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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Comunidaes e Distritos do Amapá: IGARAPÉ DO LAGO


Igarapé do Lago foi um distrito amapaense, pertencente ao municipio de Santana, criado pela Lei Federal nº 7.639, de 17 de dezembro de 1987. Ocupa uma área de 625,9 km2. População (IBGE 2010): 651 habitantes (1,4 hab/km2).


A antes comunidade quilombola Igarapé do Lago é agora um distrito da cidade de Santana, distante 110 quilômetros de Macapá, e localizada em parte elevada onde predominam os campos de terra firme. A localidade é banhada por um igarapé, afluente do rio Vila Nova, que se alonga por regiões de terras baixas, inteiramente alagadas durante o inverno, formando extenso um lago de onde vem o nome da comunidade: Igarapé do Lago. O acesso terrestre à comunidade é feito pela BR 156 no eixo sul (Macapá /Laranjal do Jari), mais 29 quilômetros de ramal sem asfalto, assim como parte da BR. Por via fluvial, o aceso se faz pelo rio Vila Nova, saindo de Santana.

Igarapé do Lago surgiu com a libertação dos escravos, em 1888. Anteriormente, na região existia o sítio de Joana Barreto, poderosa posseira e detentora de escravos. Com a abolição da escravatura, os libertos se mantiveram na região e construíram suas casas em frente ao sítio, na parte elevada. Para sua sobrevivência, os ex-escravos organizaram suas roças de mandioca, milhos e café, juntamente com a criação de gado, além da caça e da pesca.

Segundo registros encontrados na prefeitura de Santana*, a vila tem aproximadamente 90 anos de existência. Aos ex-escravos, juntaram-se posteriormente outros moradores, provenientes das regiões das ilhas do Pará, descendentes de açorianos e portugueses que haviam povoado Mazagão Velho. Destaca-se, entre os que se somavam na formação da comunidade, a figura de Belmiro Macedo Medina, que veio de Mazagão Velho e trouxe o festejo de Nossa Senhora da Piedade, que é a festa mais tradicional da comunidade. Segundo os relatos, foram os escravos refugiados no Mazagão Velho que ensinaram para Belmiro o rito da festividade de Nossa Senhora da Piedade. Eles faziam tamboca** e tambores de couro de animal para que se tocassem e cantassem para a santa. Durante o festejo religioso, eram feitas promessas e pagavam-se penitências. Uma das mais singulares era ficar ajoelhado em cima de uma pedra, rezando. O mesmo acontecia se alguém reclamava da comida servida na mesa da santa.

Até o início da década de 1940, a comunidade rural de Igarapé do Lago era um pequeno vilarejo, onde residiam aproximadamente 150 pessoas***. Com a criação do (extinto) Território Federal do Amapá, o Governo Amapaense decide implantar escolas em comunidade rurais para atender à população. Uma das comunidades seria o Igarapé do Lago. No início do ano de 1944, as aulas começaram em duas pequenas salas, que foram rudimentarmente construídas, ao lado da casa de Manoel Barreto, um dos moradores mais tradicionais da vila. Apenas em 1948, a escola ganharia uma estrutura adequada. Sua inauguração foi um momento histórico importante para a comunidade.

A comunidade cresceu com os casamentos dos filhos das famílias pioneiras e com a migração de pessoas vindas de outras localidades, como Macapá e Vila Nova. Foram também criadas outras festas, como a do Divino Espírito Santo e a da Nossa Senhora da Conceição. Antigamente, essas festas eram feita só pela comunidade; hoje, elas se realizam com auxílio recebido dos governos municipal (Macapá) e estadual, através da associação.

Atualmente, a principal atividade econômica para a sobrevivência da comunidade continua sendo a agricultura. O modo de vida e a organização da comunidade têm como referência o trabalho na terra. Percebe-se que os laços de coesão social e identidade estão fortemente vinculados à labuta e ao uso comum da terra, sendo possível afirmar que “a relação com a terra se constitui elemento aglutinador no processo de preservação de uma identidade étnica, cuja ligação com o passado contribui para a manutenção de práticas sociais e culturais singulares em um espaço próprio”.



