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terça-feira, 29 de maio de 2012

Inicio do século XX: Macapá sofre um conflito armado


Em 10 de maio de 1901, o capitão Aprigio Perez Nunes, delegado de policia de Macapá, sofre um conflito armado pelo tenente Pompeu Aureliano de Moura, comandante de um destacamento do Exercito instalado na Fortaleza de São José de Macapá, em represália à decisão de Perez Nunes, de tirar do Exército a incumbência do policiamento da cidade. A retirada desta responsabilidade do Exercito, foi em razão de estarem acontecendo várias arbitrariedades cometidas pelos aquartelados na Fortaleza, como abuso de autoridades etc.

          Com o consentimento do intendente Teodoro Mendes, Perez Nunes vai a Belém conserser com o chefe de policia daquele municipio, a fim de recrutar pessoas para fins de instalar uma policia civil no Amapá. Durante sua estada em Belém, Pompeu Moura, depois de várias reuniões, consegue convencer a população de Macapá de que Perez Nunes havia ido a Belém recrutar varios pára-militares com a intenção de tomarem a cidade, para transformá-la numa região independente, a exemplo de Cunani. Ao regressar com oito novos policiais civis, Perez Nunes é abordado por soldados da Fortaleza que fizeram fogo ao delegado de policia e seus novos recrutas. Nunes conseguiu fugir ao cerco e volta novamente a Belém, para relatar o caso ao seu chefe, o delegado de Policia de Belém.

          Em 22 de maio de 1901, uma corveta da marinha brasileira aporta em Macapá, conduzindo um oficial do Exército, uma guarnição militar e o capitão Aprigio Nunes, para renderem o tenente Pompeu Moura, responsável pelo conflito.

          Existe uma outra versão para o conflito, de autoria de Ernesto Cruz (História do Poder Judiciário, pág. 100).:

          26.03.1901. Acontece em Macapá um conflito entre as tropas do capitão da Guarda Nacional de Macapá, delegado de Policia Aprígio Perez Nunes e do tenente de Infantaria do Exército, sediado em Macapá, Pompeu Aureliano de Moura, que teve apoio do juiz de Direito Manoel Buarque da Rocha Pedregulho. Há troca de tiros e lutas entre os contendores. Na realidade, os partidários do delegado Aprígio eram simpatizantes do governo anterior do Pará, Lauro Sodré, que foi derrotado..

          Nesta mesma data, assume um novo juiz da Comarca de Macapá, Francisco Peregrino dos Santos Tocantins, considerado “Laurista” – partidário do governador Lauro Sodré. Há boatos de que haviam deposto o presidente da República Campos Sales e o vice-presidente Rosa e Silva havia assumido, e que o novo governador do Pará, Augusto Montenegro, havia aderido ao movimento, mas que sua adesão não havia sido aceita.

          No dia anterior, 25 de março, havia chegado à capital o juiz Manoel Buarque, como juiz de Direito substituto, considerado “lemista” – partidário do governador Antonio Lemos – acompanhado do capitão Aprígio Peres Nunes, prefeito de Segurança de Macapá. Os lauristas, que constituíam a maioria e que viviam sob regime de opressão, rebelaram-se e atacaram o juiz substituto e o prefeito de policia, ajudados pelo chefe da policia local, coronel Coriolano Jucá, e o alferes do Exército, tenente Pompeu Aureliano de Moura, comandante da Fortaleza de São José. Todos lauristas.

          Os amotinados cometeram excessos,  prendendo o juiz e sua família em um chiqueiro, na companhia de suínos. A política partidária exacerbada jogava juiz contra juiz. O episódio chegou à troca de tiros entre os litigantes e o juiz de Direito Manuel Buarque, que sempre foi imparcial, só pelo fato de ter sido nomeado pelo governador Augusto Montenegro, sofreu os vexames que posteriormente foram levados ao tribunal.


Outra versão
25.1-  REVOLUÇÃO MACAPAENSE

Em 31 de Janeiro de 1901, houve eleição para escolher o governador do Pará, que tomaria posse dia 1 de fevereiro, substituindo o Dr. José Paes de Carvalho. O Dr. Augusto Montenegro, candidato do Partido Republicano Paraense contava com o importante apoio do Intendente de Belém Antônio Lemos e disputou as eleições indiretas, concorrendo com Justo Chermont, que era o candidato do Dr. Paes de Carvalho e contava com o apoio de Lauro Sodré, e o Dr. Germiniano Lira Castro.
Em Macapá, o Intendente era o Tenente Coronel da Guarda Nacional, Theodoro Manuel Mendes, eleito pelas urnas, que decidiu não apoiar o governo de Augusto Montenegro. O Juiz de Direito era Francisco Peregrino dos Santos Tocantins. Exercia o comando das forças federais aquarteladas na Fortaleza de São José o Alferes Pompeu Aureliano de Moura.
 As mais expressivas lideranças políticas de Macapá eram a favor de Lauro Sodré: o Tenente-Coronel Theodoro Manuel Mendes, Intendente; Joaquim Francisco de Mendonça Júnior, redator chefe do Jornal Pinsônia; o Juiz de Direito Francisco Tocantins; o Alferes Pompeu Aureliano; o Coronel Coriolano Fineas Jucá; o Coronel José Serafim Gomes Coelho; José Antônio Siqueira, que também era Tenente-Coronel exercia a função de Diretor-gerente do Jornal Pinsônia e era o Promotor Público da Comarca de Macapá. Nas eleições de 1901, o Intendente preferiu votar no Dr. Germiniano Lira Castro, relegando as orientações de Lauro Sodré para que apoiasse Justo Chermont.
Visando restringir o poder do Intendente Theodoro Mendes, Augusto Montenegro designou o Juiz Substituto da Comarca, Manuel Buarque da Rocha Pedregulho, para ativar a Prefeitura de Segurança, cujo titular seria o capitão Aprígio Peres Nunes. Trouxe sete (7) homens para organizar a guarda local, visto que ninguém queria ser soldado da milícia estadual. Com ele veio o capitão Aprígio Peres Nunes. O Coronel Theodoro Manuel Mendes, divergindo de Lauro Sodré, havia mandando que seus correligionários votassem no Dr. Germiniano Lira Castro, outro candidato ao governo do Pará. A presença do Dr. Rocha Pedregulho tinha por escopo neutralizar qualquer decisão em contrário da parte do Juiz de Direito Francisco Tocantins, acostumado a valer-se da guarnição da Fortaleza para manter a ordem na cidade de Macapá.

