encontravam-se em péssimo estado de conservação e após longo processo de intervenção, esses elementos foram restabelecidos em seus locais de origem.

            Em geral, todos os elementos introduzidos na restauração atendem ao critério de reversibilidade das intervenções de forma a não comprometer intervenções futuras e ao mesmo tempo apresentar linguagem contemporânea, mas em harmonia às estruturas originais.

            Tempos atuais

            Atualmente o museu está funcionando no seu prédio definitivo. A edificação que hoje abriga o Museu Histórico do Amapá Joaquim Caetano da Silva é orgulhosamente devolvida à sociedade, configurando-se como um espaço para a salvaguarda e difusão da história social e política de constituição do Estado do Amapá. Assim, os salões nobres do monumento forma destinados aos espaços expositivos para a difusão do acervo arqueológico  no Amapá e na constituição da memória social, histórica e cultural do Estado. O corredor central abriga a exposição que conta a trajetória do Museu e da própria edificação, inclusive do processo restaurativo.

            Foi criado um espaço multiuso para as atividades de difusão e educação que permite atender até 30 usuários de uma só vez, bem como a organização da biblioteca e o atendimento de público, além do setor administrativo, totalmente equipados e mobiliados. No nível do porão encontram-se a reserva técnica e o laboratório de restauração.

            A área posterior foi trabalhada de forma a ser um espaço de convivência e integração do Museu com a sociedade, com o estabelecimento de área de contemplação, paisagismo e deck de madeira, além da construção de  lanchonete, sala de museografia e guarita de segurança e controle do acesso.  Esse monumento representativo da arquitetura e da história cultural do Amapá é testemunho vivo do crescimento, luta e constituição da identidade e memória coletiva, que abrange o vasto patrimônio material, natural e imaterial amapaense.


            A recuperação física do imóvel se soma aos restabelecimentos de um Museu cuja trajetória e função se pauta na pesquisa e difusão dos saberes, da história e preservação cultural do Amapá, no atendimento e utilização e função cultural e social, de forma ampla, plural e democrática.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

GRUPO PILÃO



Grupo musical pioneiro no uso e valorização da cultura regional do Amapá. Criado em Macapá em 26 de setembro de 1975, por ocasião da realização do 5º Festival da Canção Amapaense, na ocasião em que defendeu a música Geofobia, de Fernando Canto e Jorge Monteiro, usando um pilão como instrumento musical.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

FESTA DE S. JOAQUIM NOCURIAÚ


A 8 km de Macapá, ao norte, situa-se a localidade de Curiaú, um povoado habitado por cerca de 300 negros, remanescentes de escravos, que ali, originalmente formaram um quilombo para refugiarem-se dos maus tratos a que eram forçados na época da construção da bi­centenária Fortaleza de São José de Macapá, na segunda metade do século XVIII. Há dois núcleos, distantes cerca de 1 km, com as denominações: Curiaú de Dentro e Curiaú de Fora. Ambos vivem de uma cultura de subsistência, através do extrativismo vegetal e animal bem como da produção de diversos cultivos agrícolas e da pecuária. A farinha de mandioca ali produzida é famosa e considerada a mais gostosa das redondezas.

O Curiaú de Dentro, se caracteriza pela exuberância de um grande lago natural. A bonita paisagem com nuances de verde contrasta com os búfalos e com a plumagem das variadas espécies de aves que dele fazem seu habitat. Na época das chuvas o lago fica cheio como um grande lençol verde. No verão ele seca, ficando somente um igarapé de água corrente onde banhistas para lá se dirigem nos fins de semana e feriados. Já no Curiaú de Fora, a beleza é marcada pela vegetação típica do cerrado, tendo ao seu redor várias “ilhas” de mato em forma circular.

Apesar da aparência das construções, a Vila do Curiaú não é, como se pensa, uma sociedade primitiva, mas sim um lugar politicamente organizado. Seus habitantes são profundamente devotos de várias imagens católicas e tradicionalmente as festejam com fé e veneração.

No Curiaú de Dentro comemora-se São Sebastião, em janeiro, e Santo Antônio, em setembro
No Curiaú de Fora festeja-se Santa Maria, em maio (quando é dançado o Marabaixo), São Tomé, em dezembro, e São Joaquim, o padroeiro dos dois núcleos, no mês de agosto.

Em todas as festas, com exceção da de Santa Maria, após a ladainha, dança-se o Batuque, a grande expressão de origem africana dos habitantes do lugar. Entretanto, é na Festa de São Joaquim que existem aspectos mais interessantes. É a única em que ocorre a Folia.



A Folia e a Ladainha - No dia 09 de agosto, à noite, iniciam-se as festividades de São Joaquim, quando os rezadores e músicos convocam os devotos para irem à Igreja para rezarem a ladainha.