Condições de Vida

A organização espacial das casas da comunidade se dá nas margens da rua que vem do ramal de acesso. As casas – que, em sua maioria, são de madeira e cobertas por telha – estão centralizadas, formando um vilarejo. Quase todas elas ficam por volta de 80 cm do chão, como forma de evitar a umidade. No momento da pesquisa, foram identificadas 127 famílias* residentes, dentre as quais 45 representantes responderam ao questionário socioeconômico.

As moradias são, majoritariamente, próprias, mas existem aquelas cedidas por familiares, normalmente para acomodar o crescimento da família pelo casamento. O número de cômodos das casas se concentra entre 03 e 06 divisões. Os banheiros são normalmente internos, mas foram encontradas 15 moradias com banheiros externos, sendo que 02 casas não possuíam banheiro.

A comunidade não aceitou participar do projeto Minha Casa, Minha Vida. Segundo os relatos, os motivos foram a necessidade de pagamento de R$ 1.200 pela construção; a impossibilidade da venda do imóvel construído, por meio do programa; e de realização de obras de ampliação ou qualquer modificação na estrutura original. De acordo com os informantes, as casas não atendiam às necessidades das famílias, que normalmente acomodam mais de uma família nuclear (pai, mão e filhos) na mesma moradia. As regras do programa financiado pela Caixa Econômica Federal não eram condizentes com suas necessidades, o que tornou o projeto inviável para aqueles moradores.

Com relação à infraestrutura, as casas contam com energia elétrica, através da rede de distribuição pública. A água para o consumo cotidiano é retirada de igarapés, nascentes ou rio – o que justifica o item “Outro”, presente no gráfico. A minoria da amostra declarou ter poços. A vila não tem acesso à rede de distribuição pública de água tratada.

O lixo da grande maioria das casas é queimado ou descartado no ambiente. Não há coleta pública, pois os dejetos sanitários são, na maioria das casas dos respondentes, depositados em fossas; mas também acontece o descarte no ambiente.

A comunidade conta com uma escola municipal de Ensino Infantil e Básico (1ª a 5ª série). Além das crianças do distrito de Igarapé do Lago, a referida escola também atende às comunidades de São Benedito e São Sebastião. Os alunos das comunidades mais distantes são transportados em veículos escolares da Prefeitura de Santana. A escola foi inaugurada em 2010 e é composta por três salas de aula, cozinha, salas administrativas e laboratório de informática. A complementariedade do Ensino Básico (5ª a 9ª série) e do Médio é ofertada pelo governo do Estado em um prédio de madeira antigo. O ensino é modular e os moradores reclamam que os professores não chegam a ficar um mês completo para ministrar as aulas.

Para suas festas e comemorações, assim como para as reuniões e os movimentos de reivindicação, os moradores dispõem de um centro comunitário e de uma quadra de esportes coberta. As estruturas são bem conservadas e os espaços amplos. Entre as duas estruturas, ligadas por uma área calçada, foi construído um pequeno parque paras as crianças. Na quadra, os comunitários organizam jogos internos e com outras com comunidades.

Para celebrações religiosas, os moradores têm uma igreja católica recém-reformada e uma evangélica. A maioria das pessoas da comunidade é católica, mas a igreja evangélica chegou na década de 1960, instalando-se com um pastor que mora na vila, conseguindo atrair vários fiéis.