O Dr. Rocha Pedregulho e o capitão Aprígio Nunes chegaram a Macapá, dia 25 de março, no barco “Flor da Bondade”, pertencente ao novo Prefeito de Segurança. A embarcação adentrou no Igarapé da Fortaleza e, após o desembarque do Juiz Substituto, retornou para o Furo da Cidade, região da ilhas onde ficava a propriedade do capitão. Na manhã do dia 26 de março, Aprígio Nunes retornava a Macapá trazendo 18(dezoito) capangas, armas e munições. Imediatamente começaram a circular boatos diversos. Um deles chegou ao conhecimento do Juiz de Direito Francisco Peregrino, dando conta de que haviam deposto o Presidente da República Manuel Ferraz de Campos Sales e o Vice-Presidente Francisco de Assis Rosa e Silva. Na verdade, os monarquistas sediados no Rio de Janeiro, tinham preparado um golpe para depor os dois mandatários, dia 19 de fevereiro, mas a conspiração foi descoberta a tempo de ser evitada e presos seus idealizadores. Faziam parte dos articulistas do golpe, militares da Brigada Policial, oficiais do Exército, da Marinha e populares. Alguém vindo de Belém, que ouvira a notícia, mas não sabia o desfecho, quis dar uma de entendido. Ora, nesta época não existia o rádio no Brasil e a comunicação com      a capital da República se fazia através de cabo submarino. Outro boato dizia que o capitão Aprígio Nunes tinha sido orientado para destituir do cargo de Intendente o Tenente-Coronel Theodoro Mendes e até matá-lo, se fosse preciso. Os dois boatos sacudiram a cidade. Em relação ao primeiro boato, o Dr. Peregrino solicitou que Alferes Pompeu Aureliano mantivesse a tropa da Fortaleza em alerta. No segundo caso, registrou-se uma situação marcada pelo respeito que os macapaenses devotavam a Theodoro Mendes. Com era possível que alguém tivesse o descaramento de tentar matar um cidadão íntegro, formado como Guarda Livro na cidade do Porto, em Portugal, além de ser um dos mais festejados oficiais da Guarda Nacional? O negro Pedro Cecílio da Silva, vulgarmente conhecido como Pedro Lazarino, indignado com os fatos decidiu usar de um estratagema. Infiltrou-se entre os correligionários de Augusto Montenegro e de Antônio  Lemos, dizendo que havia rompido  com o Tenente-Coronel Theodoro Mendes porque ele fazia oposição ao governador do Pará e tinha orientado os macapaenses a votarem em Germiniano Lira Castro. Assim, conseguiu participar de uma reunião organizada por Aprígio Nunes na casa do Juiz Manoel Buarque Pedregulho, onde ficou a hora do inicio da luta e o assassinato de Theodoro Mendes. Tão logo terminou a reunião, “Lazarino” dirigiu-se à casa do Intendente, avisando-o da trama armada por seus desafetos. Theodoro relutou em acreditar na informação, pois Aprígio Nunes era seu “compadre de águas bentas”. Por conta própria, Pedro da Silva Cecílio, pôs-se em contato com o Alferes Pompeu Aureliano, comandante da força federal acantonada na Fortaleza. Ao contrário de Theodoro Mendes, o Alferes Pompeu acreditou em Lazarino e mobilizou seus comandados. Na base da comunicação boca-a-boca, a população também foi cientificada do que estava acontecendo e partiu para defender Theodoro Mendes. O conflito eclodiu à noite. Populares e soldados do Exército posicionaram-se em frente e nos arredores do imóvel onde morava o Juiz Substituto, um casarão bem próximo da Intendência, na atual Avenida Mário Cruz. Aos gritos, os populares exigiam que Aprígio Nunes e o Juiz Manuel Buarque saíssem para lutar. De repente, um negro, do meio da multidão, atira para o interior do casarão, deflagrando o tiroteio. Quem tinha arma em casa usou-a na noite de 26 de março. Os soldados estavam à paisana, o mesmo acontecendo com o Alferes Pompeu. Um elemento do destacamento do Exército comandou um grupo de populares para evitar a fuga do capitão Aprígio e de seus capangas. Os populares tocaram fogo no barco “Flor de Bondade” reduzindo-o a cinzas. Desorientado, Aprígio Nunes, aproveitando a escuridão, conseguiu chegar à praia em frente à cidade, fugindo em uma montaria que ali se encontrava. Alguns dos seus capangas o acompanharam.
O juiz de Direito Substituto Manuel Buarque conseguiu sair da área de conflito no momento em que o capitão Aprígio  Nunes retirava-se em fuga. Para não ser visto pelos populares que corriam para todos os lados, o juiz refugiou-se na casa de uma senhora conhecida por Eugênia, perto da residência do Coronel Coriolano Fineas Jucá, homem muito respeitado, que se mantivera neutro no conflito. As filhas do Dr. Manuel Buarque, temerosas de que o pai corresse sério risco de vida, rogaram à ajuda do Coronel Coriolano Jucá, sendo por ele atendidas. Pessoas de confiança levaram o Dr. Manuel Buarque, esposa e filhas para a casa do comendador José Antônio Siqueira, até que os ânimos dos populares arrefecessem. Pela madrugada do dia 27 de março foram conduzidos para a casa da professora Cora Rolla de Carvalho e aí deixados a mercê dos soldados do Exército que os prenderam.
Humilhados e seriamente ofendidos, o Juiz e seus familiares foram metidos em um chiqueiro e posteriormente, devido à interferência de lideranças locais, mandados para a Fortaleza do Vieirinha, em Gurupá, porque corriam perigo se fossem encarcerados na Fortaleza de São José. Para maior segurança dos presos, o Coronel Coriolano Jucá cedeu um de seus barcos a vela para transportá-los. A residência do Dr. Buarque Pedregulho foi saqueada. Os invasores levaram tudo que se podia carregar até mesmo os livros de direito e animais de criação.
Na manhã do dia 27 de março, a cidade apurou o saldo da violência da noite anterior. Além de bens destruídos e de furtos diversos, houve cinco mortes: dois soldados do Exército e três populares que integravam a turma revoltada. Comentava-se que o capitão Aprígio Nunes só conseguiu alcançar a praia porque se vestiu de mulher, usando roupa preta.
O Dr. Manuel Buarque foi bem tratado na fortaleza do Vieirinha e daí levado para Belém, com escala em Breves, para rápido descanso. Ao chegar a Belém, elaborou um contundente relatório, incriminando, principalmente o Alferes Pompeu Aureliano de Moura de Moura.
O governador Augusto Montenegro determinou que o comandante do Distrito Militar do Estado do Pará tomasse as províncias para restabelecer a ordem em Macapá. Assim, em dias do mês de abril, o tenente Francisco Ferreira e o Alferes Paulino Bastos chegaram a Macapá comandando setenta (70) praças da polícia. No mesmo momento a cidade recebeu a visita do tenente Francisco d’Ávila e Silva, a frente de vinte (20) praças do Exército para substituir o Alferes Pompeu e a guarnição da Fortaleza de São José.
Causou admiração aos militares saber que, entre os revoltosos, havia uma mulher negra, empunhando um rifle winchester, e que acompanhava Pedro Lazarino. Seu nome era Josefina de Souza, sobrinha do elemento que se destacou como herói do movimento, Pedro da Silva Cecílio.
O Coronel Theodoro Manoel Mendes não sofreu represálias porque ficou provado que ele não se envolveu no conflito. (BARBOSA, Coaracy Sobreira. História da Justiça do Amapá, 1999, Pág 136)

terça-feira, 22 de maio de 2012

REPÚBLICA DE CUNANI



Cunani, uma pequena comunidade do município de Amapá, já se tornou, por duas vezes, república independente.

 O termo Cunani vem do tupi, e é um dos nomes do tucunaré, peixe da região amazônica. A atual vila de Cunani é distrito do município de Calçoene. Deve possuir cerca de 500 habitantes entre os que moram na sede e os da região ribeira. A base econômica é a pesca e a pequena agricultura. A extração de madeira é outra frente econômica, mas o trabalho é todo manual, por não existir serraria motorizada. Os meios empregados são os serrotes, manejados por dois homens, um em cima e outro em baixo da tora de madeira, suspensa quase dois metros. Este procedimento já era empregado no século XVIII, período da escravidão negra no Brasil.
            A vila possui uma escola, um posto de saúde e um posto de telecomunicações. O pequeno comércio é abastecido com mercadoria trazida de Calçoene ou comprada a bordo de barcos regatões que de tempo em tempo vão entrando nos rios, aparecendo aqui e ali povoados isolados. O campo de pouso falta ser recuperado.
            Pode-se alcançar a vila por dois caminhos: pelo oceano, saindo de Calçoene, a viagem dura 10 horas em barco motorizado. A pé ou a cavalo, pela praia, também é possível, saindo de um lugarejo chamado Cocal.
            Por que este povoado tão pequeno e isolado despertou a cobiça de aventureiros como Jules Gross e Adolph Brezet, chegando eles a transformar essa região, por duas vezes, em república independente? Mas a República de Cunani não constituiu um fato isolado. A própria cobiça francesa por toda a região do Contestado se verificou ali culminando com vários conflitos armados ocorridos entre franceses e brasileiros.