Oh, devoto vamos rezar
A ladainha do Senhor (Bis)
Ai, vamos nós todos adorar
É o sagrado resplendor (Bis)

Ai, eu chamei todos os devotos
Ai, já são horas de obrigação (etc)...

A convocação dos fiéis, feita através da folia, dura cerca de quinze minutos, é realizada pelo Mestre-Sala, e acompanhada por instrumentos específicos do ritual. A campa (pequeno sino) é tocada pelo Mestre-Sala, quando situado entre os dois porta-bandeiras, faz com esse instrumento a marcação do ritmo.
O tambor, comprido e leve, feito de madeira e couro de sucurijú (espécie de cobra da região) também faz a marcação da folia. Os outros dois pandeiros são confeccionados com madeira do cacau e pele de carneiro ou bode.
Duas tabocas fechadas nas extremidades, com sementes dentro, exercem a função de xique-xiques, quatro reco-recos que também são feitos de taboca, onde o tocador passa uma vareta sobre os gomos escavados nela para provocar o som.  Por fim duas violas de cinco cordas fazem o acompanhamento das melodias. Todos os dias, durante a Festa, ocorrem a Folia e a Ladainha. Esta é rezada em latim (com uma entonação de voz toda especial), pelo Mestre-Sala e seu ajudante e respondida em coro pelos assistentes.
O Mestre-Sala é o condutor espiritual da comunidade, pois no Curiaú não existe paróquia ligada à Diocese de Macapá. Após a ladainha, recomeça a Folia. Nessa ocasião todos os devotos devem obediência ao Mestre-Sala. Ele comanda todo o ritual sempre com uma toalha em volta do pescoço. Se achar que um dos devotos não se comportou bem, em relação às suas obrigações religiosas, no dia em que comparecer à Folia terá que “pagar prenda”. Essa prenda consiste em ter que rezar orações ajoelhado e encoberto com as bandeiras do Santo. Assim que ele termina de rezar os foliões dão sinal nos instrumentos.
Terminada a Folia os devoto demonstram sua fé cantando:

“Da cepa nasceu a palma
Da palma nasceu a flor
Aí, nasceu flor, nasceu São Joaquim
Que é para o nosso Redentor

Estão rezadas, rezadas
Estão completas as orações
Ai, tem os anjos por companhia
Ai, quem rezou com devoção (etc)...



O mastro - O mastro da Festa de São Joaquim também existe há mais de um século. Foi feito da árvore de Jacaraúba e todo ano é repintado e levantado. Sua pintura é feita de branco e de listas em espirais azuis. O levantamento do mastro é feito no dia 14 de agosto, e até o término da festa é hasteada a bandeira branca onde está bordada a coroa do Santo.
Todo o processo da Festa de São Joaquim tem características religiosas e profanas. As ladainhas, a procissão e a folia retratam com profundidade a devoção e a fé que os habitantes do Curiaú tem para com seus santos. Por outro lado o Batuque demonstra intensamente as raízes africanas estabelecidas aqui durante o Brasil Colonial, onde o canto negro revolve o espírito de luta e o desejo imenso de ser libertado. Há também bailes populares, antes tocados com instrumentos de pau e corda mas que nos últimos anos foram substituídos por aparelhagens de som mecânico.



O Batuque -  O batuque do Curiaú começa logo após a Folia. É uma das manifestações de dança mais expressivas encontradas no Amapá. O ritmo estonteante dos seculares tambores chamados de “macacos” (porque são feitos do tronco de macacaueiro e de couro de animais) espalham-se pelo salão do centro comunitário do Curiaú de Fora.
Antes, porém, é preparada uma fogueira que fica permanentemente acesa com a missão de esquentar o couro dos instrumentos. São dois os “macaco”: um de repenicar e outro de marcar o ritmo chamado amassador. Cada um deles tem a forma cônica e mede cerca de um metro de comprimento.
Existem também três pandeiros confeccionados há muitos anos com a madeira do cacaueiro e de couro de carneiro ou de sucuriju, que fazem parte do ritmo quente do batuque. Os batuqueiros tocam os tambores sentados sobre os seus respectivos "macaco" e que ficam superpostos num tarugo do acapú.
Os cantadores (solistas) e os tocadores de pandeiro ficam juntos no centro do salão, enquanto os dançadores fazem rápidas evoluções sobre si mesmos e ao redor dos batuqueiros, sempre no sentido inverso ao do relógio.

Ê, ê, São Joaquim
Ê, ê, São Joaquim
Na hora da morte
Reza por mim.

Inda não dançou
Inda não dançou
Essa moça bonita
Inda não dançou

Na dança, sob o som do Batuque, entram homens, mulheres e crianças. Quando o ritmo se intensifica forma-se um espetáculo sem igual: as saias rodadas e coloridas das mulheres tomam conta do salão quando fazem evolução. Os gritos e a queda de corpo que os homens experimentam também cobrem os movimentos da dança. Todos os que assistem podem dançar e participar da Festa.