Com relação aos equipamentos sociais para assistência de saúde, a comunidade dispõe de posto de saúde, que funciona 24hs com técnicos e agentes de saúde. Os médicos visitam a comunidade a cada 03 meses. Apesar de poderem contar com a assistência básica na comunidade, os moradores reclamam que faltam remédios no posto. Segundo os relatos, os remédios só chegam porque os técnicos do posto vão até a cidade procurar pessoas que viabilizem os medicamentos. No final de dezembro de 2013, o posto foi equipado com uma ambulância, atendendo a uma antiga reivindicação da comunidade para o transporte de casos emergenciais e de maior complexidade para os hospitais de Santana e Macapá.

Quando perguntados sobre a estrutura que buscam para o tratamento de saúde, os respondentes confirmaram a grande importância do posto de saúde da localidade, seguido do hospital da cidade mais próxima, Santana. Vale lembrar que o posto de saúde não dispõe de médicos constantes, o que obriga o deslocamento para consultas. A medicação caseira é, também, uma opção para o tratamento de enfermidades menos graves. Os respondentes podiam indicar até três opções.

Ainda no cuidado com a saúde, as famílias da comunidade cultivam ervas e raízes para remédios caseiros, extraindo seivas e óleos para cuidados com torções, problemas musculares e problemas de pele – uma forma de lidar com as doenças menos graves. A comunidade tem parteiras que sabem acompanhar o período da gestação com as mudanças no corpo das mulheres e a posição dos fetos, assim como “pegar menino” – expressão usada na comunidade para quem realiza partos. Além das parteiras, a comunidade tem “benzedores” que associam rezas e rituais religiosos para tratar de doenças, principalmente das crianças.

Os dados coletados sobre as enfermidades presentes na comunidade indicam que a doença mais comum entre os moradores é a malária. A malária é enfermidade típica da região, e os dados da comunidade confirmam os altos índices no Estado do Amapá. Para a coleta desse dado, foi pedido aos entrevistados que apontassem as doenças mais comuns no limite de três.

A principal atividade de trabalho na comunidade é a agricultura com cultivo de mandioca – para o fabrico da farinha e demais derivados – e melancia. Dentre os 45 respondentes, a grande maioria (43) apontou a agricultura como atividade da comunidade. Com exceção dos que declararam emprego fora da comunidade, as outras fontes de renda são complementares ao trabalho na terra.

A renda, dentre os respondentes, considerando a variedade de ocupações profissionais, se concentra em até um salário mínimo, com forte presença dos agricultores nessa faixa. Apenas um respondente, aposentado, declarou renda familiar acima de seis salários mínimos, e outro declarou não ter renda.

A renda para manutenção da vida das famílias é complementada pelos benefícios sociais. Dos 45 entrevistados, 23 recebem algum tipo de benefício, dentre os quais 17 recebem a Bolsa Família, do Governo Federal, e 05, o Renda para Viver Melhor.

Considerando a renda dos moradores da comunidade, buscou-se identificar os bens móveis que se possui para seus deslocamentos. O resultado foi que, entre os entrevistados na faixa de renda de até um salário mínimo, os bens mais comuns são bicicleta e embarcação motorizada. Na segunda faixa de renda, a bicicleta se repete como o bem mais presente, seguido do carro. Nas demais faixas de renda, o automóvel é o bem presente em todas.

Ainda considerando a renda e a posse de equipamentos domésticos úteis para sobrevivência e qualidade de vida, verificou-se que, entre os entrevistados na primeira faixa de renda até um salário mínimo, os bens mais presentes são fogão e televisão, seguidos da geladeira e ventilador. Na segunda faixa, os bens mais comuns são fogão, televisão e ventilador. A geladeira e o aparelho de DVD também são recorrentes nas respostas dos entrevistados nessa faixa de renda. Dos respondestes que declaram receber entre dois e três salários mínimos, os bens mais presentes são geladeira, fogão, antena parabólica, televisão, aparelho de som e ventilador. Os bens geladeira, fogão, televisão e aparelho de DVD estão presentes em todas as demais faixas.