            Em agosto de 1858, o  francês Chatton, antigo cônsul da França no Parpa, instala em Cunani uma base para garimpeiros. Ali cria um sistema de Capitania, constituído por um 1º e 2º capitães e um brigadeiro. Esta instituição se estendeu à pequena vila de Amapá. Os capitães falavam em nome dos habitantes e tentavam solucionar os seus problemas. Nenhum deles tinha, no entanto, autoridade legal, Istoé, não havia uma formalização clara da estrutura de governo.

            Mas foi a sanha de Jules Goss e seus aventureiros que provocou, assim, o aparecimento da República em 1885, que foi logo abafada pelo próprio governo francês, por causa da situação ridícula que causou à França. Mesmo assim, houve uma segunda tentativa, provocada por outro francês de nome Adolph Brezet, em l902, mas foi sufocada, desta vez, pelo governo brasileiro. Mesmo com sua duração efêmera, os selos e moedas do Cunani atualmente representam valores incalculáveis para filatelistas e numismatas.

Jules Gross – A primeira República


            Em 1885, um grupo de aventureiros franceses proclamou a caricata República de Cunani, que se estendia do Oiapoque até o Araguary, exatamente na região contestada pela França. Esses homens elegeram presidente vitalício do no Estado, o cientista francês Jules Gross, romancista e membro da Sociedade de Geografia Comercial de Paris. Mas aquilo que poderia se consolidar numa República Independente malogrou perante as deficiências geográficas e jurídicas.
            Mesmo assim eles emitiram selos e cunharam moedas.
            A aventura teve duração efêmera embora Gross houvesse constituído o governo, criando a Ordem da Cavalaria Estrela de Cunani, para condecorar os simpáticos à causa, o que rendeu bons proventos financeiros pela larga e bem paga concessão que dela fez o esperto “chefe de Estado”. Enfim, eles providenciaram tudo para que o mundo reconhecesse o novo país incrustado no meio equatorial. O governo francês, ante o escândalo que representava tal façanha, em 2 de setembro de 1887 resolveu acabar com ela.
            A República do Cunani era tão caricata, tão de brincadeira, que a maioria dos ministros nomeados por Jules Gross não arredou os pés de Paris, atém por causa do pavor irradiado por algumas paragens sul-americanas, como a nossa. Portanto, não foi difícil desestabilizaá-la.
            Na opinião de Arthur Cezar Ferreira Reis (A Amazônia e a Cobiça Internacional – Manaus, 1946), se o Ministério da República do Cunani funcionava em Paris e não em Cunani, nada havia que autorizasse o funcionamento de um governo local subordinado ao tal gabinete ou em obediência a Jules Gross; e por saber que o corpo administrativo era integrado por indivíduos estranhos à vida de Cunani, o governo francês achou por bem rechaçar tal República que só gracejos e piadinhas de mau gostou causou à Coroa Francesa... um povoado de apenas 300 pessoas (na época).
            O jornalista Hélio Pennafort, que deu notáveis contribuições, com suas reportagens sobre a vida interiorana, a respeito de Cunani escreve:
           
            “Jules Gross e sua turma desejavam transformar em Estado Independente a cobiçadíssima área encastada entre o Oiapoque e o Araguary. Este ano (o artigo de Penafort é de 1985), segundo alguns historiadores, a República Independente de Caunany completaria cem anos de proclamação se a França não tivesse agido energicamente, certa de que a situação só iria causar embaraços aos planos que estava paulatinamente executando com vistas à ocupação integral do território amapaense, que na época não havia nenhuma definição concreta a quem pertencia. E em muitas partes da região, chamada então Zona do Contestado, havia muitas riquezas que vinham sendo exploradas por quem quisesse, com os franceses detendo a maioria, devido à proximidade com a sua Guiana, onde uma boa estrutura naval facilitava a vinda de milhares de trabalhadores, principalmente para a coleta do ouro e a extração de madeira e sementes oleaginosas. O interesse da França era tão grande que chegou até a patrocinar a construção de uma estrada de ferro unindo a região aurífera de Lourenço à cachoeira da Sidomena, na cidade de Calçoene”. (Histórias do Amapá – Nunca vi rio tão danisco de bom” – Artigo publicado no Jornal do Dia, de 11 de maio de 1997 – Macapá-AP)

            Hélio assegura em seu relato, que “os vagonetes chegavam sobrecarregados de ouro que eram embarcados em navios, usando como trapiche as próprias barracas da margem. Em Oiapoque, outra região bastante explorada pelos franceses, a carga principal era o pau-rosa que descia do Cricou (afluente do lado brasileiro), em pequenas embarcações até a enseada do Maripá, onde havia o transbordo para barcos maiores, que levavam a carga para Cayenne. A essência do pau-rosa é matéria prima muito requisitada pelos fabricantes de perfumes franceses. Assim, não podia haver espaço para Gross e seguidores. As autoridades da França, portanto, devem ter pensado: Como se não bastassem as esporádicas reações dos lusitanos e brasileiros,ainda aparece esse grupo de psedo-conquistadores querendo competir com o nosso comércio fácil e de altíssima rentabilidade”. Mas deu trabalho o processo de desestabilização da República Independente do Caunany. Foram dois anos de muito trabalho e enorme pressão. Isto porque para Jules Gross, Cunani não era simples aventura. Ele levou tão a sério a sua idéia que mandou emitir emblemas, cunhar moedas, emitor selos e fez uma propaganda enorme para que o país ficasse conhecido em todo o planeta”.
           
      A liderança de Trajano

O lado histórico do Cunani, de fato, é rico em proezas e peripécias que infelizmente o relaxamento dos nossos contadores de história nos sonegam. Só quem tem a dita de consultar bibliotecas francesas é que pode conhecer com mais detalhes o que aconteceu por lá, no século passado. Aliás, todo esse trabalho foi baseado na documentação de Cayena sobre o fato.
No entanto, mesmo na pobreza historiográfica, dá para saber que na época em que o Amapá era chamada de Zona do Contestado – não estava ainda decidido se pertencia ao Brasil ou à França – a dificuldade era pouca para alguém chegar por aqui e dizer-se dono de pedaços de terra. Mas um grupo de franceses liderados pelo geógrafo Jules Gross foi mais além. Como vimos antes, eles simplesmente proclamaram uma repúblicas com terras que abrangiam praticamente toda a área do Contestado. Emitiram selos


A história da Primeira República de Cunani vai mais além. Não muito tempo depois da charge republicana, a vila voltou a servir de cenários para acontecimentos que decididamente muraram os rumos da região. Vindo do interior do Pará, um negro de meia-idade, baixo e de boa musculatura, chamado Trajano Benitez, ali chegou para aventurar a sorte, atraído pelas notícias que propagavam a fartura de ouro no Calçoene. Trajano deve ter preferido morar no Cunani porque a maioria da população era negra. Ele começou, então, a se meter em assuntos que envolviam a vida comunutária, mostrando logo sua vocação política. Deixemos, agora, o relato com Hélio Penafort:
O governo francês estava precisando de um indivíduo popular e simpático às pretenções francsas, e Trajano era tudo isso. Não demorou muito estava ele liderando quase toda a extensão das ribanceiras do Cunani, contestando abertamente a autoridade do Triunvirato brasileiro que governava a vila do Espírito Santo do Amapá e lugares próximos. Recebeu de Caiena o título de Representant dês Intérets Français à Counani e aí é que se encheu de dedos. Encurtando a história, quando a turma do Triunvirato deu por si, Trajano já havia mandado rasgar a bandeira brasileira e hastear o pavilhão francês em lugar mais nobre do Cunani. E defendia mais os crioulos da Guiana que trabalhavam nas minas do que seus patrícios que perambulavam pelos interiores.
Vendo que a situação periclitava a cada dia, o Triunvirato mandou um destacamento para Cunani, que prendeu Trajano e o levou para a vila de Amapá. E foi justamente a prisão de Trajano que provocou a invasão do Amapá pelos soldados do capitão Lunier, em 15 de maio de 1895. E foi justamente a invasão do Amapá que apressou a reunião da Corte Internacional que julgou a questão da Zona do Contestado e deu ao Brasil as terras que hoje formam o Estado do Amapá.