Analisando a escolaridade dos entrevistados, considerando a diversidade das ocupações profissionais, existe uma concentração no Ensino Fundamental incompleto, principalmente entre os agricultores. Como curiosidade, chama atenção a presença de pessoas que não frequentaram a escola e de formados frequentando o Ensino Superior.

Considerando as condições de vida na comunidade, quando questionados sobre as principais dificuldades para se viver no Igarapé do Lago, os moradores apontaram, com maior recorrência, as vias de acesso, a ausência de transporte público e a falta de incentivo à produção. Os respondentes apontaram até duas dificuldades.

Raimundo, líder da comunidade, relatou que os moradores têm esperança de a localidade se tornar Município. Isso permitira um maior aporte de recursos para atender às necessidades da comunidade e desenvolvê-la. Um desafio importante para a comunidade é a ocupação profissional dos jovens. Muitos não conseguem se colocar no mercado de trabalho e se manter, morando na comunidade; além disso, o trabalho na roça não é atrativo para os jovens, tanto pela renda que gera quanto pelo tipo de trabalho. Segundo Raimundo, “quem estudou não quer ficar no mato e trabalhar na roça” (entrevista de campo, 2013). A fala de seu Raimundo indica que a educação oferecida na escola da comunidade não está voltada para o seu modo de vida. Segundo os relatos, uma vez que não é possível que todos se empreguem em ocupações urbanas, o ensino deveria ser voltado para as atividades cotidianas da comunidade, dando oportunidade para o desenvolvimento e o aprimoramento de práticas e técnicas dos trabalhos realizados na comunidade.



PATRIMONIO CULTURAL

O cotidiano da comunidade é marcado pelo sentido do trabalho relacionado à terra, isto é, pelo tempo de roçar, plantar e colher. Tempo, muitas vezes, de esperar pelo inverno e pelo verão – as duas estações que predominam na região e das quais dependem para começar o ciclo de cada novo ano. O uso da terra é em lotes de família ou em áreas de uso coletivo, mas, mesmo dentro dessas áreas, existe a divisão da plantação pelas famílias.

A cultura da mandioca predomina, seguida pela roça de melancia, mas eles também cultivam maracujá e abacaxi. Infelizmente, no momento da pesquisa, não era momento de colheita e fabrico dos derivados da mandioca, de modo que não pudemos acompanhar o fazer da farinha. A criação de gado, suínos e aves é pequena. Os animais pequenos ficam soltos nos quintais; já o gado é criado em áreas de pastagem próximas da vila. A piscicultura é praticada por alguns moradores, mas como complemento à agricultura. A venda do excedente produzido acontece na própria vila, com os consumidores que vão até a comunidade. Poucos comercializam nas feiras populares em Macapá e Santana.

Com relação à tradição da festa, a mais importante é de Nossa Senhora da Piedade. Os festejos são organizados em diferentes etapas, entre as quais existem vários eventos. O principal ritual da festividade é a procissão da santa pelo igarapé. Os eventos realizados são rezas e festas dançantes, além de comilança, demarcadas pela dualidade sagrado/profano.

A organização da festa é feita pelos descendentes das famílias que estão na origem da comunidade, segundo relato dos moradores. Cada família organiza-se internamente e distribui tarefas entre os participantes.

A lógica própria dessa organização remonta à tradição e conta com uniformização, nomeação de grupos e de responsáveis. Possui, ainda, uma linguagem própria e definição de espaço de atuação de cada grupo. Toda esta simbologia une a família e a comunidade à santa e à fé, formando uma cosmologia própria, partilhada por todos.

A festa invade toda a extensão do igarapé durante a realização da procissão fluvial, além do distrito de Igarapé do Lago, que acompanha a procissão terrestre e as celebrações para a santa.

A festa começa no dia 24 de julho, com uma alvorada festiva às 5 horas da manhã, seguindo-se o corte do mastro, que é assentado à tarde. Depois vem a primeira novena e o primeiro Batuque, iniciado às 21 horas. Do dia 25 a 28, prosseguem as novenas, conforme o ritual.

Entre os dias 29 de junho a 1º de julho, é feita a procissão fluvial. Quando retornam ao trapiche da vila, os participantes da procissão são festivamente recepcionados pela comunidade. Depois, em procissão, deslocam-se até a igreja, local onde se fazem as cerimônias religiosas.

No dia seguinte, acontece outra manhã festiva, às 5 horas da manhã, e o padre celebra a missa às 8 horas. À tarde, há a peregrinação com a imagem da santa em romaria a todos os lares da vila. À noite, reza-se a novena, seguida de um baile popular.

A festa termina no dia 3 de julho, com a última manhã festiva e, logo depois, a realização de bingos e leilões. Às 11 horas, faz-se a exibição da “Procissão da Meia Lua”, no Igarapé e, às 14 horas, começa a grande apresentação do Batuque. Às 20 horas, ocorre o baile de encerramento e, à meia-noite, o esperado espetáculo pirotécnico.

As ladainhas rezadas durante a festa são em português e latim e, ao fazer a procissão, a santa “tira a esmola de casa em casa” – o que significa receber donativos dos moradores.

No contexto de organização do Batuque, surge o grupo de foliões, como são denominadas as pessoas da família que se responsabilizam pela festa. O grupo possui um “mantenedor”, que é responsável por aconselhar e distribuir tarefas. Ele é, em geral, o mais velho ou o mais respeitado da comunidade, sendo um cargo de grande importância. Na procissão, o mantenedor se responsabiliza, também, por iniciar os mais jovens na subida e na descida do igarapé, onde a santa visita as casas ribeirinhas, dando a sua bênção através do som do Batuque e da reza. O mantenedor usa uma toalha branca no ombro esquerdo e uma estola da mesma cor, tendo nas suas pontas umas cruzes em azul. O mantenedor pode ainda aplicar a punição aos foliões que não cumpriram alguma obrigação para com a Nossa Senhora da Piedade. A pena consiste em anunciar-lhes o nome e ordenar que eles rezem orações à santa, ajoelhados sobre uma pedra pontiaguda pintada de branco.

A bandeira branca contendo a imagem da santa desenhada em azul é levada durante a procissão por um dos mais antigos moradores. Seu mastro é enfeitado de plantas e fitas. A “Labada” – uma cruz branca de 2 metros de altura – representa a fé em Cristo e segue com a procissão.

Para o baile, um grupo de quarenta mulheres conhecido como “Escravas Devotas” de Nossa Senhora da Piedade dançam durante o Batuque, dando voltas e cantando o coro das músicas tiradas pelo cantador. Elas são denominadas de “Bailantes”. O cargo das “Bailantes” é vitalício e, no caso de morte, a substituição é feita pelos organizadores da festa. Normalmente, a substituta é uma parenta da falecida.

Os cargos mais altos nos grupos são vitalícios, sendo preciso galgar degraus para conseguir conquistar lugares como o de chefe, de responsável por grupos, entre outros. Além do reconhecimento dos moradores, o uniforme dos foliões os diferencia dos demais participantes do festejo, sendo que os cargos mais elevados possuem uniformização diferenciada.

Isso proporciona a identificação dos descendentes da família, fato de importância, visto que não são todos que mantêm moradia em Igarapé do Lago, mas participam ativamente do festejo. Isso denota a construção social do que representa “comunidade” para eles.

A construção sobre o sentido da comunidade é, a propósito, mediada pelas múltiplas histórias de vida, que se somam na formação da história da vila e na construção de seu modo de vida e de sua fé. Assim, os membros da comunidade são aqueles que partilham dessa história e comungam com Nossa Senhora da Piedade, participando do festejo. Logo, não é necessário morar em Igarapé do Lago para ser da comunidade, a qual está representada na comunhão da fé e simbolizada nos rituais da festividade.