Adolph Brezet – A Segunda República



            Em princípios de 1893 a vida em Cunani volta à normalidade, e o episódio da Primeira República parece que foi esquecido. Maioria da população, formada por brasileiros, vivia da coleta de especiarias, da pesca nos lagos, e do fabrico de grude de peixe para um comércio manhoso. De repente, a descoberta do ouro pelos garimpeiros de Curuçá, Germano e Firmino Ribeiro, em Lourenço, começou a modificar o quadro: a população, em poucos meses, de 600 habitantes chegou a 5 mil, só em Cunani. Isto provocou inúmeros incidentes na região, como o conflito de 15 de maio de 1895, que culminou com a vitória dos brasileiros e a ligeireza na resolução da questão do Contestado, através do arbitramento de Berna, em 1º de dezembro de 1900. (Ver O Contestado Franco-Brasileiro).
Preocupado com a colonização da região, o governo do Pará, com o aval do governo brasileiro, nomeou um Conselho de Intendência, que passou a vigorar a partir do dia 30 de abril de 1902. Para isso, foram escolhidos o capitão Amaro Brasilino de Farias (presidente do Conselho) e os membros Joaquim Félix Belfort, Daniel Ferreira dos Santos e Manoel Agostinho Batista, que assumiram seus cargos respectivos no dia 15 de maio.
Em maio de 1902 um aventureiro francês de nome Adolphe Brezet, tentando restaurar a República de Gross, começou a encaminhar ofícios à região de Cunani, comunicando uma nova proclamação, e as nomeações de Félix Antonio de Souza, Antonio Napoleão da Costa e João Lopes Pereira para seu ministério.
O plano de Brezet foi imediatamente denunciado por Daniel Ferreira dos Santos ao intendente Brasilino, que baseado em farta documentação, escreveu imediatamente ao coronel João Franklin Távora que a essas alturas se encontrava em Belém. Este levou o incidente imediatamente ao conhecimento do Governo do Pará que, em seguida, instruiu o primeiro prefeito de Belém, Henrique Lopes de Barros, para ir pessoalmente, acompanhado de uma força policial de 33 praças, comandadas por um oficial, para proceder sindicâncias necessárias.
 Ao desembarcar no município de Amapá, em julho de 1902, o prefeito tratou logo de prender os ministros de Brezet que estavam reunidos na residência de Antonio Napoleão, um deles. Ali foram encontrados vários exemplares em português e francês, de propaganda e legislação da nova República de Brezet. Colocando um policiamento ostensivo em todo o município, e com a ajuda da própria população, Henrique Barros se dirigiu em seguida à vila de Cunani, e conseguiu a prisão de mais dois envolvidos: José da Luz e Raimundo Rodrigues Brasil.

Todos foram encaminhados à Comarca de Aricari, na sede municipal (Amapá), e colocados à disposição da Justiça. Os inquéritos duraram 15 dias. Após sua conclusão, os revoltosos receberam umas lições de civismo, e em seguida foram colocados em liberdade. Quanto a Brezet, ele resolveu ficar mesmo em Paris, caladinho, em recolhimento. Nunca mais se ouviu falar dele.

05 de fevereiro de 1905. A revista O Collecionador de Sellos Postaes, de Paris, com tradução em português, na edição de vereiro de 1905, publica artigo referente aos Selos e Moedas de Cunani, do período em que foi República Independente. O que mais intriga é que a noticia seja de 1905, ano em que a república já nem mais existir.









terça-feira, 15 de maio de 2012

Estudos do Relevo do Amapá



   O relevo do Amapá se caracteriza por três regiões fisiográficas fundamentais: planície, baixo platô e maciço antigo.

           Planície

            Da baía do Oiapoque até as margens do Jarí, a fisiografia variável deste primeiro domínio leva-nos a dividi-lo em quadro compartimentos bem distintos:

            O primeiro é uma faixa de terra de origem muito recente, muito baixa, compondo-se de sucessivos cordões litorâneos separados por longas depressões que se convertem em rasas lagoas durante a estação chuvosa. Na baía do Oiapoque e nas barras de outros estuários observam-se penetrações no mar de siriúbas com as suas raízes assentadas em flexas atuais situadas na larga faixa de oscilação das marés. A área submetida a dupla variação diurna das marés é tão ampla que se interrompe a contato com o maciço antigo ou com os tabuleiros. Nas marés de sizígias equinociais a onda montante chega a transpor as primeiras quedas dágua. No percurso aéreo entre as cidades de Oiapoque e Amapá percebe-se a montante da primeira linha das baixas cachoeiras, depósitos de vasa deixados pelas marés. Todos esses fatos parecem indicar que a sedimentação costeira ocorre em concordância com um lento movimento de descida da borda continental. Assim, deposição e subsistência conjugam-se para conferir à planície norte do território amapaense, características de intensa mobilidade dos seus limites e formas.

            Do rio Amapá para o sul situa-se o segundo compartimento da planície. Ao contrário do litoral norte, ele projeta sobre o oceano sugerindo-se uma gênese bem mais complexa. No seu conjunto parece ter constituído a planície de divagação de um grande rio, com o porto do atual Araguari, que bem poderia ser um dos braços do grande delta pleistocênico do Amazonas. Neste caso, toda zona de acumulação entre o Araguari e o rio Amapá (incluindo-se a Ilha de Maracá), constituiria nos tempos atuais a relíquia emersa deste delta, os canais de Carapaporis e da Tortura, antigas bocas fluviais, e os lagos, com seus fundos abaixo do nível atual do mar vencida a margem direita do Araguari, a planície seria atualmente a parte menos instável do delta da maré do Amazonas, formado pelas ilhas Bailique, Curuá, Caviana, Mexiana, Jurupari e Cará. As diferenças morfológicas entre os dois setores da planície, separadas pelo Araguari, devem ser um reflexo relacionado às variações de intensidade do movimento de subsistência de todo o conjunto sedimentar da fossa marajoara. Todas essas hipóteses alicerçam-se, fundamentalmente, na fisionomia da fisiografia regional.

            A região dos Lagos, como é conhecida regionalmente toda a área compreendida do rio Amapá ao Araguari, muito baixa, os pontos mais altos quase ao nível do mar, é constituída por lombadas e depressões, desde as pouco perceptíveis até as sinuosidades mais fortes, níveis de acumulações diversos, bem marcados, pelos períodos sucessivos de enchentes, e elevações que se mantém a descoberto durante os “invernos”. Tais formações diferenciam-se tão bem que têm denominações apropriadas na linguagem regional: os lagos (permanente com água), os  ‘baixios’ e os ‘altos baixios’ (sujeitos a inundações) e os ‘tesos’ ou ‘firmes’ (os níveis mais altos).