O ápice da comemoração da santa é a procissão fluvial. Ela é repleta de rituais que, passados de geração para geração, são compostos de bandeiradas, fogos, reza e Batuque. A embarcação da procissão é ornamentada de azul e branca. Trata-se de um barco a remo, que leva cerca de quinze pessoas, distribuídas por funções. Há um homem que é responsável pela bandeira, uma mulher que é responsável pela santa e pessoas que soltam os fogos e os que remam.

Próximos às casas ribeirinhas, os foliões soltam fogos e tocam o Batuque, e os moradores que querem a bênção da santa acenam para a procissão, que atraca e desce do barco, entoando a reza ao som do Batuque. Os moradores agradecem com algum tipo de produto, denominado de “oferta”.

Percebe-se que tais ofertas são produtos cultivados na propriedade, como cachos de banana, galinhas, ovos, etc. Essa troca, que pode ser considerada uma relação de dádiva, não é o motivo da reza na moradia, podendo existir vezes em que a procissão para, mas não recebe nada em troca.

A reza é feita na sala das casas e duram cerca de vinte minutos; oportunidade em que muitas pessoas se emocionam e fazem promessas. Ao irem embora, o Batuque continua a ser tocado a uma distância relativa, até que todos param de tocar e remam.

Atualmente, devido à extensão do igarapé e à necessidade de estadia, outra embarcação segue a procissão, levando os mantimentos e as malas dos foliões. Longe das casas e onde o igarapé se torna de difícil acesso, os foliões se separam nas duas embarcações. A segunda que carrega as malas possui motor e puxa a canoa por uma corrente.

A santa é carregada dentro de um recipiente e embrulhada em um manto; apenas dentro das casas ela é retirada desse local para que seja dada a bênção. É a imagem da santa que centraliza e emana esse poder, sendo que as preces são direcionadas a ela.

O ritual acontece da mesma forma em diferentes casas, e a procissão continua pelo igarapé até onde haja moradias. No retorno da santa ao Igarapé do Lago, tudo que foi arrecado como donativo servirá para as premiações em bingos ou leilões. O dinheiro conseguido durante a festa vai para a igreja.

A maioria dos instrumentos usados no Batuque é fabricada por membros da comunidade. São três os tambores. O Cupiúba*, o maior deles, cuja função é fazer a marcação do Batuque. Ele tem cerca de um metro de comprimento e é feito da árvore chamada cupiubeira. O Macacaúba**, pouco menor que o primeiro, feito da árvore de mesmo nome. O Cajuna***, menor dentre os tambores e utilizado durante a procissão. Outro instrumento utilizado é chamado de Taboqueira****, feito de gomos de taboca – espécie de bambu – contendo, em seu interior, grãos de milho ou de outras sementes. E ainda o Rapador*****, feito de taboca, que possui gomos escavados por fora onde o tocador provoca o som, passando uma vareta sobre os gomos. Os pandeiros são confeccionados com tiras de árvores, tampinhas de lata e couro de animais******.

Outros santos também são cultuados pelas famílias. A festa de Nossa Senhora da Conceição é feita pela família Paes, em conjunto com a comunidade. A festa do Divino Espírito Santo é feita pela família Barreto, juntamente com o Governo do Estado. Nessa última, há corrida de cavalo, Marabaixo e ladainha; além disso, a banda da Polícia Militar é convidada para fazer uma apresentação, acompanhando a ladainha.

Embora a maioria dos moradores seja católica, a religião protestante está crescendo. Vale ressaltar que a relação entre católicos e evangélicos é pacifica, inclusive um participa das celebrações do outro, demonstrado respeito mútuo pelas tradições e pela religião de cada morador da comunidade.

Considerando a preservação da natureza, a comunidade demostrou ter uma grande sensibilidade, apesar de não receber, por parte das entidades públicas, qualquer instrução sobre educação ambiental. Ainda assim, os entrevistados consideram muito importe preservar, além de ponderar que todos devem cuidar aa natureza por depender dela para sobreviver.