            A partir do Araguari e acompanhando as margens do Rio Amazonas encontra-se o terceiro compartimento da planície sedimentar, que é a porção mais diretamente influída pela presença do grande rio, nos tempos atuais. Região relativamente simples, constitui-se de dois elementos da mesma origem: as várzeas baixa e alta,formadas pelos sedimentos trazidos pelo Amazonas e aí depositados numa subordinação à dinâmica das marés semidiurnas que se fazem sentir ao longo dos canais do norte e do Gurijuba e se refletem até o interior por intermédio dos pequenos rios afluentes. O Canal do Gurijuba sofre muito os seus efeitos. Ele não oferece segurança à navegação por causa da violência das correntes da maré, as quais se correlaciona uma intensa precipitação das partículas sólidas na violenta correnteza barrenta do rio Amazonas.

            Ao longo do Canal Norte, na parte continental, a planície da várzea é normalmente estreita. Faz exceção o trecho compreendido entre o Araguari e o Canal. Em Macapá as várzeas chegam a desaparecer. Nas marés altas, as águas alcançam a falésia lateritica, abrigando-se a um paulatino recuo.

            Da baixada periodicamente alagada para o baixo platô a passagem é muito pouco sensível. Pouco se nota o contato entre a planície de divagação dos rios que dissecam os tabuleiros e as compridas e largas lombadas. Dispõem-se de tal forma no sopé do baixo platô que elas sugerem, à primeira vista, um “piedmont” originário da coalescência de inúmeros cones de dejeção, relacionados com a dissecação dos tabuleiros, ou um patamar talhado emcones coalescentes de extensão continental, o “piedmont´ Barreiras, ou ainda, numa hipótese audaciosa, a zona frontal de umd elta. Todas essas considerações implicariam na existência de condições bioclimáticas diversas das atuais e de uma subelevação do maciço antigo. Nesta área a sedimentação do ciclo atual progride de tal forma, que aqui e ali, o fino material de deposição vem cobrindo, possibilitando o “piedmont” o quarto e ultimo compartimento da planície.


            Baixo Platô

            Do Cunani até o Jarí, as rochas cristalinas suportam cobertura detrítica, a formação da barreira, que vem a constituir o baixo platô. A partir de seu extremo norte ele se eleva gradativamente, na altura da antiga Base Aérea da cidade de Amapá, onde mal se define, talvez alcance 20 metros. Daí sobe gradativamente até a Serra da Pancada, depois de Ferreira Gomes, onde se eleva até 100m. Para o sul, em direção a Macapá, vai perdendo altitude até ser bruscamente interrompido pela falésia laterítica, solapada nas marés altas, em cujo reverso cresce a capital do Amapá. Da margem do Jarí para o interior avistam-se elevações semelhantes a “cuestas”. Blocos de arenito ferruginoso, encontrados no sopé, indicam a natureza da camada resistente responsável pela dessimetria.

            O baixo platô é o tabuleiro regional. É uma combinação complexa de formas. Ele se compõe de planos sub-horizontais interrompidos por vertentes declivosas, cortadas por estreitas incisões por onde detritos grosseiros (piçarras) em mistura com areias e argilas descem até os vales largos de fundo chato, formando no sopé cones de dejeção, os quais pela repetição periódica das enxurradas alteiam-se reduzindo a amplitude da ravina e apertando os vales. Quando este processo não está suficiente evoluído, as superfícies suavemente inclinadas dos tabuleiros têm uma nítida rutura, assinalando o inicio da encosta. Esta, por sua vez, contém com freqüência ressaltos, pequenos degraus que correspondem a leitos de piçarra mais enrijecidos e afloramentos de laterita concrecionária. É patante, portanto, o papel da pedogênese como fator do modelado.


            Maciço Antigo

            De todos os domínios é o que apresenta a maior variedade quanto ao grau de movimentação do relevo, resultando daí desníveis abruptos e fortes, apesar da modéstia altimétricas, apresentando como parte culminante o Timotaquem, com 850 m de altitude, na Serra do Tumucumaque. A parte central do Amapá, a que corresponde às baixas do médio Amapari e médio e alto Araguari, é a que possui a topografia mais acidentada. As elevações parentemente desordenadas dessa área, no seu conjunto, tendem a um agrupamento em linhas direcionais, ao norte e ao sul. Na Serra Lombarda atingem o seu clímax. Ai o relevo em cristais denuncia influências de rochas cristalinas mais resistentes e a sua disposição vergada, a subordinação a estruturas antigas. As cristas chegam até o Oiapoque que corre ao longo de uma extensa falha na parte sul. Entre o médio Araguari e o alto Maracá as cristas voltam a característica do tipo de modelado.

            Do Maciço Antigo o ambiente de elaboração do modelo é bem diverso daqueles que caracterizam os domínios das planícies e dos tabuleiros. Quer durante a estação chuvosa, quer durante o curto período seco os processos de natureza química são os dominantes. A ineficácia das ações mecânicas tem como principal componente a vegetação florestal que recobre o maciço. É esta cobertura combinada com os elevados índices pluviométricos, a umidade aprisionada entre o solo e as copas das árvores e as altas temperaturas que justificam a ênfase das ações químicas atuais. Aos mecanismos engendrados pelo binômio bioclimático soma-se o fator pedogenético. Em Serra do Navio, a área do Estado mais conhecida do ponto de vista geológico, ativos processos pedogenéticos de enriquecimento conduziram à formação de resistentes carapaças, ricas em minérios, que protegemos espigões mais elevados da área.

            O aspecto do relevo rejuvenescido da área central está relacionado a movimentos tectônicos ocorridos no terciário ou no quaternário antigo. A floresta, funcionando como eficiente manto protetor, está dificultando prosseguimento dos mecanismos necessários ao rejuvenescimento.

domingo, 6 de maio de 2012

Indios Palikur do Amapá


Os Palikur, falantes de uma língua  Aruak, estão localizados nos dois loados da fronteira Brasil-Guiana Francesa. A população em território brasileiro, estimada em 862 habitantes (Funai, 1998), eistribui-se em 10 aldeias (Kumenê, Flecha, Puwaytyket, Kamoywa, Tawary, Monge, Urubu) assentadas nos tesos que se levantam ao longo do rio Urucauá, afluente da margem direita do rio Uaçá.

Localizada no extremo-norte do Estado do Amapá, a bacia do rio Uaçá, compreende dois afluentes, o Curipi e o Urucauá. Das cabeceiras dos três rios até próximo ao curso médio a vegetação é de terra firme mas, a partir do curso médio seguindo em direção à foz, a vegetação muda e é tomada por campos alagados, entrecortados por terras mais elevadas que permitem a ocupação humana. Do lado francês, os Palikur vivem dentro do perímetro urbano de Caiena e Saint Georges de L´Oyapock, em bairros construídos pelo governo especialmente para abrigá-los, e em aldeias localizadas na margem esquerda do rio Oiapoque.

As terras ocupadas pelos Palikur fazem parte da Área Indígena do Uaçá e são contíguas à Área Indígena do Juminã (homologada pelo decreto s/N de 21 de maio de 1991).

Além dos Palikur, muitos falam ou compreendem o patuá, utilizado como língua indígena pelos Karipuna e pelos Galibi-Marworno. Do lado brasileiro, a maioria dos jovens escolarizados e alguns homens falam o português. Na Guiana, por influência da escola francesa, quase todos falam o francês, com exceção dos mais velhos e de algumas mulheres.

As agências de contato que atuam entre os Palikur atualmente são a Funai, que possui um Posto Indígena na aldeia Kumenê e cujo chefe é um Palikur; a FNS, e a Secretaria de Educação do GEA. Durante cerca de 12 anos (1965 a 1977), um casal de missionários linguistas do Summer Institute Of Linguistics (SIL), trabalhou junto aos Palikur. Sua base foi a aldeia Kumenê, na qual, em meados da década de 1980, foi construída uma igreja filiada à Igreja Evangélica Assembléia de Deus. A maior concentração da população nesta aldeia deve-se ao grande número de pessoas convertida ao credo pentecostal.

            Nome: Palikur, Palicur, Palicour
Aldeias: Kumenê, Flexa, Pwaytyekety, Kamuywa, Twiari, Mangue, Urubu, Ywawka, Kuikuit, Amomni.
            População: 1.011 (2002)
Localização: Municipio de Oiapoque
            Lingua: Aruak

sexta-feira, 30 de março de 2012

OAB Amapá, um pouco de história



Em sessão solene, realizada às 20h30min do dia 9 de dezembro de 1953, tendo como local o edifício do Fórum, era criada a Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional do Amapá. A solenidade contou com a presença do Governador do Território Federal do Amapá, Major Janary Gentil Nunes, magistrado, advogados, serventuários da justiça, jornalistas e comunitários. O edifício do Fórum havia sido inaugurado no dia 25 de janeiro de 1953, oportunidade em que, o Ministro da Pasta da Justiça e dos Negócios Interiores, ao qual estavam subordinados os Territórios Federais, Francisco Negrão de Lima, esteve em Macapá, presidindo a cerimônia. Naquela oportunidade o assunto veio à baila.
          O Senador Atílio Vivaqua, Presidente do Conselho Federal da OAB dirigiu o acontecimento e conduziu a eleição da 1ª Diretoria que ficou assim constituída:
Presidente:   Dr. Hildemar Pimentel Maia, Vice-Presidente: Dr. Manoel Cacela Alves, 1º Secretário: Dr. Vicente Portugal Júnior,  2º Secretário:   Dr. Aurélio Távora Buarque, 1º Tesoureiro:   Dr. Ottelo Martins Leôncio, 2º Tesoureiro: Dr. Odon Passos de Carvalho, Bibliotecário:         Dr. Lauro Sodré Gomes,  Conselheiros: Geraldo Telles, Oton Accioly Rodrigues da Costa e  João Telles
O Território Federal do Amapá foi o primeiro, dentre os demais, a criar o Conselho Seccional da OAB. A idéia de criar e instalar a OAB-Amapá foi lançada pelo Promotor Público Hildemar Pimentel Maia e imediatamente aceita por juristas e magistrados. Ao lado dele despontou o Juiz de Direito Vicente Portugal Júnior, que teve papel relevante na grande conquista. Atendendo todas as exigências do Conselho Federal da OAB, os idealizadores e implantadores da Seccional Amapá foram encaminhando a documentação necessária.
No dia 16 de dezembro de 1953, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, aprovava o parecer elaborado pelo Conselheiro Alberto Monteiro da Silva, reconhecendo a criação do Conselho Seccional da entidade no Território Federal do Amapá. A decisão foi unânime e o próprio relator incumbiu-se de comunicar o fato ao Dr. Hildemar Pimentel Maia, Promotor Público da Comarca de Macapá, suplente do Deputado Federal Coaracy Nunes e Presidente do Conselho Seccional da OAB.
Até o momento em que se deu a Fundação da OAB-Amapá, tinham trabalhado e atuavam no Território os seguintes magistrados e advogados:
         
Juizes de Direito
          José de Ribamar Hall de Moura (Macapá), Manoel Cacela Alves (Mazagão),   Hélio Mendonça de Campos (Mazagão), Euardo de Barros Falcão de Lacerda (Mazagão e Macapá), Jarbas Amorim Cavalcanti (Amapá, Mazagão, Macapá), Joel Quaresma de Moura (Amapá), José da Silva Castanheira (Amapá), Francisco Edgar de Macedo (Macapá),           Erasto da Silveira Fortes (Amapá), Uriel Sales de Araújo (Macapá, Amapá e Oiapoque), João Garcia (Mazagão ), Vicente Portugal Júnior (Macapá), Carlos Gomes Rebelo Horta (Amapá)


            Promotores Públicos
          Hildemar Pimentel Maia (Macapá), Joaquim Gomes Diniz (Macapá e Amapá),  Aurélio Távora Buarque (Mazagão e Macapá), João Marques da Costa (Amapá), João Telles (Amapá e Macapá), Geraldo Telles (Oiapoque e Macapá)

           Advogados
           Lauro Sodré Gomes, Otávio Machado de Mendonça, Paulo Eleutério Cavalcante de Albuquerque, Marcílio Felgueiras Viana, Raul Montero Valdez, Oton Accioly Rodrigues da Costa, Ottelo Martins Leôncio, Odon Passos Carvalho,          Aderbal Melo, Luiz Ribeiro de Almeida, Célio Rodrigues Cal, Dário José Gonçalves, Floriano Waldec e Coaracy Gentil Monteiro Nunes

 Esste perfil é incompleto, mas de qualquer maneira serve de contribuição para quem quiser escrever a historia desta magistral Ordem. Parabéns aos advogados que dela participam.

sábado, 24 de março de 2012

OIAPOQUE, INFORMAÇÕES GEO-HISTÓRICAS



O município de Oiapoque originou-se da morada de um mestiço de nome Emile Martinique, no início do século XX. Por isso, a localidade passou a chamar-se inicialmente de Martinica. Foi aí que o governo federal resolveu criar um destacamento militar, para onde vários presos políticos foram enviados. Alguns anos depois esse destacamento foi transferido para Santo Antonio, atual distrito de Clevelândia do Norte, com a denominação de Colônia Militar. Em 12 de janeiro de 1604, presença francesa, por meio de Montbarrot e La Ravardière. Em 8 de abril, chega La Ravardière com 400 homens, em dois navios, ao Cabo Cassiporé, permanecendo até 15 de abril. Em 16 de abril La Ravardiére vai até o rio Cayenne, ficando ali até 18 de maio. Em 22, o inglês Charles Leigh chega à margem esquerda do rio Oiapoque, toma posse do lugar “em nome do rei da Inglaterra James I, funda a colônia Principium, no Monte Caribote (Lucas), que existe até 16 de junho. Em 15 de agosto, após permanecer às proximidades do Cabo Cassiporé, La Ravardière regressa para Concale, na França, levando muita madeira, peles de animais, centenas de papagaios e índios da região do Oiapoque.

Em 15 de janeiro de 1605, o inglês John Wilson chega ao Oiapoque para reforçar o pequeno estabelecimento fundado por seu patrício Charles Leigh, na embocadura do rio Oiapoque. Em 11 de abril de 1713, os portugueses assinaram com os franceses o Tratado de Utrecht, que estabelecia o rio Oiapoque (ou Vicente Pinzon), como limite entre o Brasil e a França. No entanto, as divergências não foram resolvidas com este tratado. Somente em 1º de dezembro de 1900, após a defesa do diplomata José Maria da Silva Paranhos (Barão do Rio Branco), encerra-se definitivamente a questão, através da assinatura do Laudo Suíço.

O município de Oiapoque é o mais distante da capital do Estado do Amapá. E é também a principal referência nacional, quando se quer determinar os pontos extremos do Brasil (do Oiapoque ao Chuí). Este município foi criado pela Lei nº 7.578, de 23 de maio de 1945. O Oiapoque é um rio que nasce na serra do Tumucumaque (ao norte do Brasil) e deságua no oceano Atlântico. Separa o Amapá da Guiana Francesa.

Por sua fronteira com Saint George, uma colônia francesa que serve de ponto de entrada para a  Guiana (tanto por via aérea quanto marítima), Oiapoque está aos poucos perdendo as características de cidade provinciana. A vida social da cidade ganha status de metrópole. Por outro lado, a relação comercial do Oiapoque com os outros municípios do Estado do Amapá, torna-se cada vez mais intensa. No Oiapoque, o contato permanente entre franceses e brasileiros fez com que se criasse uma linguagem toda própria para a fronteira, até mesmo, como diriam os lingüistas, um novo idioma.