O rio é um elemento muito importante para essa comunidade – notório componente das suas tradições do local, como a procissão fluvial. A terra, por sua vez, é vista como elemento necessário para a subsistência da comunidade. As atividades de pesca e caça são para complementar a alimentação. Os moradores lembram que a comunidade já foi tema de reportagem da Rede Globo, para mostrar como uma comunidade sobrevive morando em uma área distante das cidades, onde costumes como plantar, caçar e pescar é o que garante o alimento do diário.

Para finalizar este relatório, destacamos o sentido atribuído pela comunidade ao ser quilombola. A vinculação com o termo “quilombola” acontece de maneira direta, devido à descendência escrava, presente na memória do grupo. A identidade quilombola é consolidada e interpretada, nesse caso, a partir do fator histórico, que remete à opressão e à dependência do branco, mas também ao respeito e à aceitação da luta e da cultura negra.

A organização daassociação dos moradores e a certificação como comunidade remanescente de quilombo foram mecanismos na tentativa de trazer melhorias para a comunidade. Contudo, a falta de explicações mais detalhadas do que são seus direitos e deveres como comunidade quilombola gera angústia e descontentamento entre os moradores. Segundo Raimundo, eles se sentem “escravos” em sua própria terra, pois estão presos a ela, não podendo vendê-las ou usufruir de maneira privada da sua propriedade. Nas palavras de Raimundo, “a titulação das terras como terras de comunidade quilombola é a nova escravidão do negro. Por que o branco tem sua fazenda e faz o que bem entende com sua propriedade e nós não podemos?” (Entrevista de campo, 2013). Raimundo é a favor da certificação que permite o autorreconhecimento da comunidade como remanescente quilombola pela Fundação Palmares, mas é contra a titulação das terras.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MAIA, Joseane. Herança Quilombola Maranhense: histórias e estórias. São Paulo: Paulinas, 2012.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAPÁ, UNIFAP – Patrimônio Cultural Quilombola: http://lides.unifap.br/comunidades/index.html

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

CARNAVAL AMAPAENSE - AV FAB - OS PRIMEIROS DESFILES


As Escolas de Samba em Macapá foram uma evolução dos próprios blocos de sujo e alguns ranchos, que passaram a desfilar nas ruas com mais organização. O pontapé inicial partiu de instituições oficiais como a Prefeitura de Macapá e o Governo do então Território do Amapá, que a partir de 1965 passaram a coordenar o Carnaval amapaense, concentrando os desfiles na Avenida FAB, que passou a ser considerada, desde então, a “Passarela do Samba”.

Inicialmente os desfiles ocorreram em frente à Praça Barão do Rio Branco, com direito a palanque, arquibancadas, e uma rampa elevada onde se apresentavam os sambistas escolhidos por cada agremiação, valendo ponto. Aos poucos, a pista aumentava mais, passando os desfiles a serem organizados no leito da Av FAB desde a Leopoldo Machado até a General Rondon.

Com a fundação da Liga das Escolas de Samba do Amapá, em 29 de julho de 1987, várias Escolas de Samba passaram a ter um status de instituição cultural com firma reconhecida, e a distribuição das verbas públicas passou a ser centralizada na Liga, que fazia a distribuição entre as outras escolas.


Assim, passaram a fazer parte dos desfiles da Avenida Fab, as escolas Boêmios do Laguinho, Maracatu da Favela, Cidade de Macapá, Piratas da Batucada, Piratas Estilizados, Emissários da Cegonha, Império da Zona Norte (ex Jardim Felicidade), Unidos do Buritizal e Império do Povo. A partir daí, veio um novo episódio da história do Samba no Amapá: a era Sambódromo.