Em virtude das vantagens nos preços e na qualidade dos produtos, os oiapoquenses habituaram-se a fazer compras no lado francês, principalmente de eletrodomésticos, além de bebidas como vinho e uísque. Um tanto afastados da vida da cidade, mas nela convivendo pacificamente, ainda sobrevivem índios das tribos galibi, caripuna e palikur.

O município situa-se a 500 Km de Macapá. Dispõe de um aeroporto e cinco campos de pouso.


ASPECTOS GERAIS:

Localização: o município de Oiapoque situa-se na parte Norte do Brasil e do Estado do  Amapá.

Área: 22.725,70 Km²

Limites: Guiana Francesa; municípios de Calçoene, Serra do Navio, Pedra Branca do Amapari e Laranjal do Jari.

Divisão Política: Comunidades principais
Sede, Clevelândia do Norte e Vila Velha do Cassiporé, Comunidades indigenas Kumarumã, Tukay, Uaçá e Samaúma (Galibi Marworno), Kumenê, Flexa, Pwaytyekety, Kamuywa, Tawari, Mangue, Urubu, Ywawka, Kuikuit e Amomni (Indios Palikur), São José do Oiapoque (Indio Galibi do Oiapoque), Manga, Espírito Santo, Santa Isabel, Açaizal, Zacarias, Inglês, Mahipá, Txipidon, Paxiubal, Bastião, Campinho, Kutiti, Tauahu, Xato, Bovis, Taminã, Japim, Piquiá, Curipi, Estrela, Ariramba, Kunanã, Jondef, Arumã, Encruzo e Karia (Indios Karipuna).+

O topônimo Oiapoque vem do tupi, e significa Casa (Oca, Occo, Oque) dos Guerreiros, ou parentes (Oiapi, Waiap). O nome Waiãpi, que lembra os indígenas da reserva atual do Amapari, também significa “parentes”.

População:
Censo 2010: 19.941 habitantes;
Censo 2000: 12.886 habitantes;
Estimativa 1999: 11.449 habitantes


Divisões Fisiográficas:
o relevo do município é composto predominantemente por áreas de planícies. A vegetação compreende matas de terra firme; várzeas altas e baixas, que sofrem a influência direta dos períodos de cheia e vazante; campos com abundância de gramíneas (canarana) e matas litorâneas, que constituem os manguezais.

Hidrografia: Bacia do Oiapoque pelos afluentes à margem direita. Este rio divide o Brasil da Guiana Francesa e corre de Oeste para o Norte, desaguando no oceano Atlântico.

Clima: quente úmido.

Temperatura: a mínima é de 22º e a máxima de 34º centígrados.

Precipitação: as chuvas ocorrem nos meses de dezembro a agosto, chegando a atingir cerca de 3.000mm. A estação seca vai de setembro a dezembro, mês em que se verifica temperatura mais alta.

Economia: sua renda concentra-se, quanto ao setor primário, principalmente na criação dos gados bovino, bubalino e suíno e na cultura da mandioca, laranja, milho, cana-de-açúcar e outros. No setor secundário, pode-se citar a extração de ouro. Como fonte complementar de renda, os recursos giram em torno do artesanato, incluindo-se aí a fabricação de luxuosas jóias em ouro. Aliás, as pedras preciosas também são um ponto importante na economia do município, a cassiterita é uma delas. No setor moveleiro dispõe de algumas serrarias. As indústrias de panificação ajudam a fomentar a economia, que o município já está se preparando para expandir. Um passo neste sentido é a exportação do cacau beneficiado, através da Associação Agro-extrativista do Cassiporé para a França. Quanto ao setor terciário, possui pequenos estabelecimentos comerciais (mercearias), que se beneficiam do intercâmbio com Saint Georges (São Jorge – Caiena) e com a vila de Clevelândia, onde há bares, restaurantes, dentre outros.

TURISMO

E 1943, ergueu-se neste município um monumento à pátria, indicativo do marco inicial do território brasileiro, onde figuram citações do hino nacional e uma placa indicativa com os dizeres: “Aqui Começa o Brasil”.
O Oiapoque tem ainda como atrações turísticas a Cachoeira Grande, a Vila Brasil, que fica na cabeceira do rio Oiapoque, o Parque Nacional do Cabo Orange e a Serra do Tumucumaque.

Eventos Culturais: o município presta sua homenagem no mês de agosto, precisamente no dia 15, à Nossa Senhora das Graças, padroeira da cidade. A programação, como mandam os costumes, compreende os lados sagrado e profano: missa, arraial e procissão. No mês de outubro, festeja-se a Padroeira de Clevelândia do Norte, Nossa Senhora de Nazaré. Há além disto, as festas juninas, animadas com quadrilhas e desfiles de miss caipira, onde valem a criatividade e a imaginação.




sábado, 17 de março de 2012

São José, importância na colonização do Amapá


Comemorada em Macapá no dia 19 de março, dia de São José, a Festa de São José remonta ao século XVIII e é uma herança lusa através dos primeiros jesuítas que chegaram à região do Cabo do Norte (um dos primeiros nomes que o Amapá recebeu).
         
          Quem foi São José?
          São José constitui para os cristãos a personificação da honestidade, do amor ao trabalho e da fé inquebrantável na palavra de Deus. Os fatos relativos à vida de são José são contados nos evangelhos, sobretudo nos textos de Mateus e Lucas. Descendente da casa de Davi, desposou Maria e, sem que tivessem coabitado, descobriu que ela havia concebido. "Sendo justo e não querendo difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo" (Mt 1:19). Entretanto, um anjo lhe apareceu em sonho e disse que o filho de Maria fora concebido por obra e graça do Espírito Santo.
Após o nascimento de Jesus, em Belém, José, novamente avisado por um anjo, levou Maria e Jesus ao Egito, para escapar à perseguição de Herodes, rei da Judéia. Após a morte do soberano, José, pela terceira vez aconselhado pelo anjo, regressou a seu país com a família. Por temer o sucessor de Herodes, fixaram residência não em Belém, mas em Nazaré, na Galiléia, onde José exerceu seu ofício de carpinteiro. Os evangelhos citam são José pela última vez no episódio narrado por Lucas em que Jesus se perde dos pais e é por eles encontrado horas depois, enquanto discutia com os doutores do templo. Nada se sabe ao certo sobre a morte de são José, embora se conclua, pelos evangelhos, que ocorreu antes do início da vida pública de Jesus.
Acredita-se que o culto a são José teve início entre as comunidades cristãs do Egito. No Ocidente, os servitas, membros de uma ordem mendicante, no século XIV começaram a festejar o dia 19 de março como data da morte do santo. Essa devoção logo teve defensores, entre os quais o papa Sisto IV e a mística espanhola santa Teresa de Jesus. Declarado patrono da igreja universal em 1870, por Pio IX, teve instituída em 1955, por Pio XII, a festa em que é homenageado como são José Operário, em 1º de maio.

Primeiros momentos
O nome São Jose passou a ser utilizado como nomenclatura da cidade de Macapá (vila de São José de Macapá) em 4 de fevereiro de 1758, quando é elevada à categoria de vila. Dois anos depois começam as comemorações sobre a festa, isto é, em 1760, para relembrar os dois anos de nascimento da vila. A procissão inicial era feita ao redor da cidade, em uma capela improvisada, situada quase anexo à atual Igreja Matriz de São José. Consistia em uma romaria, feita geralmente pela parte da tarde, onde os moradores, sob inspiração do pároco local, caminhavam trazendo uma imagem do santo, que era logo depois guardada na capelinha da cidade.
Em 6 de março de 1761 a igreja de São José é inaugurada, na presença do governador do Pará, Manuel Bernardo de Mello e Castro, que substituiu Mendonça Furtado. A obra foi assinada pelo arquiteto italiano Giuseppe Antonio Landi. Foi inaugurada pelo bispo do Pará, D. Frei João José e Queiroz. A pedra fundamental tinha sido lançada em 4 de fevereiro de 1758, por ocasião das solenidades pela elevação de Macapá à categoria de vila, pelo bispo d. Frei Miguel de Bulhões, na presença do governador Mendonça Furtado.