CARNAVAL AMAPAENSE - OS BAILES CARNAVALESCOS


Os bailes carnavalescos de Macapá foram uma evolução das famosas Batalhas de Confetes. Vários foliões e brincantes sentiram, com o crescimento da cidade, a necessidade de brincarem em locais privativos, com mais segurança, e com atendimentos mais especializados de consumos de bebidas e iguarias próprias do Carnaval. Assim, as famílias passaram a frequentar os famosos Bailes Carnavalescos.

Clubes como o Amapá Clube, Esporte Clube Macapá, Trem Desportivo Clube, Macapá Hotel, a Piscina Territorial, e algumas boates particulares, no período de Momo passaram a organizar esses bailes, onde predominavam as marchinhas, ao som de uma banda.


Passo a passo com os clubes, surgiram também conjuntos musicais como Os Cometas, os Industriais do Samba, os Setentrionais, os Mocambos, entre outros, que passaram a animar os bailes carnavalescos que perduraram, em Macapá, até a década de 90. Além da capital, outros locais como Santana e Serra do Navio, passaram a organizar também esses bailes, que davam um espetáculo a parte nas folias de Momo.


CARNAVAL AMAPAENSE - AS BATALHAS DE CONFETES


Ao final da década de 40, as agremiações carnavalescas de então, passaram a se organizar melhor, com passistas, porta-estandartes e bateria, quesitos obrigatórios para os Ranchos se apresentarem em público. Mas a idéia esbarrava na falta de recursos e local adequado. Foi quando surgiram os comerciantes  como Sandoval da Silva Cunha (o Barrigudo) e Orlando Ventura (arrendatário do Macapá Hotel) que passaram a organizar os eventos, quase sempre aos finais de semana. Esta concentração de pessoas passou a gerar lucros garantidos aos seus estabelecimentos comerciais.

A primeira batalha de confetes foi realizada em frente ao Macapá Hotel. Lá, as recém-criadas agremiações carnavalescas desfilavam sempre aos sábados e domingos gordos, deixando as terças-feiras de carnaval para os desfiles de foliões e blocos de sujos pelas ruas da cidade.


O crescimento da cidade, e dos próprios blocos e ranchos, fizeram com que surgissem outros locais para apresentação. Assim, o Cacique Bar, na Cora de Carvalho com a Hildemar Maia, de propriedade de Sandoval da Silva Cunha, passou também a organizar estas batalhas de confete. Na Feliciano Coelho, o comerciante Miguel Nunes, mais conhecido por “Barrigudo”, organizava também outra batalha de confetes. Outro local foi o pátio da Rádio Difusora de Macapá. No Laguinho o local de concentração era a Casa Estrela, da família Pinheiro, na esquina da General Rondon com a Ernestino Borges.


CARNAVAL AMAPAENSE - ORIGENS



A história do Carnaval Amapaense começa a partir de 1946, quando vários operários da construção civil, vindos principalmente do Estado do Pará, para a construção das primeiras edificações do Território, no término do expediente dos finais de semana se reuniam e passavam a constituir, entre um gole de cerveja e outro, umas rodas de samba.

Entre esses operários, que se tornaram grandes carnavalescos, destacam-se o Mestre Bené, José Vagalume dos Santos, e os mestres Hollywood, Picolé, Fabiano e Mané Souza. Nesse mesmo período, ao comando desses mestres, surgiram os blocos de sujo e os ranchos, uma espécie de embrião das atuais Escolas de Samba.

Assim, surgiram blocos como Os Tricolores da Folia, que se transformaram no atual Boêmios do Laguinho; e mestre Vagalume e Gertrudes passaram a constituir o Maracatu da Favela, também inicialmente como bloco.


A aglomeração cada vez maior de pessoas inspirou em comerciantes famosos como Sandoval da Silva Cunha, proprietário do  Cacique Bar, a organizar encontros no próprio estabelecimento (na Cora de Carvalho com a Hildemar Maia); e Miguel Nunes (Barrigudo), da Casa Estrela d’Alva, e assim surgiram as famosas Batalhas de Confete.