1761 - primeira procissão

Em 19 de março de 1761, o próprio bispo d. Frei João José e Queiroz preside a festa, conduzindo a imagem, em cortejo solene, da frente da Igreja, e passando pelas três ruas principais da cidade: São José, Mendonça Furtado (àquele tempo chamada de Boulevard de Macapá) e Presidente Vargas (Chamada de Rua do Abieiro), na então Praça de São Sebastião (hoje Praça Veiga Cabral).
A partir de 1771, com a inauguração da Capela de São José (na Fortaleza de São José), a romaria começou a ser feita, tendo como roteiro a Rua são José no sentido Fortaleza, indo direto até o Forte, e de lá era oficiada uma missa na capela, retornando pelo mesmo roteiro até a Igreja Matriz de São José.
Em 19 de março de 1782, quando da inauguração da Fortaleza de São José, a festividade passou a ter uma maior participação e a ampliação de seu roteiro se deu pela atual rua Tiradentes.
Passada a época jesuítica, a festa se torna mais participativa a partir de 1913. Em 19 de março desse ano, com a atuação do padre Júlio Maria Lombarde e de seus colegas da Congregação dos Missionários da Sagrada Família (MSF), há a introdução de alegorias, dramatizações e mais objetos sagrados, iniciando-se a festa uma semana antes, com a reza do terço, todas as noites, nas casas. É desta época a introdução dos arraiais ao longo da Praça da Matriz, feito por romeiros que vinham do interior, trazendo seus produtos que eram vendidos durante as noites em forma de mingaus, bolos, salgados, como forma de garantir o retorno de cada família em seus locais de origem após o término das festas. Nessa época o tempo de São José tinha uma espécie de Coreto, que perdura até a década de 60, onde os padres oficiantes subiam e, juntamente com uma Banda de Música, passavam a oficiar os sermões e os cânticos sagrados em homenagem ao padroeiro de Macapá.
No período do Território Federal do Amapá, a partir de 1949, os padres do Pime (Pontifício Institituto das Missões) passaram a dirigir a festa. Com a abertura de novas ruas e aumento da população, o trajeto ficou maior,  se estendendo até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a partir de 1954.
Na década de 70, o roteiro foi corrigido e a procissão do Círio de São José passou a obedecer um outro trajeto compreendendo ruas novas, mas sempre no sentido Igreja Matriz de São José, Fortaleza de São José e retorno pela Igreja.
Atualmente, com a construção da nova catedral de São José, o roteiro absorve a Igreja Matriz de São José, Capela de São José na Fortaleza de Macapá, Nova Igreja Catedral, com retorno pela Rua General Rondon, Avenida FAB, Candido Mendes e Mendonça Furtado.
Neste ano (2008) foi celebrada, portando, a 249ª festa do santo padroeiro de Macapá.

Curiosidade:
A Procissão de São José do dia 19 de março de 1948
Narrada por Amiraldo Bezerra*


          Desde muito pequeno, nossos pais nos passaram uma rígida formação religiosa. Lembro-me com saudades do dia 19 de março de 1948, quando, com alguns anos chegado das Ilhas, e eu, dentro dos meus oito anos de idade, acompanhei pela primeira vez uma procissão em devoção a São José, padroeiro de Macapá. Sempre a vida nos marca com acontecimentos que ficam em nossa memória para sempre.      Aquela calça curta de brim, segura por suspensórios, camisa de algodão listrada, sapato de verniz e um chapeuzinho de pano feito por mamãe, estão na primeira fotografia que tirei na vida.

Quando que eu imaginava tanta evolução em tão pouco tempo! Nossa mente é um filme que se revela quando começamos a relembrar das coisas passadas.  Quem vem do interior traz tantas lembranças lindas armazenadas em nossa cuca, que quando o botão das recordações é acionado, surpreendemo-nos por suas revelações. Daí em diante, todos os anos, enquanto estive em Macapá, nunca mais perdi uma procissão em homenagem a São José.

Saíamos em frente da Igreja da Matriz, pela parte da tarde. Dia do Santo, 19 de março, com foguetes de rabo, soltados por um soldado da Guarda Territorial, aquele moreno magrinho que também vendia cascalhos, batendo um triângulo desses que usam em conjuntos de forró, que subiam até o infinito para espocarem em homenagem ao nosso padroeiro. A banda “Furiosa”, como carinhosamente era chamada, formada por membros da Guarda Territorial, no sopro do trombone do guarda Passarinho, no tambor do Biroba e de outros, tocavam os hinos de nossa igreja.

Íamos contritos, rezando e cantando, primeiro pela Rua São José, passando em frente ao Elite Bar; à direita o Pitaíca e depois o Bar Continental do Natan, que mesmo sendo judeu, respeitava e muito nossa religião, fechando as portas. A casa do Calango, do Balufa o grande Aldoni e seu irmão Heraldo, filhos do Seu Zeca Furtado, do tio Elói e tia Anita, pais do Nino; Porpino da D. Zila, genitores das moças mais lindas do pedaço.

Dobrando à esquerda na Iracema Carvão Nunes, passávamos em frente às casas do Álvaro Vasquez e do Aymoré. E em seguida a vila do Ipase, onde morava o professor Tostes, grande mestre de nossa língua portuguesa e pai de amigos ilustres de nossa terra; do Paulo Gillet e todos os outros, que com mesas decoradas de flores homenageavam o Santo Padroeiro.

Dobrava na Rua General Rondon, passava ao lado do Colégio Amapaense, vinha a casa do Seu Raimundo Viana e d. Mariquinha, Otaciano e Irene, Dr. Rocha (médico parteiro); Lourenço Borges Façanha e d. Diva (chegados a Macapá ainda em1940) com uma mesa coberta por toalha bordada e flores junto à imagem do Santo Padroeiro e seus filhos, o Zé Macapá e a Maria, ainda crianças, vestidos de branco. O cortejo seguia para dobrar à esquerda, na Rua José Serafim, do Bairro Alto; seguindo em frente a casa dos Monteiro Chagas, pai da Jesuca, da Regina, Teodorico e outros; depois a residência do Eugênio Machado; comércio do Abilio; casa do Casé e do Chico Torquato, depois a casa do “Pé Grande” e Estanislau; a seguir a do Ditinho da família Coutinho, todos pioneiros do Amapá.

Dona América mãe do Birinha; vinha o Bar e Café Moeda; a casa do Duca Serra; Usina Territorial; residência do seu Medeiros e Casa das Cordas do Seu Luiz. Dobrávamos a esquerda, tendo a nossa direita a Farmacia Serrano e a Casa Fé em Deus do Alcolumbre e Dona Alegria,para em seguida passar em frente à residência e comércio do Abraão Peres, do Bar Restauração da Familia Jansen Costa (Cadê o Joel “sabão”) e por fim a casa da família dos Torrinhas, seu Manoel e filhos, entre eles o Dr. Arthur Torrinha, otorrinolaringolotista dos bons, para então chegarmos ao cruzeiro em frente da Igreja de São José e assistirmos à missa campal, tendo chuva ou não.

Na última noite dos festejos ia passear no arraial, nas barquinhas,na barraca do Santo e às paqueras,incansáveis e que belas paqueras... (´Bezerra, Amiraldo; A margem  esquerda do Rio Amazonas, Macapá, 2008, Premius Editora, Fortaleza,CE. P. 38-39).